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WhatsApp Image 2021 08 27 at 22.38.00Diretoria da AdUFRJ

 

Esse foi o título do editorial de novembro de 2019, quando, após os primeiros 30 dias de mandato à frente da diretoria da AdUFRJ, dedicamos uma edição do jornal inteiramente em homenagem ao Dia da Consciência Negra. Falávamos de um legado monstruoso, cuja dimensão não tem paralelo entre as nações modernas, tanto por sua dimensão temporal — foram mais de três séculos —, quanto por sua dimensão quantitativa, pois contam-se aos milhões as pessoas que foram arrancadas de suas vidas, trazidas à força ao Brasil e escravizadas. Nenhuma formação social pode conviver impunemente com um quadro dessa gravidade. Há apenas uma década, a universidade começou a implantar medidas que buscam alterar em profundidade um cenário que pouco havia mudado nos últimos cem anos. Hoje as expressões “lugar de fala” e “racismo estrutural” difundiram-se de tal forma que integram de modo cotidiano tantas de nossas conversas. Mas, para sairmos de fato deste imbróglio histórico, precisamos encarar de modo radical e consciente que não somos alheios a essa realidade: o racismo, filho direto dessa realidade, habita em todos nós. O que começamos a viver na semana que se encerra (veja na página 5) pode ser uma grande possibilidade para a universidade encarar a si mesma e as suas tradições e buscar uma saída que fortaleça um círculo virtuoso de enfrentamento de seu racismo estrutural. A universidade não está alheia ao mundo que a forma, mas, se quiser cumprir seu papel, deverá ser também um espaço de liberdade autêntica, projeção de uma sociedade mais justa. A primeira e fundamental lição que tiramos desses últimos dias é que não poderá haver qualquer tolerância a práticas discriminatórias, venha de quem vier.

Não é pouco significativo que um conflito entre dois professores, no Departamento de Ciência Política, coloque a nu nossas mazelas. Diversas notas circulam pela universidade, além de um relato apresentado pelo grupo de professores que esteve envolvido na denúncia. Há em tudo isso um fato incontestável: um professor negro se sentiu profundamente atingido numa discussão sobre a constituição de banca para concurso em que pleiteava a sua participação e, por isso, recorreu ao Coletivo de Docentes Negros e Negras da UFRJ. Foi imediatamente acolhido, assim como a sua reivindicação de uma rigorosa apuração do ocorrido, que está expressa numa petição pública de ampla repercussão.

Há nessa movimentação toda uma possibilidade que a UFRJ não pode perder. O desafio está lançado: precisamos ser absolutamente intolerantes com qualquer prática de discriminação racial e o processo para garantir a sua apuração e até mesmo uma eventual punição precisa também reafirmar e aprofundar a nossa experiência democrática, aprimorar o funcionamento institucional, consolidar práticas que multipliquem uma nova consciência. E para isso trabalharemos de modo incansável, e estaremos sempre, de modo incondicional e solidário, junto a todas as ações que protejam a vida, valorizem, reconheçam e expandam a participação de negros e negras na vida universitária. Desde a sua articulação e criação, acompanhamos as ações e subscrevemos as reivindicações do Coletivo de Docentes Negros e Negras da UFRJ, respeitando sua autonomia e protagonismo.

Que tudo isso nos aproxime mais, abra novos diálogos e construa a universidade plural que nos foi negada nos últimos 100 anos. Que o legado de nossa geração seja mais bem-sucedido ao romper as amarras da rede de insensibilidade tecida pelos séculos de exclusão, violência e perversidade.

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