Foto: Fernando SouzaAdensar um espaço da universidade à beira da Rodovia Washington Luiz com novos cursos e oferecer mais assistência para um corpo estudantil muito vulnerável. Essa é a missão assumida pela professora Marisa Suarez, diretora do campus da UFRJ em Duque de Caxias desde novembro de 2024. “Há muitos desafios”, diz.
É difícil, mas nada parece impossível para o grupo de professores, técnicos e alunos que há 18 anos luta com garra para fazer ensino, pesquisa e extensão na Baixada Fluminense enfrentando cenários bastante adversos.
Bastaria dizer que a história começou em Xerém, um distrito de Caxias, em 2008, com módulos alimentados por geradores, em um terreno compartilhado com time de futebol e uma fundação do município. Mas não foi só isso.
Quando a UFRJ iniciou a transferência para o atual endereço, em 2018, o campus sequer apresentava água encanada. O sistema elétrico não comportava a instalação de aparelhos de ar-condicionado em todas as salas e laboratórios. Em dias de muito calor, aulas eram suspensas.
Os prédios, herança de um projeto abandonado da prefeitura local, nunca haviam passado por uma reforma nos telhados — cada chuva representava goteiras, infiltrações, perda de mobiliário e até de equipamentos.
A “virada de chave” aconteceu em 2025. As obras de reforma dos telhados, iniciadas em setembro de 2024, acabaram em junho do ano passado. A expansão da rede elétrica e instalação da ligação dos 103 aparelhos de ar-condicionado também foram concluídas no mesmo mês. “A reforma elétrica permitiu que a gente pudesse ligar equipamentos em laboratório de forma simultânea. Antes, ligava um, não podia ligar outro. Agora temos capacidade para fazer isso”, afirma a professora Luisa Ketzer, diretora da ADUFRJ e docente do campus.
É esse mínimo de condições de infraestrutura que permite à comunidade universitária sonhar com voos mais altos.
NOVOS CURSOS
Está prevista para janeiro de 2028 a entrega de um novo prédio (bloco F), aos fundos do campus, que está sendo construído pela Prefeitura de Duque
de Caxias. A nova estrutura deve abrigar 6 laboratórios (5 didáticos e 1 anatômico), 18 salas (15 de 58 m2 e 3 de 86 m², uma biblioteca e um espaço para os docentes.
A ideia é aproveitar a futura instalação para quatro novos cursos: Medicina (com entrada de 30 alunos por semestre), Biofármacos (20/ano), Ciência de Dados (20/ano) e Licenciatura Interdisciplinar (25/semestre). Todos já fazem parte do Plano de Desenvolvimento Institucional da UFRJ até 2029.
“Estamos fazendo estudo de implementação de todos estes cursos. E de alguns, eventualmente, no período noturno”, afirma a diretora do campus. “Atenderia melhor a população da região que trabalha durante o dia”.
MAIS OBRAS
Em paralelo, a administração local realiza outras obras com apoio do Escritório Técnico da Universidade. No prédio do bloco E, onde nada foi feito desde a instalação da UFRJ no campus, ficarão todos os núcleos de pesquisa hoje espalhados e parcialmente acomodados em módulos habitacionais. “Mas não acabaremos com os módulos. Com o crescimento do corpo docente, precisaremos de mais espaço”, completa Marisa.
No bloco D, ficarão concentrados os equipamentos de pesquisa de grande porte do campus, que atendem não só à UFRJ, mas a outras instituições, com foco interdisciplinar. O projeto básico já foi finalizado. A previsão de conclusão da obra é junho de 2027.
Outra iniciativa em andamento é a instalação de placas fotovoltaicas nos telhados. A diretora está otimista e espera concluir esta etapa ainda em 2026.
APOIO AOS ESTUDANTES
Uma das grandes preocupações no campus é o cuidado com os estudantes, 80% deles os primeiros da família a cursar o ensino superior, de acordo com o levantamento mais recente disponível — o perfil socioeconômico do corpo discente será atualizado este semestre, por meio de um questionário para elaboração do Plano de Desenvolvimento da Unidade (PDU).
“A gente se depara com alunos em situação de muita vulnerabilidade. ‘Ah, professora, não posso ir todos os dias porque não tenho dinheiro para a passagem’. São questões delicadas que afetam o trabalho docente”, afirma Marisa.
Os estudantes têm direito ao Jaé Universitário com gratuidade apenas no município do Rio. “O aluno que mora em Campo Grande pega a condução com o Jaé, vai até o Fundão, pega o nosso ônibus intercampi e chega ao campus. Mas o aluno que mora em outro município não tem isso. Muitos dependem do auxílio-transporte da universidade”, explica a diretora. A pró-reitoria de Políticas Estudantis (PR-7) informa que 100 estudantes de Caxias receberam o benefício em dezembro do ano passado.
O bandejão local serve até 300 refeições no almoço e, desde março do ano passado, 100 lanches no café da manhã. “Mas já há um pedido atual dos alunos para ampliar o funcionamento para o jantar também. Eles chegam de manhã e voltam para casa de noite com fome”.
Em Caxias, mesmo o básico foi conquistado recentemente para dar um pouco mais de conforto para o segmento. Bancos de madeira foram instalados nos corredores para acomodar os estudantes fora do horário de aulas e o espaço da biblioteca passou por uma reorganização para ampliação de uma sala de estudos.
Uma preocupação recorrente do corpo docente é o atendimento a estudantes com deficiência e as adaptações pedagógicas necessárias. Segundo a professora Luisa Ketzer, que faz parte da Comissão Interna de Acessibilidade, o número de estudantes atendidos aumentou consideravelmente no pós-pandemia.
Luisa informa que há um diálogo constante com a Diretoria de Acessibilidade da universidade (DIRAC), responsável pela alocação de monitores de acessibilidade e inclusão. “Ainda assim, é imprescindível institucionalizar orientações para a condução de estágios obrigatórios práticos e experimentais e para o desenvolvimento de monografias, necessárias à conclusão do curso”, afirma.
MAIS INSTITUCIONALIZAÇÃO
O campus de Caxias aparece no estatuto da universidade desde 2018 como se não tivesse nenhuma unidade acadêmica. Ele funciona ainda com um conselho deliberativo provisório. A diretora possui mandato de apenas dois anos, prorrogáveis por mais dois.
No final do ano passado, uma comissão interna formada por docentes e técnicos-administrativos ficou encarregada de elaborar um novo regimento. “A comissão se reuniu algumas vezes em 2025 e já revisou o organograma do campus. Estamos na fase de discussão e ajustes. No entanto, o trabalho está paralisado, devido à greve dos servidores”, explicou a diretora do Campus, Marisa Suarez.




