Alexandre Palma da Silva
Coordenador do Laboratório de Imaginário Social e Educação na Faculdade de Educação e Professor do Programa de Pós-Graduação em Tecnologia para o Desenvolvimento Social da UFRJ
O senso comum sobre o 13 de maio de 1888 e sua significação controversa constituem uma excelente oportunidade para refletirmos a permanência de múltiplas tensões contemporâneas. Os mais de trezentos e cinquenta anos de escravização marcaram profundamente a nossa cultura, especialmente as distintas formas de reelaboração do imaginário social brasileiro nos espaços e tempos.
Para citar um exemplo, no resgate do ensaio sobre Jean-Baptiste Debret (1768 – 1848) publicado no livro “A Forma difícil” (2011) de Rodrigo Naves, é possível supor uma consonância da violenta paisagem visual de Debret com o infeliz episódio no qual funcionários do transporte ferroviário fluminense agrediram passageiros com chicotadas, uma cena amplamente repercutida há poucos anos. A problematização de um imaginário artístico decolonial, um debate com interlocução dentro e fora da Universidade, é um desafio de contorno progressista ao celebrarmos tanto o legado da pioneira Lei 10.639 de 2003 quanto o Dia Mundial da África no último 25 de maio.
Foto: DivulgaçãoDentre as infinitas camadas de brasilidade projetadas sobre o continente africano e, dialeticamente, dos países africanos que moldaram o país, ainda é notável rever a exuberância de Gilberto Gil em “Pierre Verger: mensageiro entre dois mundos”, documentário realizado por Lula Buarque de Holanda em 1998. Rupturas e vestígios reaparecem na perspectiva da Arte Afro-Brasileira, seja na visualidade emancipatória proporcionada ao grande público pela exposição artística “Isso é Coisa de Preto: cento e trinta anos de Abolição da Escravidão” no Museu Afro Brasil em 2018 ou a recente “Pretagonismos”, iniciativa do Museu Nacional de Belas Artes durante o ano passado. Outro ângulo dessa interseção é o Terreiro de Candomblé “Oba Ogunté”, também conhecido como Sítio do Pai Adão, fundado em 1855 pela Tia Ignês Ifatinuké e tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Adão, o sucessor da pioneira matriarca africana em solo nordestino, é o nome religioso de Felipe Sabino da Costa (1877 – 1936). Ele foi a Lagos, na Nigéria, para se aperfeiçoar nas tradições ancestrais e dele herdamos, no contexto familiar, esta frase ilustrativa sobre a densidade das relações afro-atlânticas: “Quem mergulha na areia da praia, não conhece o sabor da água do mar”.
Impactados por este rico universo, após um período de amadurecimento, realizamos uma viagem para a Festa da Cultura Negra do Quilombo São José da Serra, no último dia 16 de maio. A proposta, voltada prioritariamente para estudantes de graduação e pós-graduação da UFRJ, contou com a parceria amiga de Marta Simões Peres, Professora do Centro de Ciências da Matemática da Natureza (CCMN) e o apoio decisivo da Prefeitura Universitária. A centelha de articulação desse processo veio da necessidade de compartilhar o vivo testemunho do encontro do sagrado e do profano na festividade do Quilombo no Município de Valença, cuja interrupção temporária de 2019 a 2022 sugere uma incontornável fratura do governo anterior, caracterizado pelo retrocesso de políticas sociais.
Somado a isto, observei antes de 2018 alguns elementos da pesquisa de Ione Maria do Carmo, intitulada “O Caxambu tem dendê: o jongo e religiosidades na construção da identidade quilombola de São José da Serra”, apresentada ao Mestrado em História da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro em 2012. No trabalho, a autora destaca o catolicismo popular e sua presença nos pontos de Jongo, assim como a existência de uma capela na comunidade, célula para a realização da Missa Afro na programação anual do evento. Neste cenário, os versos do líder quilombola Toninho Canecão, autor da letra de Jongo “Eu fui na Mata”, sublinham a imersão vivenciada pela passagem dos estudantes da UFRJ neste território ímpar da Serra da Beleza: “Ah eu fui na mata buscar a lenha... Eu passei na cachoeira molhei a mão... Senhor da Pedreira... Benza essa fogueira... Além da fogueira... Ajudai todos os irmãos”.
Após a viagem, os relatos dos estudantes indicam a partilha dessa experiência sob diferentes expectativas. Uma delas diz respeito ao advento da crise do capitalismo expresso no uso das tecnologias digitais para impulsionar redes de desinformação, como sugere o capítulo sobre guerras culturais do livro “Chomsky e Mujica: sobrevivendo ao século XXI” (2024). Assim, é possível indagar até que o ponto o sentido da experiência quilombola é poética e ao mesmo tempo uma forma de pensar o Brasil, sem desconsiderar a erosão do sistema parlamentar, sob o prisma da permanente defesa da democracia, contrapondo interpretações conservadoras sobre a identidade pluriétnica. Essa forma de cidadania cultural organicamente reconhece e contempla a assunção de uma identidade negra, como recomenda Ricardo Franklin Ferreira, em “Afro-descendente: identidade em construção” (2009), ao demarcar os estágios desse processo, submissão ao mundo branco, descoberta do grupo étnico-racial de referência, militância afrocentrada e abertura para a alteridade.
É neste aspecto da relação interdisciplinar cultura e democracia, que compreendemos a importância de as instituições acadêmicas renovarem ações, projetos e pesquisas nos múltiplos territórios criativos rurais e urbanos. Recentemente, os Ministérios da Cultura e Igualdade Racial estabeleceram políticas transversais para o fortalecimento de identidades regionais e, no caso do Rio de Janeiro, destacamos o incentivo da Fundação Nacional de Artes para a criação do Centro de Memória do Bloco Cacique de Ramos. Nesta mesma direção, urge, ao mesmo tempo, o empenho governamental para recompor o quadro de pesquisadores, técnicos e colaboradores em geral, responsáveis por esta rica conexão universidade-sociedade. Isto é fundamental para capilarizar o desenvolvimento de diferentes segmentos da vida social brasileira.





