Pacote anticrime: integrantes da rede seguram faixa contra o PL 882/19, de Sérgio Moro. Denunciam a ineficácia do pacote para a redução do alto índice de homicídios no Brasil - Foto: Fernando Souza

Elisa Monteiro

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Estamos aqui pela percepção de que este é um campo que precisa se articular mais, principalmente neste momento em que vemos a lógica do tiroteio em confronto se agravando”. A declaração foi da professora Sílvia Ramos, da Universidade Cândido Mendes, durante o lançamento da Rede Fluminense de Pesquisas sobre Violência, Segurança Pública e Direitos Humanos, no dia 1º de julho, no salão nobre do IFCS. A proposta, segundo a docente, é de uma “rede horizontal” em que “um saiba o que o outro está pesquisando”.
O evento ficou lotado com representantes de universidades e instituições não universitárias ligadas ao tema. Havia ONGs, movimentos sociais e integrantes do Ministério Público. Coordenador do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase) e liderança do Morro Santa Marta, Itamar Silva frisou que a tensão entre movimentos sociais e academia é histórica. Segundo ele, existem pesquisas muito interessantes. O problema é que os estudos não chegam imediatamente aos espaços de formulação das política públicas. Itamar elogiou a iniciativa da rede. “O fundamental é que o trabalho tenha incidência sobre a ação do Estado e nos territórios onde os enfrentamentos acontecem”.
Pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia do IFCS, Michel Misse destacou que a rede pretende acelerar a cooperação entre diferentes núcleos e centros de pesquisas fluminenses que trabalham na área de segurança pública. “E, principalmente, dar respostas adequadas às medidas que vêm sendo anunciadas no plano estadual e federal que nos parecem completamente equivocadas e perigosas”, completou.
Durante o encontro, especialistas reforçaram a ideia de política de segurança integrada à oferta de serviços públicos e cidadania. Além da necessidade de formação qualificada dos agentes de segurança. “O que gera segurança é rotina bem feita de policiamento”, disse Jacqueline Muniz, do Departamento de Segurança Pública do Instituto de Estudos Comparados de Administração de Conflitos da Universidade Federal Fluminense. Outros, como o sociólogo Luiz Eduardo Soares, chamaram atenção para as péssimas condições de trabalho e organização dos profissionais de segurança.
A carta de lançamento da Rede faz referência ao Atlas da Violência de 2019. De acordo com o documento, com base nos dados de 2017, houve 65.602 vítimas de violência letal intencional no Brasil, das quais 75,5% eram negros. “As políticas de segurança no Brasil, e particularmente no Rio, são racistas. Elas geram mais violência, inclusive letalidade”, destacou a pesquisadora Sílvia Ramos. “Claro que temas como milícia, crime organizado, encarceramento de adolescentes, operação policial; tudo isso é objeto dessa rede, mas a gente nunca vai perder de vista quem são as vítimas prioritárias: os jovens negros”. Ao final do encontro, integrantes da rede estenderam faixa contra o pacote anticrime do governo. Consideram a proposta ineficaz para redução do alto índice de homicídios no país.
Diretora da Adufrj, Maria Paula Araujo compareceu ao evento. “Aqui está se constituindo um fórum muito importante em função da crise humanitária que a gente está vivendo no Rio de Janeiro”, afirmou. “É importante pela reafirmação dos direitos humanos, do direito à preservação da integridade dos corpos das pessoas, principalmente das camadas mais pobres da população”, completou.