O Rio de Janeiro antecipou e, em 2026, sintetizou o avanço nacional do PL: o partido ampliou substancialmente suas bancadas e Douglas Ruas alcançou votação suficiente para vencer o governo no primeiro turno, após a retotalização dos votos. Estudo do Laboratório de Partidos, Eleições e Política Comparada (Lappcom), da UFRJ, mostra que a concentração de cadeiras na sigla, agora observada no país, já se desenhava no estado desde 2022.
Naquele ano, o PL conquistou cerca de 24% das cadeiras estaduais e federais do Rio, patamar semelhante aos 23,6% que alcança na Câmara nacional em 2026. Agora, passa de 17 para 21 deputados na Alerj e de 11 para 15 federais. Ruas chegou a 50,88% dos votos válidos com a anulação dos votos de Anthony Garotinho; a proclamação definitiva pelo TRE-RJ aconteceu em15 de outubro.
“A aposta analítica deste relatório é que a hegemonia do PL no Rio de Janeiro resulta da composição entre ideologia e controle territorial”, escreve a professora Mayra Goulart, coordenadora do laboratório, na apresentação do estudo, que assina com Raul Paiva, Paulo Fernandes Jr e Leonardo Ribeiro.
O avanço da sigla ocorre em um estado onde a direita já era majoritária. Nas sete eleições analisadas, o bloco manteve mais da metade das cadeiras nas duas casas. Em 2026, reúne 51 dos 70 deputados da Alerj (72,9%) e 33 dos 46 federais (71,7%). A esquerda cresce de 17 para 19 cadeiras estaduais e permanece com 13 federais. Partidos classificados como centro não elegem representantes desde 2022.
A mudança mais expressiva está na distribuição de forças dentro da direita. O PL ganha quatro cadeiras em cada bancada, enquanto o União Brasil cai de oito para quatro na Alerj e de seis para uma na Câmara. Pela classificação do relatório, a extrema direita recua ligeiramente, mas fica mais concentrada no PL: a sigla passa a reunir 84% das cadeiras desse segmento na Alerj e cerca de 94% na bancada federal.
Para compreender essa força, os pesquisadores recuperam as trajetórias de 192 prefeitos e vereadores eleitos pelo PL em 2024. Quase 70% já haviam exercido mandato ou disputado eleições por outras legendas. Apenas 13% integravam a base do PL ou de seu antecessor, o PR, nos pleitos municipais de 2016 ou 2020.
“O crescimento do PL resultou, portanto, da incorporação de lideranças de grupos políticos tradicionais”, registra Mayra na apresentação. Esses quadros levam à sigla eleitorados construídos antes da filiação. A pesquisa associa essa capilaridade às prefeituras, aos grupos familiares e às emendas parlamentares destinadas aos municípios.
Um exemplo citado é Altineu Côrtes (PL), que obteve 43% dos votos em São Gonçalo, governado por seu aliado Capitão Nelson. Na Alerj, Guilherme Delaroli tem como principal base Itaboraí, administrada por seu irmão. O relatório trata a relação entre controle territorial, recursos e votos como hipótese a ser testada com dados municipais e georreferenciamento de emendas.
A representação feminina permanece reduzida: as mulheres ocupam 16 cadeiras estaduais (22,9%) e dez federais (21,7%). Na Alerj, são nove das 19 cadeiras da esquerda, ante sete das 51 da direita.
A classificação usa uma escala construída com especialistas em 2018, com ajustes do Lappcom para PL, União Brasil e PRD. Ela descreve partidos e cadeiras, sem medir diretamente a ideologia dos eleitores ou de cada deputado. Os resultados de 2026 foram compilados de listas de eleitos publicadas pela imprensa e aguardam consolidação com as bases oficiais do TSE.





