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WhatsApp Image 2026 05 29 at 20.52.42 1PALESTRANTES Da esquerda para a direita: os docentes Cheilamar Prates, Máximo Masson, Alessandra Carvalho e Marina Campos - Foto: Fernando SouzaO que se espera da escolarização da população e da formação de professores no Brasil contemporâneo? O questionamento do professor Máximo Masson, titular da Cátedra Darcy Ribeiro do Colégio Brasileiro de Altos Estudos (CBAE) permeou o debate que celebrou os 78 anos do Colégio de Aplicação da UFRJ. O encontro festejou a trajetória da instituição, fundada em 20 de maio de 1948, e discutiu o papel da universidade pública na formulação de políticas para a educação básica e no combate às desigualdades no país. O evento também aprofundou o diagnóstico sobre a o CAp-UFRJ e seus desafios pedagógicos.
Um desses desafios – e também motivo de maior orgulho – é o trabalho em torno da inclusão de crianças e adolescentes com deficiência. Em um cenário nacional onde a inserção de estudantes PCD ainda enfrenta grandes gargalos estruturais, o CAp se destaca como uma escola de referência. “Temos 673 estudantes, dos quais 63 são oriundos da educação especial”, destacou a professora Marina Campos, vice-diretora do colégio.
O grupo engloba alunos com deficiências físicas, intelectuais e neurodivergências. Crianças com o Transtorno do Espectro Altista correspondem a 80% dos alunos da educação especial. “Inclusão, diversidade e excelência não são campos opostos. Seguimos com rigor acadêmico e mantemos nossa produção no topo”, destacou a professora. “A diversidade enriquece nossa produção coletiva. Deixamos de ser uma escola de elite para nos tornar uma escola que forma para cidadania, na democracia”.
A vice-diretora apresentou a escola como a unidade da UFRJ que mais possui projetos de extensão, o que expressa o vínculo profundo da comunidade escolar com a sociedade. São 65 projetos de extensão articulados com o ensino e a pesquisa. A formação do quadro de professores também foi destacada pela dirigente. “Dos nossos atuais 97 docentes efetivos, 50 são doutores, 40 são mestres e 3 são especialistas”.
A docente também falou sobre os desafios estruturais. “Atuar na educação contemporânea demanda muito preparo, pois precisamos garantir espaços que sejam verdadeiramente democráticos, equânimes. E isso passa por infraestrutura física, por financiamento. Há inúmeros desafios. Hoje não somos uma unidade gestora de recursos, o que nos impõe limitações”, criticou.
Ao pensar na escola do futuro, Marina Campos afirmou que o CAp segue criando uma pedagogia própria. “É uma construção coletiva. Estamos criando maneiras de fazer inclusão aliada a mudanças nas práticas pedagógicas. É um processo permanente. Democratizar o acesso exige reinventar nossos modos de ensinar, gerir e criar formas de permanência e pertencimento”.
A ex-coordenadora pedagógica do CAp, professora Cheilamar Prates, lembrou da escola que ajudou a construir até 1997, quando se aposentou. “Quando eu era bem jovem, saindo da UFRJ como professora de Inglês, eu me deparei com a escola que eu queria para todos. Porém, ainda era uma escola que não era para todos”, disse. “Porém, sempre houve a preocupação que o aluno fosse visto integralmente. Havia acompanhamento pedagógico, quando isso sequer existia em outras escolas. A formação integral do estudante sempre foi um ativo do colégio”, lembrou.
A docente também destacou o caráter do colégio como campo de formação de professores. “A construção do saber do CAp está no topo porque ele nasce como campo de experiência. É um colégio para os licenciandos, de forma que a tecnologia pedagógica é trazida pelos licenciandos. É por isso que o CAp acompanha tão fortemente as mudanças sociais”, defendeu.

RAÍZES PROFUNDAS
As quase oito décadas de existência exigem também o exercício de revisitar o passado. O economista e ex-aluno Victor Hugo Klagsbrunn lembrou que a escola sempre seguiu na vanguarda das mudanças sociais. “É uma grande conquista termos o acesso por sorteio, termos as cotas, a inclusão, mas isso só é possível hoje porque esse papel de vanguarda é parte do DNA da criação da escola”, afirmou.
“Sempre tivemos uma formação questionadora da realidade, sempre fomos instigados a pensar a realidade do país”, lembrou Klagsbrunn, que foi aluno entre 1957 e 1964. “Eu vivi momentos de grande revolução na mentalidade política social e o CAp sempre acompanhou esses movimentos na ponta, trazendo para os seus alunos o mais moderno do pensamento”, destacou o economista, que revelou ter sido preso durante a ditadura militar.
“Fomos formados por professores muito críticos e para sermos críticos. Começamos, então, a pensar e questionar a realidade do Brasil. Quando fui preso, apontaram pra mim e disseram: ‘Aí, mais um do Colégio de Aplicação’. Isso ilustra muito esse espírito que sempre acompanhou o CAp”.
Coube ao professor Máximo Masson fazer a costura entre a importância estratégica dos colégios de aplicação e a missão institucional das universidades federais num momento de mudanças radicais no país. O CAp foi criado no final da década de 1940, quando terminava o Estado Novo e começava a Quarta República. “Naquele momento, tínhamos uma escola que não era para todos. Portanto, um colégio que, como outras instituições que surgiam no Brasil da época, em especial o colégio de aplicação da USP, surge para ser referência”, explicou Masson.
Com o tempo, esses colégios se tornaram ‘ilhas’ de excelência na educação básica pública. Um projeto que segue em transformação, mas que precisa mudar mais. Para o docente, a educação básica brasileira precisa abraçar a tarefa de transformação da sociedade.
“Qual é a relação que nós queremos que a escolarização da população e a formação de professores venha a ter? Onde foi que a escola no Brasil falhou? Estamos em tempos de pessoas questionarem a forma esferoide da Terra, então não basta assegurar formas de mobilidade individual. Precisamos superar os entraves a processos de desigualdade social, que não se resolvem apenas pela formação”, afirmou. “O CAp, assim como toda a universidade, deve estar firmemente atrelado às demandas históricas da classe trabalhadora. Essas instituições devem ser referências para se refletir, para se pensar sobre os processos de escolarização, sobre os processos educacionais e a relação desses processos com os interesses majoritários”.

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