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Foto: Fernando SouzaEm entrevista exclusiva para o Jornal da ADUFRJ, o professor Muniz Sodré, emérito da UFRJ e um dos maiores especialistas em comunicação do país, analisa as mudanças éticas e políticas no debate público brasileiro. Para o pesquisador, o conceito tradicional de “comunicação de massa” perdeu espaço para um ecossistema de “desinformação massiva”, no qual a mentira opera como violência deliberada.

O tema ganha ainda mais relevância na medida em que nos aproximamos das eleições deste ano. Discutindo os rumos da democracia, o papel dos algoritmos, as contradições da imprensa e o papel da universidade, Muniz Sodré defende que a reação contra o autoritarismo exige ética, o fortalecimento da universidade pública e o combate às desigualdades raciais e sociais no ambiente acadêmico.

 

Jornal da ADUFRJ –O senhor tem defendido que o espaço público brasileiro passou por uma mutação estrutural. Olhando para o cenário atual, quais são as principais permanências e rupturas entre a comunicação de massa e a manutenção da democracia?
Muniz Sodré – Não existe mais esse conceito de comunicação de massa; eu chamaria de desinformação massiva. Com a era eletrônica e a internet, a informação passou a ser o solo social onde caminhamos — queiramos ou não — com duas pernas: uma no chão concreto, da casa, da rua, dos ambientes analógicos, e a outra no espaço das redes, da suposta informação. A informação, portanto, é estruturante da sociedade.

E como essa desinformação massiva afeta as decisões da sociedade?
A informação sob a égide da comunicação de massa tinha muito erro, mas o erro é parte do processo na construção da verdade. O jornalista, quando erra, é obrigado a se retificar. A mentira é diferente. Ela é a intenção de enganar, é uma ferida ética que traz estragos enormes no comportamento público. Sob a égide da mentira há violência, mesmo que simbólica. E o panorama eleitoral hoje é de uma mentira deslavada. Do governo Bolsonaro para cá, estamos sob o império da mentira, que passa de pai para filho e chegou ao Supremo. O Estado passou a mentir também, e isso é muito grave.

Recentemente, a veiculação de uma entrevista com o ex-policial Ronnie Lessa e um episódio de agressão no IFCS/UFRJ geraram intensos debates na mídia e nas redes. Esse foi um tema, inclusive, de recente artigo seu na Folha.
Eu condeno várias pessoas agredirem uma, seja quem for — comunista, torcedor de futebol ou fascista. Várias pessoas atacando uma é covardia, e precisa haver punição. Também não gosto de provocação, e o IFCS é sabidamente um ambiente de jovens progressistas. De toda forma, nada justifica a agressão, e nem um manifesto de professores apoiando estudantes agressores antes de qualquer sindicância.

E qual foi o papel da imprensa carioca na cobertura desse caso da UFRJ comparada à entrevista do caso Ronnie Lessa?
Eu já trabalhei em redação e sei que há um clima geral nas redações de não gostar da universidade pública e um certo desrespeito à linguagem acadêmica. Há um ranço contra a maior universidade do país. Então, um incidente condenável de estudantes ganha uma enorme repercussão, enquanto a entrevista do matador da Marielle Franco — em que ele diz que não é verdade que matou mil pessoas, mas que “pode ser mais” — passa sem que ninguém se escandalize ou questione. Que jornalismo é esse? Será que a cidade se aliou de tal forma ao crime que associa bofetadas de estudantes a um linchamento? Teve até jornalista que mentiu dizendo que o reitor Roberto Medronho foi conivente, quando a posição dele foi exemplar. O jornalista, hoje, deve ser mais responsável do que nunca. Jornalismo tem que ter uma posição ética.

Além da imprensa tradicional, os algoritmos das redes sociais assumiram um papel central na disputa de narrativas. De que maneira eles reeditam a opinião pública e o debate eleitoral?
Os algoritmos são mídia, só não querem assumir o nome para não terem responsabilidade. Você não tem controle sobre eles, e é algo muito perigoso. A TV não tem mais a mesma influência no pleito; a influência vem mais das redes. As redes mobilizam a emoção dos eleitores. No entanto, não há comprovação de que o algoritmo constitua eleitores por si só. De qualquer modo, a campanha passou da criação de um espírito de debate televisivo para essa zona difusa de exposição. A exposição é você ampliar a ambiência a ponto de você não ser só o que diz, mas também o que não diz (mas demonstra) – pela roupa, pela postura, pelo comportamento. É o que se chama de influência. Não é só a ideia. Substituiu-se o debate da televisão pela influência da rede, que ainda não está totalmente estudada.

Temos visto a extrema direita crescer no Brasil e no mundo. Em ano eleitoral, como a imprensa pode equilibrar a visibilidade dada a todas as correntes e, ao mesmo tempo, proteger a democracia de formulações autoritárias?
Toda grande imprensa tende para a direita, mas não para a extrema direita. A imprensa tem o papel importante de equilibrar a relação com a centro-direita e a esquerda, na medida em que combate a extrema direita. Sempre houve algum pudor, que foi quebrado pelo extremismo de Bolsonaro, que é obsceno e monstruoso. Nenhum jornal pode ser a favor da extrema direita. A imprensa é fundamental para restaurar esse equilíbrio entre a centro-direita e a esquerda.

E quem seria o melhor
candidato no cenário atual?
É claro que eu voto no Lula — não porque o ame. Fiz parte do primeiro Conselhão de Desenvolvimento Econômico e Social, no Lula 1, e, no segundo mandato, fui presidente da Biblioteca Nacional, mas nunca fui filiado a qualquer partido ou ao próprio PT. Sou um sócio-filósofo, um filósofo militante. Sei que a alternativa para o país é o Lula. Nós já vimos o que foi o governo Bolsonaro. O Lula tem mil defeitos, mas é um nacionalista. Ele reage, enfrenta Trump. É a emoção que vai nos resgatar do abismo, e dizer que estamos à beira do abismo não é figura literária. Metade da população do nosso país foi enganada pela extrema direita.

Diante do acirramento ideológico e do avanço de discursos anti-intelectualistas, qual deve ser a postura da universidade pública? Ela deve operar estritamente para preservar o saber crítico ou precisa repensar suas formas de mediação com a sociedade?
As formas de mediação com a sociedade devem ser repensadas e precisam ser reformuladas. Por exemplo, é muito importante fortalecer as atividades de extensão. Também penso que é necessário que a universidade mude sua postura interna em relação às humanidades. A universidade cuida relativamente bem de suas áreas tecnológicas, enquanto as humanidades são ainda muito mal tratadas.

Como a universidade pode contribuir para a reconstrução da cidadania em tempos de polarização?
Nós temos dois tipos de polarização: a política e a afetiva. Às vezes, a polarização política contamina e deteriora as relações afetivas, de amizade e de trabalho. Não creio que a universidade possa fazer algo da porta para fora sobre essa crise de afetividade na sociedade. Mas, internamente, ela pode. Em vez de colonizar as suas turmas, a universidade deve passar a “colorizá-las”, promovendo a mistura de cores com negros, indígenas, pardos e pretos retintos. A universidade fica mais forte quando permanece em sua tarefa de ensino, pesquisa e extensão, mantendo uma posição progressista, democrática.

 

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