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WhatsApp Image 2026 04 09 at 18.57.51‘Eu te trato como todo homem macho alfa trata sua esposa. Com amor, carinho, atenção e autoridade de macho alfa provedor e fêmea beta obediente e submissa. Como toda mulher casada deve ser”. Essa é uma das mensagens de celular enviadas pelo tenente-coronel Geraldo Neto à sua mulher, a soldado Gisele Alves, ambos da Polícia Militar de São Paulo, dois dias antes de ela ser encontrada morta com um tiro na cabeça em casa, em 18 de fevereiro passado. O oficial, que sustentou inicialmente a versão de suicídio da mulher, foi preso em 18 de março e é acusado de feminicídio e fraude processual.
Expressões como “macho alfa” e “fêmea beta” são comuns na chamada machosfera, ambiente tóxico que se espraia com rapidez e volume pela internet, sobretudo em plataformas de vídeos como o Youtube, alimentando condutas misóginas e violentas como a do tenente-coronel Geraldo Neto. “O volume e a circulação desses conteúdos que naturalizam a violência faz com que as pessoas levem isso para fora da internet”, acredita a coordenadora de pesquisas do NetLab da UFRJ, Luciane Belin.
A pesquisadora sabe bem do que está falando. Ela liderou, em 2024, o estudo “Aprenda a evitar esse tipo de mulher: estratégias discursivas e monetização da misoginia no Youtube”, do NetLab em parceria com o Ministério das Mulheres, uma robusta análise sobre a desinformação e a violência de gênero nas plataformas digitais. Foram analisados 137 canais com perfil misógino. No início deste mês, a equipe do NetLab revisitou os canais da pesquisa original e constatou que 90% deles seguem ativos. Mais que isso: aumentaram a produção de conteúdo e registram hoje quase 20% a mais de inscritos.
O incremento da machosfera na internet coincide com o aumento dos casos de feminicídio no país. Em 2025, foram 1.568 mulheres vítimas de assassinato no Brasil, com crescimento de 4,7% em relação ao ano anterior. Nos últimos cinco anos, houve um aumento de 14,5% nos registros de feminicídios, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. “É muito difícil descolar uma coisa da outra. O aumento da misoginia online está ligado ao aumento da violência contra mulheres na vida real”, diz Luciane Belin.
Nesta entrevista, a pesquisadora detalha as manobras feitas pelos influenciadores para camuflar discursos de ódio em roupagens de dicas, treinamentos e cursos, aproximando os canais misóginos do chamado “universo coach”. E chama a atenção para a falta de transparência das plataformas, que acabam lucrando com a monetização dos canais misóginos.

WhatsApp Image 2026 04 09 at 18.57.51 11Foto: Arquivo pessoalJornal da AdUFRJ — Como foi feita a reavaliação do estudo do NetLab de 2024, e o que você e sua equipe constataram?
Luciane Belin —
Para a pesquisa original, coletamos os dados em abril de 2024, e publicamos o estudo em dezembro daquele ano. O que fizemos agora, no início de março, foi revisitar os mesmos canais do Youtube analisados em 2024 para verificar se eles estavam ativos, se tinham produzido novos conteúdos e se conquistaram mais inscritos. E constatamos que 90% deles estão no ar. Dos 137 de 2024, 123 seguem ativos.

Quase todos, então. E em relação ao número de inscritos?
A quantidade de inscritos nesses canais, e também a quantidade de visualizações dos vídeos, já nos supreenderam na pesquisa inicial. Aqueles 137 canais tinham 125 mil vídeos publicados, que alcançavam mais de 4 bilhões de visualizações. Os 123 perfis que seguem disponíveis somavam 19,5 milhões de inscritos em 2024. Hoje, eles acumulam mais de 23 milhões de seguidores, um crescimento de 18,55%, e produziram mais 25 mil vídeos nesses dois anos. O que isso nos diz? Que esses canais têm um público que consome seus conteúdos misóginos, e que esse público interessa aos influenciadores e às plataformas.

Há um estilo padrão nos conteúdos veiculados por esses canais?
As abordagens são muito variadas. Há conteúdos voltados para meninos mais novos, adolescentes e pós-adolescentes, com dicas de como pegar meninas nas baladas, como se aproximar e conquistar as garotas. Pode até parecer um conteúdo inocente num primeiro momento. Mas você vai assistindo aos vídeos e percebe que esse modo de construção é bastante violento. Tem meninos que se filmam nas baladas chegando em quatro ou cinco meninas, tratando-as mal, sem pedir licença. Esses vídeos até brincam com a questão do consentimento, é como se menina não precisasse consentir a aproximação.


É de se imaginar o conteúdo para homens mais velhos...
Esse é bem diverso. Há conteúdo para homens que já tiveram relacionamentos e foram acusados dentro do escopo da Lei Maria da Penha, por exemplo. Praticaram violência doméstica, mas se dizem inocentes. Para nós, pesquisadoras, fazer essa pesquisa foi bem pesado, assistir a vídeos como esses. Mas ficamos versadas nessas linguagens. O que a gente identificou é que se você é homem e teve, em qualquer momento da sua vida, uma frustração com uma mulher, isso te torna, automaticamente, público-alvo desses influenciadores. O motivo não importa: seja porque ela te traiu, seja porque pediu pensão, te acusou por qualquer coisa, pediu dinheiro emprestado e não devolveu...

Como canais de ajuda?
Essas frustrações alimentam os influenciadores. Eles adotam uma linguagem educativa, pedagógica, e se dispõem a te ensinar a não ser mais explorado, a não cair mais na lábia das mulheres, não ser fraco, não deixar a mulher se aproveitar de você. Eles se colocam como defensores desses homens, submetidos a mulheres que, supostamente, estão o tempo inteiro querendo se aproveitar. Não à toa uma boa parte dos vídeos tem como alvo de ataque mulheres que são mães solo. Eles tem até uma palavra para se referir a elas: m-sol. O conceito é que se aquela mulher passou por um relacionamento e teve um filho, ela automaticamente está procurando um substituto para o pai dessa criança. E que se você se relacionar com essa mulher você é um otário. Eles manipulam muito essa linguagem, são conteúdos bastante problemáticos em diversas frentes.

Você percebe um incremento na produção desse tipo de conteúdo?
Sim. Poucos canais saíram do ar, e é normal que alguns deixem de produzir novos conteúdos. Mas constatamos que 90% deles estão lá, firmes e fortes. E isso tem sido muito ampliado pela questão da monetização. Esse “universo coach” virou um nicho, com dicas, técnicas, treinamentos, cursos, linguagem de mentoria, chamando você a fazer parte daquela comunidade. Os influenciadores daquilo que chamamos de machosfera se aproveitaram dessa lógica. Assim como tem coachs que te ensinam a ficar mais rico, ou a se preocupar com a sua saúde no Youtube, há canais que partem desses princípios para disseminar conteúdo misógino. Assim, para você ter uma vida financeira estável, você não pode se relacionar com mulheres oportunistas e aproveitadoras. Que são todas, na visão desses homens.

São conteúdos dissimulados?WhatsApp Image 2026 04 09 at 18.57.51 10
Mesmo quando são canais que não têm o foco de propagar conteúdos misóginos, eles partem de uma perspectiva que é misógina. Que incentiva que esses relacionamentos sejam sempre problemáticos. Principalmente os canais que têm a linguagem da comunidade MGTOW (Men Going Their Own Way, ou homens seguindo seu próprio caminho), que propagam a ideia do “homem sigma”, o homem independente, autossustentável, que não precisa das mulheres para nada. Todas essas subculturas que têm essa pegada do desenvolvimento pessoal masculino se encontram nesses canais. Eles flertam com a ideia da superioridade masculina, mas com a desculpa de que isso é só para que os homens possam se desenvolver melhor.

Esse tipo de conteúdo menos direto ajuda a isentar a plataforma de controlar esses canais?
Sim, sem dúvida. As plataformas, e isso vale para o Youtube e para as demais, têm políticas de combate a discurso de ódio, mas isso não é exercido em sua plenitude. Em nossa pesquisa nos deparamos com duas palavras bem fortes para se referir às mulheres: burra e vagabunda. Palavras ofensivas e bastante explícitas. Mas muitos vídeos com essas palavras continuam no ar. Em outros casos, essa construção misógina surge de forma mais discreta, às vezes em vídeos que usam humor. E a resposta da plataforma, em geral, é que ela não pode se sobrepor à liberdade de expressão. Há sempre esse argumento.

E os influenciadores usam essa permissividade para expandir seus conteúdos...
Muitos influenciadores usam termos e recursos disfarçados. Alguns, para não chamar a atenção da plataforma, não levantar red flags, como eles dizem, usam termos como colher ao invés de mulher. Ou missô no lugar de misógino. Vão criando um vocabulário próprio. Se ela quiser acompanhar de fato esses discursos, a plataforma vai ter que ir se atualizando sempre para tirar do ar conteúdos problemáticos.

E esse tipo de conteúdo gera lucro paras as plataformas?
Esse é outro ponto importante. As plataformas têm pouco interesse em tirar do ar conteúdo que gera lucro para elas. Dos canais que analisamos, 80% tinham pelo menos um tipo de monetização, como anúncios ou programas de membros, em que a plataforma também recebe uma parte do dinheiro. Às vezes o anunciante nem sabe que está veiculando seu produto num canal que propaga discurso de ódio. Essa questão poderia ser minimizada com mais transparência. A gente não sabe quanto um influenciador ganhou pela veiculação de um vídeo com anúncios, nem quem são os anunciantes, ou quanto ficou com a plataforma. Tudo isso é pouco transparente, dificulta análises mais profundas, e impede um diálogo mais aberto com os anunciantes.

Não caberia uma forma de controle externo ou regulamentação?
Sim, a questão da regulamentação vem sendo debatida. Há um triângulo onde se tem liberdade de expressão, o negócio das plataformas digitais com seus termos de uso, e a soberania nacional, aí com relação à circulação de desinformação e aos discursos de ódio. A misoginia é um tipo de discurso de ódio, de controle e desprezo às mulheres. As plataformas têm que respeitar a legislação brasileira. Sem uma regulamentação mais rígida seguirá essa falta de transparência e de moderação por parte das plataformas. No ano passado, o STF rediscutiu o artigo 19 do Marco Civil da internet, que isentava as plataformas digitais de responsabilidade sobre o conteúdo divulgado, e entendeu que ele é parcialmente inconstitucional. As plataformas têm o dever de ser responsáveis pelo conteúdo que divulgam. Sem o auxílio das plataformas fica impossível para qualquer controle externo monitorar e atuar na moderação desses discursos de ódio.

Este é um ano eleitoral, onde afloram discursos de ódio e desinformação na internet. Teremos muitas candidatas mulheres. O que esperar desses canais misóginos em plena atividade e sem um controle adequado nas plataformas?
Esse foi um aspecto que abordamos pouco em nossa pesquisa, pois olhamos para as mulheres de uma forma geral. Seria um campo interessante de pesquisa olhar para as mulheres candidatas. Mas, sem dúvida, há estudos que indicam que as mulheres candidatas são vítimas preferenciais de discursos de ódio, e focando na pessoa, e não na candidatura. Há uma diferença marcante. Enquanto nos homens o ataque se dá pelo cargo ou por conduta profissional, no caso das mulheres eles focam no corpo, no caráter. E este ano teremos o uso intensivo da IA, isso vai aprofundar essa questão. Mulheres na política são um alvo explícito de campanhas misóginas, e acredito que os discursos de desinformação de gênero tendem a aumentar.

Temos visto alguns casos de feminicídios de grande repercussão em que esses discursos misóginos aparecem fortemente. Você vê relação entre episódios de violência contra a mulher e esse universo da machosfera no meio digital?
É muito difícil descolar uma coisa da outra. O aumento da misoginia online está ligado ao aumento da violência contra mulheres na vida real. Tivemos recentemente, além do caso do tenente-coronel de São Paulo, o estupro coletivo no Rio de Janeiro. O volume e a circulação desses conteúdos que naturalizam a violência faz com que as pessoas levem isso para fora da internet. O excesso de exposição a esse tipo de conteúdo misógino contribui para que os homens manifestem violências e comportamentos de subjugação e de humilhação das mulheres. É o papel do homem alfa, como eles dizem, isso fica no imaginário. Veja que a reprodução dessa linguagem da machosfera pelo tenente-coronel mostra o quanto esse vocabulário e esses conceitos estão chegando para um público além dos fóruns mais obscuros da internet.

Com a recente aprovação pelo Senado da inclusão da misoginia entre os crimes de preconceito, você acha que pode haver algum avanço no combate a esse tipo de conduta?
— A aprovação no Senado é um grande avanço, mas agora a pauta vai à Câmara, onde deve encontrar resistência. Alguns deputados inclusive já se manifestaram contra. Mas sem dúvida é um reflexo de como este tema é relevante e é importantíssimo que ele esteja sendo debatido com seriedade e pautando a opinião pública.

PROJETO INCLUI MISOGINIA COMO CRIME DE PRECONCEITO

Em 24 de março, o Senado aprovou — por 67 votos a favor e nenhum contra — um projeto que criminaliza a prática da misoginia e a torna crime equivalente ao de racismo. A proposta inclui a infração na Lei do Racismo, entre os crimes de discriminação ou preconceito. Como a proposta equipara a misoginia ao racismo, ela será um delito que não prescreve nem permite fiança. A matéria é de autoria da senadora Ana Paula Lobato (PSB-MA) e foi relatada no Senado por Soraya Thronicke (Podemos-MS). Caso seja sancionada, a medida estabelece penas de dois a cinco anos de prisão, além de multa.
O texto ainda será apreciado pela Câmara dos Deputados, onde deverá encontrar forte oposição por parte da extrema direita. Os ataques já começaram. Em postagem no X, o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) classificou a proposta como uma “aberração”, e prometeu empenho para derrubá-la. Já a deputada Bia Kicis (PL-DF) afirmou que o projeto “abre margem para censura e perseguição política, sobretudo em ano eleitoral”.

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