Li nas redes sociais uma frase que dizia: “A social-democracia ganhou o século XX e, no primeiro quarto do século XXI, ficou cambaleante, mas perdeu o agora, perdeu o futuro”.
Larguei o telefone. Na rua, alguém varria a calçada. Um ônibus levou gente que talvez tivesse dormido pouco e ainda precisasse sorrir ao chegar. A manhã não esperava que eu entendesse o mundo. Havia trabalho, contas, uma consulta adiada. O agora tinha seus compromissos.
Pensei no que aquela promessa significou: escola para os filhos, descanso, atendimento médico, uma velhice sem a vergonha de depender da boa vontade alheia. Houve quem entregasse a vida a essas conquistas. No Brasil, chegaram pela metade, chegaram tarde, não chegaram para todos. Mesmo assim, permitiram a muita gente fazer planos à mesa.
Hoje, nessa mesma mesa, o telefone interrompe o almoço. É trabalho. Pode ser trabalho. Convém atender. O comando já não precisa levantar a voz; basta avisar que há outro disponível. Há quem prefira essa vida à antiga subordinação. Poder escolher o horário tem valor, mesmo quando a necessidade termina escolhendo quase tudo.
Não escutamos direito essa contradição. Parte da esquerda ouviu o desejo de prosperar como quem identifica um erro de formação. Mas ninguém quer apenas não passar fome. Quer levar o filho a um restaurante, conhecer o mar, comprar sem devolver alguma coisa à prateleira. Há humilhações pequenas que ocupam uma existência inteira.
Quando a conversa virou correção de consciência, muita gente se levantou. Outros ofereceram lugar, prometeram dinheiro, ordem, reconhecimento. Ofereceram também inimigos. O desamparo encontrou companhia, e nem sempre quem encontra companhia pergunta quanto ela custará depois.
Continuo um humanista cristão católico e social-democrata. Essas palavras já me pareceram mais fáceis de dizer. Hoje, ao pronunciá-las, sinto o peso do que não fomos capazes de realizar e do que deixamos de perceber. Minha fé tampouco resolve o embaraço. Há dias em que preciso reaprender que o próximo inclui quem me fere, quem me irrita, quem vota contra tudo aquilo em que acredito.
Continuarei a ser uma minoria. Não uma minoria identitária. Vejo com tristeza como o identitarismo se corrompeu pela arrogância, pela prepotência e pelo autoritarismo, até expulsar a alteridade das relações sociais. Lutas necessárias ensinaram tanta gente a erguer a voz. Dói quando essa voz passa a exigir o silêncio dos outros. Quem sofreu a recusa de um lugar também pode aprender a fechar a porta.
Não digo isso de fora das minhas contradições. Quantas vezes terei escutado apenas para preparar a resposta? Quantas pessoas terão desistido de conversar comigo porque encontraram uma certeza onde procuravam atenção? Não tenho uma conta limpa para apresentar.
Ser minoria tem uma solidão sem grandeza. É procurar alguém com quem pensar em voz alta, sem precisar escolher cada palavra como quem atravessa uma sala cheia de objetos frágeis. É perguntar se ainda sabemos falar com os jovens ou se apenas esperamos que repitam nossas lembranças.
O presente não facilita o encontro. Falta dinheiro, falta tempo, sobra cansaço. O medo encurta a paciência. Ainda assim, alguém acompanha um vizinho ao hospital, cuida de uma criança, reparte o almoço. São gestos insuficientes para corrigir uma sociedade desigual. Mas, para quem os recebe, fazem a diferença entre atravessar o dia e sucumbir a ele.
Entristece-me não saber que país deixaremos aos que vêm depois. Algumas derrotas envelhecem conosco. Outras ainda nem conseguimos nomear. Não desejo oferecer consolo fácil a quem está cansado de esperar.
Quero conservar a disposição de ouvir uma vida até o fim, mesmo quando ela desarruma a minha. Talvez seja assim que eu consiga continuar acreditando nos dias que virão. Não espero concordância em tudo. Gostaria de ter com quem repartir o pão.
Recolho as coisas da mesa. O telefone acende outra vez. Antes de atender, afasto um pouco a cadeira ao lado.
* Sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ





