Encontro da Renec no Colégio Brasileiro de Altos Estudos - Foto: Rosa Maria Mattos

Ana Paula Grabois

anapaula@adufrj.org.br

Exemplo de sucesso da integração entre a universidade e o ensino básico, a Rede Nacional de Educação e Ciência: Novos Talentos da Rede Pública (Renec) completa 34 anos com resultados positivos e desafios no atual contexto de poucos recursos à educação. Criada em 1985 na UFRJ pelo professor Leopoldo de Meis, a rede oferece cursos de ciências para alunos da rede pública do ensino básico dentro de escolas e de diversas universidades espalhadas pelo país. Desde então, passaram pelos cursos cerca de 6 mil alunos e 2 mil professores do ensino básico. O objetivo da rede é melhorar as condições do ensino de ciências no país.

Atualmente, a rede congrega 34 grupos vinculados a 21 instituições de ensino e pesquisa distribuídas em 12 estados. Além de despertar em alunos a curiosidade científica e auxiliar na didática dos professores do ensino básico, o curso mostrou-se um incentivo para que muitos estudantes do ensino básico ingressassem na universidade pública. “A ideia é iniciar nos alunos o desenvolvimento de senso crítico a partir de um tema lançado”, disse um dos coordeadores da rede, Wagner Seixas da Silva, também professor do Instituto de Bioquímica Médica da UFRJ e um ex-aluno de ensino médio da Renec.

A rede busca novos caminhos para o ensino através de metodologias que facilitam o aprendizado, popularizando a Ciência. Diversas atividades são desenvolvidas, mas os cursos experimentais de curta duração e os estágios de alunos da rede pública são a espinha dorsal da rede. No período das férias escolares, alunos e professores do ensino básico público participam de cursos em que elaboram experimentos, sob a monitoria de estudantes de pós-graduação.

Nos cursos, são selecionados alunos e professores para estágio em laboratórios de pesquisa das universidades. Sob a orientação de estudantes de pós-graduação, os selecionados são familiarizados ao trabalho científico e ajudam os tutores no desenvolvimento de pesquisas.

Os universitários acompanham o desempenho escolar dos estagiários, auxiliando os alunos em disciplinas que apresentam dificuldade. Aos pós-graduandos, as atividades permitem o contato com a realidade dos alunos da escola pública. Os professores selecionados ainda desenvolvem trabalhos de pesquisa. Ao fim do estágio, escrevem artigos científicos para publicação em revistas de educação e ciência.

Outras atividades são desenvolvidas pela rede, como produção de material didático, peças de teatro, clube de ciências, olimpíadas científicas e projetos itinerantes. “Cerca de 90% dos alunos que participam dos nossos projetos ingressam e se formam em universidades públicas”, disse.

A professora Leila Maria Beltramini, do Instituto de Física da USP em São Carlos (SP), coordena um projeto da Renec desde 2008, mas tem colaborado desde 2001 para a rede. Seu projeto é o Espaço Interativo de Ciências, com cursos de atualização de conteúdo para professores de ciências do ensino básico e de experimentos científicos para os alunos de escolas públicas de São Carlos. Cerca de 400 alunos já participaram da iniciativa. “A rede mostra a importância da aproximação entre o ensino superior e o ensino básico, desperta vocações, melhora o ensino e os índices de escolaridade da cidade”, afirmou a professora, que participou do XVIII Encontro Anual da Renec nos dias 27 e 28 de maio, no Rio.

A Renec já contou com apoio do Banco do Brasil, Fundação Vitae, Finep e Capes. No entanto, diante da atual crise econômica e da redução de verbas, está sem financiamento. Até 2017, contava com recursos da Finep e da Capes distribuídos a todos os integrantes. Agora, cada instituição tem buscado suporte financeiro individualmente. “A crise acabou com todos os editais públicos”, afirmou o coordenador.

Recentemente, a Renec tornou-se uma associação com CNPJ para buscar recursos em fundações privadas. O esforço trouxe uma nova dificuldade – o pagamento de um contador. A saída foi a cobrança de anuidade em troca de isenção da taxa de inscrição nos encontros anuais.

Quem foi Leopoldo de Meis

Cientista da área de bioquímica, médico e educador, Leopoldo De Meis foi professor emérito da UFRJ e um dos fundadores do Instituto de Bioquímica Médica da universidade que hoje leva seu nome. Foi professor de boa parte do atual quadro docente da UFRJ em sua área. Reconhecido e valorizado por seus trabalhos e pesquisas, De Meis resolve em 1985 dedicar seu tempo a divulgar Ciência nas escolas do ensino básico.

“O professor Leopoldo achava que era responsabilidade da academia divulgar a ciência nas escolas e começa a fazer atividades em escolas públicas nas férias. Na UFRJ, também havia cursos experimentais em outros meses do ano”, disse Wagner Seixas da Silva, ele mesmo um ex-aluno do professor durante o ensino médio e que seguiu carreira na área de bioquímica e divulgação científica.

De Meis nasceu em Suez, no Egito, e passou a infância em Nápoles, na Itália, para onde a família foi quando começou a Segunda Guerra Mundial. Em 1947, muda-se com a família para o Brasil. Formou-se na Faculdade de Medicina da UFRJ em 1961 e começou a trabalhar no Instituto Oswaldo Cruz ainda durante o curso. Após uma temporada nos Estados Unidos, no National Institute of Health, retorna ao Instituto Oswaldo Cruz em 1964, transferindo-se dois anos depois para o Instituto de Biofísica da UFRJ.

Por conta da perseguição política durante a ditadura militar, muda-se para Heidelberg, na Alemanha, onde foi professor visitante do Instituto Max Planck. Em 1978, torna-se professor Titular do então Departamento de Bioquímica Médica da UFRJ, que posteriormente daria origem ao Instituto de Bioquímica Médica Leopoldo de Meis. Morreu em 2014, aos 76 anos.Foi membro titular da Academia Brasileira de Ciências. Autor de 13 livros, publicou 205 trabalhos científicos em revistas internacionais e nacionais e orientou 34 dissertações de Mestrado e 37 teses de Doutorado. Recebeu diversos prêmios no Brasil e no exterior