Foto: Alessandro CostaRELAÇÃO COM A ESCRITA
Minha relação com a palavra escrita começou muito antes de propriamente escrever. Comecei esse encantamento através da música. Venho de uma família muito musical. Meu avô era músico, tenho uma irmã pianista, meu pai tinha uma formação muito erudita e conhecia muito de música.
Tive o imenso privilégio de tudo o que quis fazer, quando criança e adolescente, meu pai e minha mãe tornarem possível.
Venho de uma família de seis filhos. Não se tinha orçamento folgado. Mas quando quis fazer música, por exemplo, meu pai deu jeito de me dar um violão. Deu jeito de me pagar aula de um professor que ia em casa para que eu estudasse. Depois, quis fazer pintura e ele deu jeito de comprar as telas. Isso foi muito importante na minha história de vida.
CARREIRA
Quando fui fazer minha escolha profissional, meu pai, que deu força para o violão, para a pintura, para a capoeira – fiz mais de sete anos de capoeira –, disse: “E agora, minha filha, o que vai ser? O que você vai estudar?”. E eu fui para a Matemática. Não fui à toa. Meu pai era matemático, meus irmãos eram todos da área de exatas e eu tinha muita facilidade com matemática, muito gosto. E isso na minha casa era lúdico. A gente competia entre irmãos quem ia resolver primeiro um determinado problema que meu pai passava para a gente.
Por coincidência, entrei na universidade federal na mesma época em que passei em uma seleção do Oswaldo Montenegro. Ele viajava pelos estados e montava espetáculos com artistas locais. Descobriu a Cássia Eller, a Zélia Duncan. Fui uma dessas pessoas que passei para ser parte desse elenco quando a montagem aconteceu em Belo Horizonte.
Logo de cara, vi que eu não ia bancar aquela rotina, de passar o dia inteiro na universidade e, depois, de noite, ensaiar. Abri mão da arte.
Não podia dar certo.
Estava muito triste na Matemática. Comecei a ficar horas naquela linguagem paralela da Matemática e parei de compor. Comecei a ficar sem assunto.
Larguei a Matemática, fui para a área de comunicação.
FASE PUBLICITÁRIA
Fiz a universidade federal, me formei em publicidade, jornalismo e relações públicas, depois fiz uma pós-graduação em marketing e, com 22 anos, abri minha agência junto com duas sócias. Tinha absolutamente tudo para dar errado.
Não tínhamos experiência, não tínhamos passado por agência, éramos mulheres em um mercado absolutamente masculino, não tínhamos pais ricos, no sentido de bem relacionados, que pudessem nos indicar empresas, clientes.
Mas a gente tinha uma coisa muito especial. A universidade na época estava com um pensamento muito à frente do mercado. E nós saímos da universidade com uma visão de integração da comunicação, que foi muito importante.
Abrimos uma agência de comunicação em uma época em que as agências do mercado estavam preocupadas só em fazer publicidade e a gente chegou com uma visão de comunicação muito mais larga. E trabalhamos muito.
O fato é que a Lápis Raro, onde fiquei 40 anos como diretora de criação, foi uma agência que se tornou uma das mais importantes de Minas Gerais e do Brasil. E nessa agência tive a oportunidade de experimentar todas as linguagens artísticas. Usei tudo que tinha, tudo que tinha experimentado, com essa coisa de pintar e de observar, a coisa da música e a coisa da escrita.
Mas chegou certa altura, já estava há 30 anos na agência, comecei a ficar triste de novo. E a tristeza é um grande toque que a gente recebe da vida, que é como se dissesse para a gente: “Olha, presta atenção que está na hora de mudar alguma coisa”. Comecei a chegar em casa e escrever muito despretensiosamente.
INÍCIO COMO ESCRITORA
Comecei a escrever e comecei a adorar aquilo que eu estava escrevendo. O publicitário é muito bom com as linguagens artísticas. Sabe de design, sabe de artes plásticas, escreve muito bem, sabe de roteiro, de cinema, de fotografia. Mas não é arte. E não é arte porque não tem espaço para subjetividades.
Na hora que estava livre para escrever o que eu queria escrever, porque eu não tinha que responder a um desafio de mercado, encontrei uma linguagem que começou a me interessar muito. Comecei a escrever uma história sem pretensão nenhuma de que virasse livro. Ou sem saber se ia virar conto ou sem saber se ia parar na gaveta.
E aí eu escrevi a cena central de “Tudo é Rio”. Foi tão violenta para mim que me paralisou por 14 anos (Nota da Redação, com spoiler: no trecho, um homem agride a esposa e o filho recém-nascido). É assim que começou.
POR QUE VOLTOU?
Quando paralisei, não era mãe ainda. Acho que um dos motivos por que parei é que estava planejando ser mãe e aquela cena foi tão violenta que não tinha recursos para lidar com um problema que tinha proposto.
Hoje penso que um dos motivos para ter voltado foi ter ido ao Festival de Publicidade de Cannes em uma época de muita tecnologia, começando a lidar com esse universo. Todas as palestras eram com muita trilha, muito som, muito vídeo, edição nervosa. E, de repente, entra uma poeta americana, chamada Sarah Kay. Só ela. Com um cabelo assim igual ao meu, cacheado. Um fachinho de luz, um microfone, um vestidinho de Macabéa. Entra ali e começa a falar um poema. E não teve nada naquele festival que provocasse uma conexão maior do que o que ela estava fazendo no meio daquele palco. Eu percebi assim a força de uma história bem contada, a força do poético e a força de uma mulher.
Voltei para “Tudo é Rio” e escrevi o livro em oito meses, obstinadamente.
É um livro sem contenção nenhuma. É um livro em que, muitas vezes, eu precisei do poético para dar conta de olhar o lugar que eu estava olhando, para dar conta daquela violência, porque é isso que a linguagem faz.
É como se ela mediasse, como se tornasse possível a gente dar conta, às vezes, de situações muito difíceis, muito violentas, muito reveladoras da nossa condição humana assim, das nossas potências de bem e de mal.
Quando terminei, falei: “Eu não tenho mais nada para escrever nessa vida”.
MUDANÇAS
Mas passou um tempo e eu tinha achado a experiência tão incrível que comecei a ouvir uma certa voz. Comecei a perceber que não queria fazer absolutamente nada parecido com “Tudo é Rio”. Queria que a “Natureza da Mordida” fosse completamente diferente, queria outra linguagem.
Era uma narradora que era uma mulher muito fera e com uma formação muito consistente em literatura. Uma psicanalista mais velha, demenciando. Ou seja, não tinha nada intuitivo para mim.
Depois, veio “Véspera”. Eu também queria encontrar outro desafio de forma, outro desafio de alguma coisa que me envolvesse.
O envolvimento tem um pouco de ir além de um desafio de aprendizado. Precisa conter uma certa peleja. Se eu não tiver isso no processo, não vou me interessar. Em “Véspera”, tive que colocar uma energia muito forte no estudo da Bíblia, de entender o mito de Caim e Abel, de repensar esse mito dentro de uma lógica que fizesse sentido para mim, talvez porque meu pai tenha sido religioso.
Ele largou a vida religiosa, se casou com minha mãe e eu sempre senti uma atmosfera, na minha casa, de uma fé difícil. Porque a fé te pede para acreditar sem prova, é o dogma. Você tem que acreditar. E a matemática te pede para provar tudo. Esse conflito de fundamento, vindo do jeito que ele pensava a vida, gerou uma atmosfera assim de silêncio. Que eu acho que me influenciou muito, porque estou sempre às voltas com as questões da fé.
As questões de onde a gente vem, para onde a gente vai. É só a matéria? Como é a questão da espiritualidade? Como eu, uma mãe de dois filhos, vivendo em um país violento como esse nosso, vou viver sem rezar? Não dá.
O ÚLTIMO LIVRO
Comecei a viver uma sequência de lutos.
Perdi minha mãe, perdi meu psicanalista e, de repente, minha sócia teve um diagnóstico de câncer de pâncreas. Nós éramos muito amigas.
Então, essa sócia adoeceu e ela começou um processo de quimioterapia muito pesado. Um dia fui visitá-la. E saí de lá completamente arrasada. E nesse dia, cheguei em casa, abri o meu computador e comecei a escrever. Como? Muito caoticamente. Percebi que queria a linguagem da polifonia.
“Quando” veio assim, caoticamente, com uma linguagem diferente e foi muito bom, foi muito importante porque essa linguagem que me colocou salivante, atenta, ali envolvida. Ela fez com que eu desse conta da minha realidade naquele momento.
Que passasse por ela, sem me desviar, sem negar o que estava acontecendo, mas com recursos para lidar, porque eu tinha para onde ir. E eu ia para o livro e ali, e por mais difícil que estivesse, eu tinha minhas horinhas de felicidade.
Embora “Quando” tenha tudo isso, a coisa difícil da maternidade, ele tem a linguagem lúdica, tem o humor, tem a linguagem que permite olhar para aquilo que é terrível. Porque sem a mediação da linguagem, eu acho que a gente vai pirar.
BARTHES
Enquanto fazia “Quando”, estava lendo o livro do Roland Barthes, Diário de Luto. Ele escreveu fragmentos do luto da perda de sua mãe. E “Quando” começou assim. Eram fragmentos.
O Barthes fala uma coisa que, de uma maneira, está em “Quando”, que o luto é uma coisa que vai se espaçando, mas, quando vem, é como se tivesse impacto. É impressionante a força dessa ideia.
Acho que “Quando” trabalha um pouco essa perspectiva, inclusive da culpa por se distrair. Como que minha mãe morreu e eu agora já estou aqui e já estou há dias sendo feliz, me distraindo, me divertindo? Tem um componente de culpa nisso, que eu acho que foi no livro.
BARBÁRIE
Estive no programa da Globonews, ontem à noite (dia 20). Cheguei lá, estava vendo esse episódio do menino em Copacabana, que foi morto a pauladas. Como que a gente tolera isso? Como que, no dia seguinte, tudo funciona, como se nada tivesse acontecido?
Porque a gente não para, dá um murro na mesa e fala: “Vamos recombinar porque não está dando certo”. Essa é uma questão que “Quando” traz: por que nós não estamos aprendendo coletivamente?
Por que que a gente está tão tolerante com a desigualdade, com a violência, com a guerra?
INSPIRAÇÃO
Acho que há uma riqueza de possibilidades. Porque muitas pessoas têm esse conceito do sopro, uma coisa soprada. Não acho que seja nesse lugar. Mas acho que tem um mistério.
Eu tinha um eixo de “Quando” que, durante muito tempo chamei de memória, reminiscência, lembrança e não estava satisfeita com aquilo. Estava procurando uma palavra tinha três anos. De repente, eu encontro. Eu encontrei uma palavra chamada “engrama”.
Engrama é um traço no sistema nervoso, um traço na matéria humana, provocado por uma experiência intensa. Fiquei muito impressionada de achar essa palavra.
No final dos agradecimentos de “Quando”, digo o seguinte: “Obrigada à força mágica e sincrônica da literatura que não me deixa faltar o poema na hora em que estou pronta para ele”.
CRIATIVIDADE
Dei aula na universidade federal de redação publicitária. Uma pergunta que estava sempre em questão é se a criatividade é uma coisa de nascença, se a gente nasce criativo. Ou se a gente pode se tornar criativo e como é essa relação de ter os insights.
A imaginação não está no nada, ela não está no vácuo, ela é fruto das suas vivências, sempre será. A gente pode imaginar até um certo ponto. A imaginação tem uma conversa com a experiência, com a vivência, com a vida, com o que você lê, com o que você vive. Isso é muito importante para quem quer escrever. O ouvido escutar eu acho que é a chave.
Eu lembro que vi uma entrevista da Rosa Montero (escritora espanhola) em que falou que estava com uma ideia e de repente, ela faz uma espécie de escaleta, que ela fala: “O capítulo tal vai ter tal coisa, o capítulo tal vai ter tal coisa”. Não existe a possibilidade de eu fazer isso.
A criatividade é sempre resolução de problema. Se você não toma uma provocação, se você não tem pergunta, não tem criatividade. Pode não ser uma pergunta com interrogação no final, mas tem alguma provocação, tem alguma perturbação.
A gente precisa de palavra para pensar, sem linguagem não tem pensamento. Não tem uma fórmula, mas tem uma disponibilidade. Nem que você faça exercícios como escrever sem tirar o lápis do papel, escrever o que vier. Esse exercício é excelente para o dia que você está travado.
UNIVERSIDADE
Meu pai era professor de Matemática da universidade federal. Eu também fui professora de Redação Publicitária. Tenho muito gosto de vir à universidade sempre que posso.
A universidade é uma bênção, gente. Eu cheguei aqui e falei que está sucateado porque o prédio está. Mas é uma bênção. É uma coisa maravilhosa, uma coisa pela qual a gente tem que lutar.
Queria agradecer vocês a presença aqui. Dizer que eu fiquei muito feliz de ter vindo e dizer do meu do meu respeito, do meu amor pela universidade pública do Brasil.
FASCISMO
Minhas histórias são atravessadas pela questão da maternidade, pela questão das famílias, pela questão da violência. Elas me colocam assim diante das coisas mais intensas. Fiquei muito impressionada com a força de um corpo completamente desorganizado com os hormônios da maternidade. É de uma força inacreditável.
A gente acha que está tudo aqui, que tem uma coisa que está no nosso controle que a gente sabe pensar, mas é esse corpo que sente. É na linguagem que a gente oferece um pouco de coerência para esse corpo.
E que ajuda esse corpo a se equilibrar. Por isso, a psicanálise é tão importante, por isso a linguagem, a literatura, a música, a arte, são coisas tão importantes para a humanidade. Porque elas dão conta de uma sutileza, elas dão conta de um abstrato.
Outro dia estava vendo uma pessoa falar que o fascismo é o ódio ao abstrato. Não tolerar o sutil, o amor, o delicado, aquilo que não pode ser provado, mas que está aqui. A gente sabe. Porque tem uma coisa anterior à palavra





