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Silvana Sá

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A primeira reitora da história da UFRJ, professora Denise Pires de Carvalho, recebeu a reportagem da AdUFRJ para uma entrevista no Instituto Coppead. Lá, Denise e o futuro vice-reitor, professor Carlos Frederico Leão Rocha, despacham provisoriamente. A médica do Instituto de Biofísica não esconde a apreensão de herdar uma universidade com um déficit de R$ 170 milhões e um contigenciamento de R$ 114 milhões. “Herdo uma UFRJ que retrocedeu, não por culpa da atual gestão, mas por um conjunto de escolhas que vêm de muito tempo”, afirma. Como legado, a nova reitora quer deixar uma universidade mais acolhedora. “Temos uma taxa de retenção e evasão muito grande. Não posso sair da reitoria sem resolver este problema”. A docente aposta numa gestão transparente. E acredita que pode conseguir apoio junto a parlamentares e no MEC para tocar projetos de interesse social. Canecão, Museu Nacional e hospitais são alguns exemplos. Confira a seguir a entrevista.

Jornal da Adufrj – Quais serão as prioridades para os primeiros 30 dias de gestão?

Denise Pires – Queremos apresentar já na primeira reunião do Conselho Universitário um cronograma com metas para o primeiro semestre. Vamos priorizar temas acadêmicos. Queremos uma nova Comissão Permanente de Avaliação, que será composta por professores credenciados como avaliadores do MEC. Essas pessoas já foram identificadas e serão convidadas. Pretendemos rever o Plano de Desenvolvimento Institucional. Não é possível que uma universidade sobreviva com uma taxa de evasão e retenção de 50%. Este é um tema prioritário para nós. Não resolveremos isso em um semestre, mas vamos definir as políticas para diminuir esse número.

Jornal da Adufrj – Já há caminhos para isso?

Primeiro, diagnosticar quais são as causas da evasão e retenção nos diferentes cursos. Qual tipo de retenção? Em que período esses alunos param? Há alunos que trancam faltando pouco para concluir o curso. Essas disciplinas não podem ser cursadas no modo de ensino à distância? Não poderíamos fazer um híbrido nesses casos? Queremos identificar os técnicos-administrativos com formação em Pedagogia para que possam integrar as Comissões de Orientação e Acompanhamento Acadêmico. Assim formaremos os núcleos de psico-pedagogia, em parceria com o Instituto de Psicologia. Quem sabe até formar um campo de estágio para os estudantes.

Jornal da Adufrj – Em relação à pesquisa, quais as prioridades?

Vamos rever a estrutura da Agência UFRJ de Inovação. É fundamental que ela tenha sua atividade capilarizada nos diferentes centros, com os Núcleos de Inovação Tecnológica para ampliar o número de patentes. Também é fundamental que haja integração entre a PR-2 e o Parque Tecnológico. Queremos ainda incentivar parcerias entre os cursos de notas 6 e 7 com os cursos 3 e 4, para buscar aumentar as notas desses junto à Capes.

Jornal da Adufrj – A sua gestão pretende ampliar parcerias com empresas para áreas além das engenharias?

A professora Denise Freire (pró-reitora de Pós-graduação e Pesquisa) já vem fazendo reuniões com empresas fora do eixo petróleo e gás. É interesse ampliar as parcerias para a área biomédica.

Jornal da Adufrj – Por falar nas biomédicas, quais os planos para os hospitais?

Todos os esforços serão voltados para a recuperação do nosso Hospital Universitário. Tenho uma reunião ainda na transição com o professor Marcos Freire (diretor do HUCFF). Devemos agir junto ao secretário de Saúde do estado para captar investimentos na infraestrutura do hospital. Em relação ao IPPMG (Instituto de Puericultura e Pediatria Martagão Gesteira), pretendemos trazer para a UFRJ o diagnóstico de doenças raras e neonatais. São projetos que serão iniciados já no primeiro ano de gestão.

Jornal da Adufrj – Sobre o Museu Nacional, como resolver o contingenciamento para as obras?

Nós estamos buscando apoio da bancada do Rio de Janeiro. Em paralelo, protocolamos na semana passada um projeto de R$ 15 milhões para as obras de recuperação de fachada e telhado do prédio. E também a construção de prédios anexos para que os laboratórios de pesquisa voltem a funcionar plenamente. Nós precisamos usar 20% das verbas até dezembro. Se houver descontingenciamento dos recursos, poderemos usar a integralidade desses recursos. Quem vai coordenar esse processo representando a reitoria é a professora Kone Cesário, vice-diretora da FND.

Jornal da Adufrj – E a senhora ficou preocupada com a nomeação?

Lógico! Até sair a nomeação. Eu só me tranquilizei quando vi o diário oficial. Antes disso não tem como se tranquilizar, porque o presidente tem a prerrogativa legal de escolher qualquer um dos nomes da lista tríplice.

Jornal da Adufrj – Como têm sido as conversas em Brasília?

Estive duas vezes em Brasília. Num primeiro momento, procurei a bancada do Rio, senadores e deputados federais. Na segunda vez, estive com o secretário de Ensino Superior. A nossa conversa foi muito boa. No dia em que saiu a minha nomeação no Diário Oficial, ele me mandou uma mensagem parabenizando e dizendo: “Professora, agora podemos começar a trabalhar naqueles quatro eixos”.

Jornal da Adufrj – Quais são esses eixos?

Museu Nacional; Canecão; Parque Tecnológico – queremos dar completa transparência às atividades do Parque e democratizar as verbas que entram via Parque Tecnológico, de forma a criar bolsas de estudo e fazer investimentos também nas Humanidades. O quarto eixo é ampliar a internacionalização.

Jornal da Adufrj – Como tem sido o diálogo com a atual reitoria?

A transição tem ocorrido de forma muito tranquila e democrática. Os pró-reitores estão todos em permanente contato.

Jornal da Adufrj – Qual o carro-chefe da sua gestão?

Sem dúvidas, diminuir a taxa de evasão e retenção. O número é muito alto. Não posso sair da reitoria sem resolver este problema. Outra meta é devolver a administração central ao oitavo andar do prédio Jorge Machado Moreira. Teremos que buscar fontes alternativas para a reforma do prédio. Aquele prédio é tombado e está abandonado.

Jornal da Adufrj – Há nomes para o Fórum de Ciência e Cultura e para a Prefeitura ?

Sim, Ainda não divulgaremos o nome da professora que vai assumir o Fórum, mas a Prefeitura Universitária terá o professor Roberto Machado Corrêa como prefeito e o técnico-administrativo Marcos Benilson Maldonado, como vice-prefeito. Ainda não definimos quem será o supervisor da TIC e nem o diretor do ETU.

Jornal da Adufrj – A senhora optou por dois nomes que são da atual reitoria. Por que as escolhas?

Isto demonstra que não somos uma gestão sectária. Eu não tenho dúvida que o Roberto Vieira, que cuidou do registro estudantil por 30 anos e conhece bem os problemas dos estudantes, será um excelente pró-reitor de Políticas Estudantis. É um técnico-administrativo que tem graduação em administração e mestrado nessa área. Sua dissertação foi sobre o SiSU. O André (Esteves) é um excelente funcionário e altamente qualificado. Não tinha por que não chamá-lo. A qualificação e a atuação dessas pessoas foram os critérios para as escolhas.

Jornal da Adufrj – Como resolver o déficit de moradia estudantil na universidade?

Com o projeto do BNDES. A principal contrapartida é a construção de novas moradias. Mas defendo que sejam como um condomínio integrado, onde o estudante possa estudar, praticar o seu lazer, que tenha quadras de esporte, segurança. Sem dúvidas este é um momento muito difícil para conseguirmos avançar em investimentos, mas há alternativas.

Jornal da Adufrj – Que universidade a sua gestão herda?

Uma UFRJ que se perdeu em termos acadêmicos e administrativos. Que retrocedeu, não por culpa da atual gestão, mas por um conjunto de escolhas que vem de muito tempo. Uma UFRJ com um déficit de R$ 170 milhões. É claro que não podemos desconsiderar que houve queda do orçamento da universidade e contingenciamentos, mas um déficit deste tamanho é, sim, um problema de gestão. Houve redução dos contratos, mas não se traduziu em redução de despesas. A UFRJ é a menos informatizada de todas as federais. Nós temos programas excelentes de computação. Mas de alguma maneira, o que a gente faz aqui em termos acadêmicos não foi transferido para a parte administrativa. Os hospitais, as universidades federais, os Correios… todo mundo já implantou o Sistema Eletrônico da Informação (SEI), menos a UFRJ. A UFRJ não tem Eduroam, que é um sistema de roaming gratuito, desenvolvido para todas as instituições educacionais do mundo. No Brasil está disponibilizado desde 2013 e nós não temos essa rede. Nós não temos uma rede sem fio. Estou , então, herdando uma universidade que está na retaguarda. Infelizmente houve gestões em que pessoas trabalhavam mais por interesses particulares do que pela universidade. Isto não é bom para nenhuma instituição. Herdamos a universidade com um déficit orçamentário absurdo. Esse déficit é decorrente, sim, de falta de gestão. Houve um ajuste em termos de número de pessoas terceirizadas contratadas, mas isso não se refletiu em diminuição de gastos. O que justifica gastarmos R$ 170 milhões a mais do que recebemos? Precisaremos reduzir este déficit, independentemente do contingenciamento do governo. Nenhuma instituição se sustenta gastando mais do que recebe. A UFRJ precisa retomar a eficiência do gasto do dinheiro público.

Jornal da Adufrj – Que universidade a sua reitoria quer entregar?

Uma UFRJ que volte a ser vanguarda. Pretendemos apresentar um projeto de cidade inteligente, com diminuição do gasto energético e utilização de novas fontes de energia. Vamos tentar entrar no século XXI. Estará dentro do Plano Diretor que começará a ser revisto em 2020. Pretendo deixar uma diretoria de relações internacionais com status de superintendência, à altura do que a UFRJ merece.  Queremos que haja coordenações de relações internacionais em todas as unidades e centros. A PR-3 vai ser mais que uma Pró-reitoria de finanças que paga conta e apaga incêndio. Ela vai fazer o planejamento e desenvolvimento da universidade. No âmbito das políticas de Pessoal, pretendemos criar o Conselho de Administração na PR-4, um conselho consultivo, inicialmente. Reformular a CPST completamente, que é uma área muito esquecida na nossa universidade.  E pretendemos dimensionar e realocar pessoas conforme sua formação e especificidade. Também queremos descentralizar os concursos de técnicos-administrativos, para que aconteçam nos moldes do que são os concursos para docentes. Os docentes têm concursos mais especializados para suas áreas e os técnicos não. Eles chegam aqui com suas especificidades e são jogados. Isto resulta em desvios de função, em pessoas que sofrem assédio, que são infelizes com o que estão fazendo. Centralizar o concurso de técnico significa centralizar poder e nós não temos interesse nenhum em poder. Temos interesse em fazer as pessoas serem mais felizes aqui dentro. Queremos uma PR-5 completamente desburocratizada, reformulada, republicana. O que você faz de interação com a sociedade será considerado extensão. Não haverá centralização e nem regras pré-definidas. Nós não atuamos assim no nível da pesquisa. Ninguém controla o que é pesquisa e o que não é. Existe um Plano Nacional de Extensão. Temos que acompanhar este plano. Mais do que isso é implantar políticas de interesses pessoais. Fico muito feliz que já tenha sido aprovado o Conselho de Extensão, embora tardio, é um passo muito importante da nossa universidade.