A UFRJ realizou a maior Semana de Integração Acadêmica (SIAC) da história, com 7.738 trabalhos de ensino, pesquisa e extensão. A alegria com que professores e alunos ocuparam salas e corredores em todos os campi entre os dias 5 e 9 contrastou, no entanto, com o espanto e a tristeza após os duros resultados das eleições do domingo anterior, que apresentaram um indiscutível avanço da direita em todo o país.
Logo na solenidade de abertura do evento, o reitor Roberto Medronho expressou sua preocupação com o momento político brasileiro e chamou atenção para a responsabilidade da universidade diante dos desafios que o país enfrenta. “Nós estamos passando por um dos momentos mais graves da história do Brasil. Vi ontem uma frase que me marcou muito: ‘A apuração começou às 17h e acabou em 1964’. Não pode. Nós ainda temos uma chance e não podemos desperdiçá-la”.
Mas por que chegamos a esse ponto e o que podemos fazer? Para tentar responder a essas perguntas, o Jornal da ADUFRJ esteve em salas onde o mundo da política e a SIAC se encontraram: conferiu trabalhos que mostram a transformação da direita no país, a origem do bolsonarismo, as disputas na Câmara, o caso do estado do Rio de Janeiro, o comportamento eleitoral dos idosos e muito mais.
Veja a seguir:
Bolsonarismo já transcendeu
a figura do ex-presidente
Para entender a origem do bolsonarismo, a estudante Camila Costa Pinheiro (foto) voltou 13 anos na história do país. Primeiro, as jornadas de junho de 2013 demonstraram
a insatisfação da sociedade com a classe política tradicional e as instituições. Em seguida, a crise econômica, o impeachment da presidenta Dilma Rousseff (PT) e o lavajatismo, que levou à prisão de Lula, em abril de 2018. Pronto. Estava aberto o campo para a ascensão da extrema direita. “O caos institucional abre espaço para essas lideranças carismáticas com discurso antissistêmico”, afirmou a aluna do IFCS, em sua apresentação, no segundo dia da SIAC.
Trabalhando conceitos do escritor e filósofo Rodrigo Nunes, a estudante explicou como Jair Bolsonaro conseguiu angariar tanto apoio na população. “A política, segundo ele, não se organiza somente por posição ideológica, racional e consciente, mas também por relações afetivas. As pessoas vão se reconhecendo umas nas outras”, disse Camila. “O Bolsonaro é a figura que vai articular isso”.
No entanto, para Camila, o fenômeno bolsonarista, alimentado pela lógica do “nós contra eles” e impulsionado pelos algoritmos das redes sociais, já transcendeu a figura do pai. “A gente vê como está o cenário”, disse, em referência à onda da direita que tomou o Legislativo e à votação que colocou o filho, Flávio, à frente na disputa presidencial, nas eleições do dia 4.
Camila foi orientada pelo professor Pedro Lima, do Departamento de Ciência Política do IFCS, que falou sobre os desafios do projeto. “É um tema muito quente, é o tema do momento. Tem um lado bom, porque estimula os alunos. Você está trabalhando com algo que envolve as nossas relações mais afetivas”, disse. “Por outro lado, você está trabalhando com um objeto que ainda está se transformando enquanto a gente fala”, completou.
“E é um desafio para a democracia brasileira. Nós, da universidade, precisamos enfrentar essa ameaça. Cabe a nós estudarmos de onde ela vem, como ela se comporta, para salvaguardar nossa democracia”, concluiu Pedro.
Direita fixou raízes
em todo o estado do Rio
Ao fim da apuração para o governo do Rio, muitos se surpreenderam que o pouco conhecido Douglas Ruas (PL) tivesse ficado à frente de Eduardo Paes (PSD) – nome nacional, eleito quatro vezes para a prefeitura da segunda maior cidade do país. Apresentado no segundo dia da SIAC, o trabalho de pesquisa dos estudantes Paulo Fernandes Jr e Raul Paiva, vinculados ao Laboratório de Partidos, Eleições e Política Comparada (Lappcom), não tinha esse objetivo, mas ajuda a explicar o resultado.
Observando redes de conexões políticas — com uma modelagem matemática que contou com a ajuda da Coppe – e a distribuição de emendas pelos territórios, os alunos demonstraram a força da coligação partidária que levou o ex-governador Cláudio Castro ao poder. Em 2022, o PL foi o partido que mais elegeu deputados federais (11) e estaduais (17) no Rio, contra 5 e 7 do PT, respectivamente. Em 2024, o PL também liderou a eleição de prefeitos no estado do Rio (22) contra apenas 3 do PT, que ficou em nono lugar. No mesmo ano, o PL ainda ficou na primeira posição da eleição de vereadores em todo o estado (170). Já o PT não figurou nem entre os dez primeiros.
“Os partidos PL, PP, União, MDB e Solidariedade, que formaram a coligação do ex-governador Cláudio Castro, concentram 79% das prefeituras do Rio”, disse Paulo. “Isso aponta para uma grande capacidade de articulação política e transferência de votos”.
“Isso se refletiu em parte nas eleições de agora. A articulação do Douglas Ruas era muito mais fácil, porque ele tinha candidatos expressivos em várias partes do estado, enquanto a esquerda tinha sobreposição de candidatos na capital”, completou Raul.
Orientadora do trabalho e diretora do IFCS, a professora Mayra Goulart destacou que temas como estudos de geografia eleitoral são tradicionais da ciência política. “Aqui é um pouco mais inovador, porque estamos tentando desenvolver nossos próprios algoritmos. E é muito importante se debruçar sobre o estado do Rio, que é muito pouco pesquisado”, disse.
Deputadas de PT e PL disputam questões de gênero na Câmara
As mulheres formam 52,5% do eleitorado brasileiro, mas permanecem subrepresentadas nos cargos eletivos. Entre 182 países, o Brasil ocupa a 139ª posição em
representação parlamentar feminina. Isso não quer dizer, no entanto, que simplesmente eleger mais mulheres será positivo para elas.
É o que prova o trabalho apresentado pela estudante Julia Pereira (foto acima), de Ciências Sociais, que comparou a produção legislativa dos partidos com as maiores bancadas federais femininas da atual legislatura: PT (18 deputadas) e PL (17).
Julia analisou os todos os projetos de lei protocolados pelas deputadas do PT (128) e das parlamentares do PL (65), no ano passado. “Cem por cento dos projetos das deputadas do PT visavam ampliar os direitos das mulheres e, em contrapartida, sete das propostas das deputadas do PL mobilizavam uma concepção de gênero associada à divisão sexual do trabalho ou propunham alterações que tensionam marcos normativos construídos no âmbito da política de proteção às mulheres”, disse.
O trabalho confirma pesquisas já realizadas pela aluna em 2023 e 2024 com o mesmo tema e os mesmos partidos. “Os resultados de 2025 acabam por reafirmar a existência dessa disputa político-ideológica na bancada feminina”, observou a estudante também vinculada ao Laboratório de Partidos, Eleições e Política Comparada (Lappcom), sob orientação da professora Mayra Goulart.
“O trabalho faz parte do ‘Mulheres Eleitas’, um dos projetos mais antigos e consolidados do Lappcom, que, desde 2019, analisa desempenho, trajetórias políticas, performances e atuação de mulheres eleitas para o Legislativo federal, estadual ou municipal”, disse Mayra.
Os impactos do “tio do zap” e
da evangelização nas eleições
PROJETO DO IRID: Maria Eduarda, o professor Diogo Monteiro e SarahIntrigada com o envolvimento de pessoas mais idosas em atos extremistas, nos últimos anos, incluindo a tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023, a estudante Sarah Fernandes, do Instituto de Relações Internacionais e Defesa (IRID), decidiu investigar o comportamento eleitoral das pessoas com mais de 70 anos.
Em 2018, 4,4 milhões de pessoas com mais de 70 anos votaram no primeiro turno das eleições e 4,6 milhões no segundo turno; em 2022, 6,1 milhões foram às urnas no primeiro turno e 6,7 milhões no segundo turno. A abstenção do grupo também caiu. O crescimento da participação teria relação com mensagens direcionadas ao grupo por WhatsApp, o famoso “tio do zap”?
“Eles já não têm obrigatoriedade de votar, mas estão se engajando. Por quê? Na minha cabeça, era um movimento coordenado. Mas, por falta de dados confiáveis, minha pesquisa não confirmou isso”, disse Sarah, que chegou a procurar os partidos e entrou em canais de WhatsApp da direita. “O estereótipo do ‘tio do Zap’ configura uma ferramenta discursiva etarista, que visa deslegitimar o posicionamento político da terceira idade”, argumenta a aluna.
Uma pesquisa do Senado mostrou ainda que, na média, as pessoas com mais de 60 anos (não havia dados para o grupo com mais de 70 anos) utilizam menos o WhatsApp que a população em geral. “O que encontrei foi que o eleitorado está ficando mais velho, porque a população está envelhecendo, e eleitores idosos não estão se abstendo como antes”.
Já a pesquisa da aluna Maria Eduarda Felix, também do IRID, abordou a conexão entre o mundo evangélico nos Estados Unidos e a transformação do mundo evangélico no Brasil, que dá apoio ideológico para a retomada da direita. “É inegável o poder do neopentecostalismo nas redes sociais. Mas, quando a gente estuda a fundo, é um ecossistema que vem do tele-evangelismo dos anos 90. E, antes disso, veio dos EUA”.
Nos anos 60, o movimento neopentecostal norte-americano começou a pregar que, pela fé, os fiéis poderiam alcançar a prosperidade material. A ideia se espalhou rapidamente, pelas emissoras de rádio, chegou à televisão e virou ferramenta de disputa geopolítica do próprio governo, durante a Guerra Fria. “Há documentos da assessoria do governo Reagan sobre isso. Ou seja, o ecossistema que polarizou o Brasil em 2018 não nasceu no Facebook. Foi construído ao longo de quase sete décadas, em rádio e TV, e contou com o incentivo geopolítico de uma potência estrangeira”, afirmou Maria Eduarda.
Os trabalhos das duas alunas foram orientados pelo professor Diogo Monteiro, do Instituto de Relações Internacionais e Defesa (IRID), e fazem parte do projeto “Impasses da Democracia Liberal”. “O projeto se organiza em três etapas: temos um núcleo falando sobre democracia propriamente, sobre como o mundo contemporâneo está formado por uma esfera pública bastante fragmentada; uma segunda parte é sobre tecnologia, quando a gente fala de rede, de algoritmo; e na terceira parte, a gente fala de lideranças de caráter carismático e populismo contemporâneo”.
A ideia do projeto é contribuir para o entendimento da complexa situação política do país. “Hoje, no Brasil, uma parte da população brasileira está absolutamente perplexa com o que aconteceu nas eleições. E isso não tem relação com perder ou ganhar. O PT perdeu eleições antigamente e a gente sabia exatamente o por quê. Temos que nos mobilizar para investigar isso”.
Talíria Petrone vira verbete
em dicionário de resistência
Política também é resistência. E resistência contada em livro. Doutoranda da Faculdade de Educação, Roseli Andrade (foto) apresentou aos participantes da SIAC “Um Rio
de resistências: dicionário biográfico – Rio de Janeiro, lançado este ano pela Editora Aruanda. A obra, resultado de um curso de extensão da UFRJ, PUC-GO e da Festa Literária das Periferias (FLUP), busca dar visibilidade à trajetória de mulheres negras.
No curso realizado em 2024, Roseli produziu o verbete sobre a deputada federal Talíria Petrone (PT) – que acaba de se reeleger para a Câmara, com 122.500 votos. “Nosso maior objetivo é que a vida dessas mulheres se torne teoria. A gente está sempre teorizando sobre as pessoas de fora, européias. E as nossas? A Talíria luta muito pela questão da visibilidade da mulher na política”, disse Roseli. “Este ano, tivemos uma campanha forte para ‘mulherizar’ o Congresso, majoritariamente masculino, mas não tivemos sucesso”.
Orientadora do trabalho, a professora Maria Edimaci Leite, da rede pública de Goiânia, valorizou a iniciativa, “que permite conhecer as histórias escondidas na memória, nos arquivos, invisibilizadas nas narrativas oficiais, mas que resistem por meio dos saberes, do corpo, da fé, da luta e da palavra”.
Entre as cem mulheres homenageadas no livro, não há apenas políticas, mas a publicação também apresenta minibiografias de Benedita da Silva (PT), Dani Balbi (PCdoB), Jurema Batista (PT), Marielle Franco (PSOL) – assassinada em 2018 – e Renata Souza (PSOL).
A direita perdeu
a vergonha
PESQUISA DO IFCS: Sofia, o professor Jorge Chaloub e Maria FernandaAs transformações da direita brasileira desde a redemocratização são o objeto de pesquisa das estudantes Maria Fernanda da Silva Fontes e Sofia Bittencourt Rodrigues, que trabalharam com diversos autores. “A gente faz esse trajeto de como a direita mundial, principalmente a direita norte-americana, influencia hoje em dia a direita no Brasil”, afirmou Maria Fernanda.
Durante a apresentação na SIAC, um exemplo das estudantes chamou a atenção pela diferença com os dias atuais. “Após o fim da ditadura, a direita era associada à opressão, à injustiça. Eram poucas as pessoas que tinham coragem de levantar a bandeira da direita publicamente”, contou Sofia. “Em uma pesquisa da Folha de S. Paulo com o Congresso da época, apenas 6% dos parlamentares se autodenominavam de direita. Não existia direita? Claro que sim. Mas eles só estavam escondidos, envergonhados”.
As duas fazem parte de um grupo coordenado pelo professor Jorge Chaloub, do IFCS. “Às vezes, na iniciação científica, fazemos uma pesquisa mais recortada, para entregar um artigo. Outras vezes, como foi o caso, é importante trabalhar uma dimensão formativa da pesquisa, que é importante para elas adensarem o conhecimento em relação a metodologias, em relação a debates. Até para pensarem depois, em pesquisas mais aprofundadas em uma possível trajetória na pós-graduação”, disse.





