Foto: DIOGO VASCONCELLOSENTREVISTA I RONALDO FERNANDES, DIRETOR DO MUSEU NACIONAL
Especialista da área de Zoologia, com ênfase em serpentes, o professor Ronaldo Fernandes terá a complexa missão de conduzir o Museu Nacional pelos próximos quatro anos, incluindo a reabertura da área de exposições do Paço de São Cristóvão, destruída pelo incêndio de 2018. Ao lado da vice-diretora Juliana Manso Sayão, Ronaldo encabeçou a chapa vencedora da disputa pela direção do MN — com o apropriado nome de “Construindo o Futuro”. O grupo representa a continuidade da gestão anterior, comandada pelo professor Alexander Kellner.
Nesta entrevista ao Jornal da AdUFRJ, Ronaldo Fernandes fala sobre a busca por mais parcerias que propiciem recursos para a recomposição e ampliação do acervo do museu e, claro, das expectativas para a reabertura ao público. Lembra também de sua relação afetiva com o museu que frequenta desde os tempos de menino, quando jogava pelada nos gramados da Quinta da Boa Vista.
Jornal da Adufrj - Sua chapa saiu vencedora em uma disputa apertada com a chapa adversária. Essa disputa deixou sequelas ou está tudo pacificado?
Ronaldo Fernandes - A eleição foi disputada, tivemos duas chapas. Minha chapa foi vitoriosa por poucos votos. Mas há uma diferença entre disputa acirrada e disputa polarizada. É óbvio que algumas pessoas estão identificadas com uma chapa ou com a outra. Mas a grande maioria do museu aproveitou esse debate de ideias e escolheu qual chapa julgou mais interessante. Não há um alinhamento ou divisão. Já tive reunião, inclusive, com a professora Mariângela Menezes, que foi minha concorrente. Ela é a presidenta da Associação Amigos do Museu Nacional. Tudo segue, o trabalho continua. Acho que o museu tem maturidade para enfrentar essas disputas.
Como o senhor pretende buscar novos parceiros para a reconstrução e a reabertura do museu?
O incêndio destruiu 80% do nosso acervo de exposição e tivemos de ampliar parcerias para a reconstrução do Palácio de São Cristóvão e a recomposição do acervo. Encontramos parceiros tanto na esfera pública quanto na privada, desde a Fundação Vale e a Unesco até o BNDES. Vieram também o Bradesco, o Itaú, a Eletrobras, a Cosan. Nesse momento, nosso maior benfeitor é o BNDES, que botou cerca de R$ 100 milhões no projeto.Somos muito agradecidos ao presidente Aloizio Mercadante, também foi ele que ajudou o museu a se posicionar junto ao mercado financeiro. Vamos buscar mais parcerias, é um trabalho contínuo.
Em relação ao acervo, há também doadores individuais, não?
Isso é emocionante. Muitas pessoas doaram objetos para o museu. São pessoas que, como a maioria dos cariocas, têm uma relação emocional com o museu. Eu posso dizer, eu vim aqui como criança várias vezes. Eu vinha jogar bola na Quinta da Boa Vista e depois visitava o Museu Nacional. As pessoas têm essa memória afetiva. Tivemos uma senhora que veio aqui e doou moedas antigas, por exemplo. Outras pessoas doaram peças de herança. Parte dessas peças será exposta no museu.
A partir dessas doações, como o museu está reorganizando seu acervo?
Há um aspecto cultural interessante. A coleção do Museu Nacional tem início no século XIX. É uma coleção colonialista. As peças eram adquiridas de uma forma ou de outra e eram mostradas de acordo aos interesses do curador. Ou seja, o pesquisador escolhia o que era importante mostrar na exposição. O que você tem hoje é um pouco diferente. Nossa equipe de Etnologia tem ido às tribos aqui no Brasil e perguntado: vocês querem ser parte da exposição do museu? Se sim, como preferem ser representados? E eles estão tecendo, criando, fabricando novas peças. Essas peças que estão vindo para cá são peças recentes, e mostram não o que o curador estava interessado em mostrar, mas sim o que aquela etnia está interessada em apresentar.
Foi o que ocorreu com o manto tupinambá repatriado da Europa?
O manto foi uma doação do Museu da Dinamarca. E ele tem uma importância religiosa dentro da cultura tupinambá. A única coisa razoável a ser feita é procurar as lideranças tupinambás para que elas participassem do processo. Eles vieram aqui, fizeram seus rituais, prestaram suas homenagens. No entendimento cultural deles, o manto é como se fosse um ancestral deles. Não o tratam como um objeto, mas sim como uma pessoa. Então, é necessário todo o respeito.
As pessoas associam muito o museu ao seu acervo, mas a reconstrução também é necessária na área de ensino e pesquisa, não?
Precisamos captar mais dinheiro para reconstruir o Palácio São Cristóvão e o campus de ensino e pesquisa. É muito importante lembrar que o museu não é só um aparelho cultural. O Museu Nacional tem vários departamentos, várias áreas de pesquisa, tem seis programas de pós-graduação, tem um peso acadêmico muito grande. Temos que buscar também parcerias para essa parte, na qual os patrocinadores têm menos interesse. Cabe a nós procurarmos os parceiros corretos, e nesse campo a Finep nos tem apoiado muito.
É bom lembrar que a parte acadêmica não parou com o incêndio...
Isso mesmo. E nem todo o acervo foi destruído. A biblioteca do museu e os departamentos de Botânica e de Vertebrados ficam em um terreno do Horto Botânico e não foram afetados, assim como a parte da Arqueologia. O prédio Alípio de Miranda Ribeiro, anexo ao Palácio, onde fica a coleção de Invertebrados, também não foi destruído pelo incêndio. Esse trabalho não parou. Nós temos que agradecer, nesse ponto, à Capes, que foi generosa com os programas de pós-graduação, ela entendeu perfeitamente que seria impossível que nossos alunos defendessem as suas teses no período do incêndio, e deu prazos extras. Nossos cursos de pós-graduação estão muito bem, o de Antropologia Social é conceito 7 da Capes, o de Zoologia é conceito 6, e o de Arqueologia subiu de 5 para 6 na última avaliação quadrienal (veja mais sobre a quadrienal da Capes nas páginas 4 e 5).
Uma coisa que certamente vai ocorrer na sua gestão será a reabertura total do Paço de São Cristóvão. Como está esse cronograma?
Estamos trabalhando para a virada de 2028 para 2029. É o melhor que posso dizer a você, essa é a programação que nós temos para o encerramento das obras. Nem todo o dinheiro foi captado, portanto existe certa prudência com esses prazos. O dinheiro do BNDES, por exemplo, está sendo aplicado para a reconstrução da parte traseira do prédio e a restauração das fachadas. A parte do MEC nós estamos usando para o prédio anexo Alípio de Miranda Ribeiro, que é importante ficar logo pronto, pois ali teremos, além de um auditório, as casas de máquinas e os sistemas de refrigeração. Depois da entrega das obras, vamos montar os quatro circuitos de exposição, nossa equipe já está tratando disso. O palácio inteiro vai ser utilizado como área expositiva. A área de exposição do museu vai ser muito maior do que era no passado. Vamos fazer de tudo para que novas gerações se encantem com o museu, assim como nós nos encantamos.





