Foto: Fernando SouzaPrimeiro ecólogo formado no Brasil, cientista brilhante, dono de uma invejável capacidade de articulação política, colega generoso e fundador do Instituto de Biodiversidade e Sustentabilidade em Macaé (NUPEM), o professor Francisco de Assis Esteves recebeu o título de emérito da UFRJ, no dia 14, em uma concorrida cerimônia no Auditório Quinhentão do Centro de Ciências da Saúde.
A comitiva de honra foi tão diversa, respeitosa e inovadora quanto o homenageado. Nela estavam docentes jovens, professores aposentados, pesquisadores renomados, além de quatro técnicos, entre eles o prefeito Marcos Maldonado, o pescador João Marcelo e Ivan Hidalgo, o lendário e solícito secretário dos órgãos colegiados da universidade. Sem falar da delegação que veio de Macaé só para assistir Esteves receber a mais nobre das honrarias da universidade.
Aos 76 anos, Chico – como é conhecido pelos mais próximos – anunciou que não vai reduzir suas atividades nesta nova fase da vida, ainda mais diante do delicado momento político do país. “Pertenço a uma comunidade chamada ‘Sonhadores Contumazes’. Quem está lá? Filósofos, poetas e pescadores. Nós amamos o que fazemos e não paramos de trabalhar até partir”, disse o agora primeiro docente emérito do Nupem.
“Principalmente nesse momento da universidade pública, que está sofrendo tantos ataques, não é a hora de tirar o corpo fora. Sou filho da Minerva e o filho da Minerva não corre da raia. O filho da Minerva vai enfrentar os desafios”, afirmou. “É a hora de me dedicar ainda mais à nossa Universidade Federal do Rio de Janeiro. Vou trabalhar mais ainda para que nós possamos ajudar a sociedade no caminho de uma sociedade mais equânime economicamente, socialmente e ambientalmente”.
MÚLTIPLAS HOMENAGENS
Amigo de longa data, o professor Reinaldo Luiz Bozelli, do Instituto de Biologia, foi um dos tantos que se revezaram ao microfone para elogiar o homenageado. Com um discurso recheado de tiradas bem-humoradas, o docente repassou toda a história de Chico Esteves: sua formação acadêmica, o início do namoro com a esposa Rosa, o pioneirismo e a dedicação à limnologia – ciência multidisciplinar que estuda os ecossistemas aquáticos continentais – e o desafio da interiorização da universidade em Macaé.
“Por nunca acreditar que a UFRJ era uma torre de marfim, mas ao contrário, devia ser um farol a iluminar com ciência, ensino e extensão à sociedade fluminense, o professor Francisco empreendeu, no dizer de muitos colegas, o sonho impossível, o desafio insuperável da interiorização da gloriosa, mas muito carioca, Minerva”, contou.
“De uma minúscula sala de 10 metros quadrados, que funcionava como base de campo do laboratório de limnologia em Macaé, ele fez o Nupem, em espaço doado pela prefeitura. E ali, usando a inovadora técnica de construção civil denominada ‘puxadinho’, fez surgir laboratórios, salas de aula, biblioteca, cozinha, alojamentos”, disse Reinaldo, arrancando risadas da plateia.
O carinho pelo mestre pôde ser sentido em todos os discursos e homenagens que se seguiram. Além do título de emérito, Chico quase “sumiu” atrás das flores e de uma pilha de plaquinhas que recebeu dos mais variados departamentos e instituições, como a Associação dos Moradores de São José do Barreto, em Macaé.
O reitor Roberto Medronho encerrou a cerimônia, reforçando os diversos predicados de Chico Esteves. “Estamos homenageando alguém que soube transformar conhecimento em instituição, ciência em preservação, pesquisa em desenvolvimento regional e sonho em universidade pública presente no território”, disse. “Homenageamos também o homem simples, o amigo leal, o companheiro de Rosa, o pai de Bruna e Lívia, o avô apaixonado de Tom, Luiza, Maria Eduarda e Joaquim. O professor que continua ensinando, mesmo quando está simplesmente passeando com os seus netos”, completou.
Medronho também pediu permissão a Chico para fazer da cerimônia uma afirmação dos valores que atravessaram toda a vida do homenageado. “Defenderemos, intransigentemente, a autonomia universitária e a democracia. Porque, sem autonomia, não há universidade verdadeiramente livre. E, sem democracia, não há pensamento crítico, não há ciência livre, não há futuro”, concluiu.
Após ouvir todos os discursos elogiosos à trajetória acadêmica e administrativa, o mestre agradeceu com modéstia. “Isso tudo que consegui não teria conseguido sem a ajuda de todos vocês que estão aqui”, disse Chico, que, no dia seguinte, às 8h15, já estava no Laboratório de Limnologia do Instituto de Biologia, no CCS, para discutir uma tese de mestrado com seu aluno e organizar análises de água das lagoas costeiras de Macaé.





