Elisa Monteiro

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A semana foi marcada por polêmicas relacionadas ao Ministério da Educação. Na segunda-feira (28), o ministro Ricardo Vélez Rodríguez afirmou, em entrevista ao “Valor Econômico”, que “a ideia de universidade para todos não existe”.

Rodríguez falou do ensino superior como desperdício de tempo e disse que “as universidades devem ficar reservadas para uma elite intelectual”.

A repercussão da declaração levou o ministro a se explicar melhor em vídeo de 51 segundos no Twitter, na quarta-feira (30). Ali, nova polêmica. Vélez defendeu que: “A melhor coisa para democratizar a universidade é ensino básico de qualidade. Todo mundo se forma, todo mundo se habilita e todo mundo pode competir”. A mensagem deixou no ar se as ações afirmativas nas universidades federais, como sistema de cotas, estariam em xeque.

Para o decano do Centro de Filosofia e Ciências Humanas da UFRJ, Marcelo Correa e Castro, a abordagem ensino básico versus universidade não traz novidade e visa justificar a redução de investimentos públicos no setor. “Todos os países desenvolvidos – inclusive os usados como referência pelo atual governo, como EUA e Israel – ampliaram seus patamares de investimento em educação básica e superior. Não é um ou outro; é um e outro”.

 

 

Mero mérito

Sobre competição pelas matrículas no ensino superior, Correa e Castro destaca que a política de acesso não deve se descolar da realidade socioeconômica brasileira.  “O problema do discurso do mérito é que está diretamente atrelado ao desenvolvimento social do país. Quanto melhores as condições de vida, inclusive de acesso à saúde e à educação, maiores as chances de ser selecionado”, afirma.

Alfabetização não funcional

Em suas manifestações, o ministro Vélez mencionou “uma virada brusca” na linha de ação do MEC, com prioridade para o Alfabetização Acima de Tudo. O programa será conduzido por Carlos Francisco de Paula Nadalim, defensor método fônico – baseado nos sons -em detrimento do construtivista.

“O método fônico foi muito criticado nos anos de 1980. Ele parte do princípio do mais simples: o som, a letra, a sílaba, a palavra, a frase até chegar ao texto. Mas desconsidera as referências da criança”, explica professora de didática da Faculdade de Educação, Luciene Cerdas Vieira.

Para a docente, o foco no “treino” em substituição ao processo de interpretação pode agravar o quadro de analfabetismo funcional do país. “Hoje as abordagens valorizam a compreensão dos textos dentro do uso deles pela sociedade. É claro que há problemas, mas o método fônico não deu certo anteriormente”, acrescenta.

Segundo o Indicador do Alfabetismo Funcional (Inaf) 2018, três em cada dez jovens e adultos de 15 a 64 anos no País – 29% do total, o equivalente a cerca de 38 milhões de pessoas – têm muita dificuldade para entender textos curtos em situações cotidianas.