Foto: Fernando SouzaO uso massivo de ferramentas tecnológicas para a redução das filas de atendimento no Sistema Único de Saúde foi apresentado em detalhes aos professores e pesquisadores do Instituto de Estudos em Saúde Coletiva da UFRJ, no dia 16 de junho. A secretária de Informação e Saúde Digital do Ministério da Saúde, Ana Estela Haddad, mostrou como funciona o chamado “Componente SUS Digital” dentro do programa Agora Tem Especialistas, lançado pela pasta no ano passado.
A iniciativa tenta mitigar o histórico problema da falta de médicos especialistas nas regiões mais pobres do país. “Desde antes da pandemia e agravada por ela, há um gargalo para a atenção especializada. Um estudo de 2023 do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde estima 370 mil óbitos ao ano, na saúde pública e privada, por doenças não transmissíveis relacionados
a um atraso do diagnóstico”, afirmou Ana Estela. “Ou seja, pela demora em se chegar à atenção especializada”.
Para enfrentar a enorme demanda, o fortalecimento da telessaúde é uma das principais frentes do SUS Digital. “A telessaúde é realizada no SUS há 20 anos. Só que, até a pandemia, a gente fazia teleconsultoria. Era a troca de opiniões entre profissionais. O Conselho Federal de Medicina não permitia teleconsulta. Na pandemia, abriu. Mas não foi uma expansão planejada. Fizemos uma revisão agora”, esclareceu a secretária do Ministério da Saúde.
Em 2023, existiam 12 núcleos de telessaúde no país; agora, são 63 apoiando todo o processo assistencial dentro do SUS, conectando unidades básicas de saúde e os especialistas.
De 2024 a 2025, 5,7 milhões de teleatendimentos foram realizados, cobrindo 2.929 municípios. Entre eles, 56% das cidades do Norte, 61% das cidades do Centro-Oeste e 57% das cidades do Nordeste. “É onde as pessoas estão mais isoladas dos centros de atendimento”, disse Ana Estela.
Está aberto um edital do Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações (FUST) para ampliar a conectividade em unidades básicas de saúde, assim como foi feito para as escolas. “Também pelo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) estamos levando kits de telessaúde. A gente organiza a sala de telessaúde na unidade básica. E o próprio profissional, agente comunitário ou enfermeiro, faz a mediação da consulta em um primeiro momento”. Dos 773 municípios da Amazônia Legal, 691 foram contemplados com os kits do ministério.
COMUNICAÇÃO ÁGIL
Outro aspecto do “Componente SUS Digital” é a comunicação direta com o paciente, a partir do ingresso na unidade básica de saúde. Se o usuário precisar fazer um exame ou se consultar com um especialista, o encaminhamento entra na fila de regulação – sistema que busca a vaga mais adequada, priorizando os casos mais urgentes. Neste momento, o usuário já recebe uma primeira mensagem, pelo aplicativo SUS Digital e pelo Whatsapp, dizendo que solicitação foi recebida.
“Antes, ele não sabia disso. Quando o agendamento é feito, ele recebe uma segunda notificação com todos os dados. Vinte e quatro horas antes da consulta, há uma terceira notificação, para diminuir o absenteísmo”, explicou a secretária. “E, ao final, quando se completa a oferta de cuidado integrado, o paciente é convidado a responder a uma pesquisa de satisfação”.
Antes mesmo do Agora Tem Especialistas, o ministério já estava ampliando a troca de informações entre todos os sistemas do SUS, a chamada interoperabilidade, para integrar uma base nacional de dados. Desde os anos 1990, o SUS acumulou mais de 400 sistemas diferentes, criados em períodos distintos e com arquiteturas variadas.
A Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS), lançada durante a pandemia, foi redesenhada para estabelecer os padrões mínimos de compartilhamento seguro das informações clínicas entre diferentes instituições e sistemas.
“A RNDS só tinha registros de exames laboratoriais de covid, monkeypox e vacina da covid. A partir de 2023, resolvemos adotar amplamente”, afirmou Ana Estela. Em 2023, a rede reunia 700 milhões de registros. Hoje, já soma mais de 4,7 bilhões, com exames laboratoriais, prescrições de medicamentos, atestados e autorizações para procedimentos de alto custo, entre outros dados.
Falta muito ainda. Mas, com os dados disponíveis, profissionais de saúde podem acessar o prontuário do paciente que já foi atendido dentro do SUS e realizar um atendimento mais qualificado. Gestores poderão mapear demandas e traçar políticas.
“Precisa expandir? Precisa. Mas a tecnologia sozinha não faz milagre. A tecnologia precisa ter um propósito. Ela não veio para fazer a gente abrir mão de construir a rede, capacitar os profissionais e acolher os usuários. Tudo isso precisa acontecer”, concluiu Ana Estela.
UFRJ À DISPOSIÇÃO
Presidenta da ADUFRJ e professora do IESC, Ligia Bahia avalia que as ações do ministério são inovadoras. “Estamos com avanços enormes. Para nós que acompanhamos esse processo há muito tempo, acredito que demos muitos passos adiante”, contou.
O reitor da UFRJ, professor Roberto Medronho, que é epidemiologista, colocou a expertise da universidade à disposição do programa. “Nós precisamos em um país continental como o nosso, tão desigual, utilizar a saúde digital”, afirmou. “No nosso parque tecnológico, agora abrimos um hub para 40 start-ups da área da saúde. O pessoal da área de engenharia de sistemas, da área de computação, pode nos ajudar a aprofundar as questões do SUS Digital”, completou.





