Fascinação por si mesmo: Narciso é o símbolo da vaidade extrema (pintura de Caravaggio)

Fernanda da Escóssia

fernanda@adufrj.org.br

(Última atualização em: 04/05/2018)

Um lugar de vaidades contínuas e humilhações cotidianas, onde a sensação de poder ilimitado de uns contribui para o sofrimento intenso de outros. Que lugar é esse? Acertou quem respondeu universidade.

A análise é feita pela antropóloga Rosana Pinheiro Machado, uma estudiosa do ethos universitário, o modo como a instituição se constrói. Professora da Universidade de Oxford e professora visitante da UFSM (Universidade Federal de Santa Maria), Rosana palestrou na Faculdade de Letras da UFRJ.

Ao longo dos últimos anos, ela observou o ambiente universitário no Brasil e no exterior. Sua palestra expõe depoimentos que soam como velhos conhecidos a quem batalha por um título acadêmico. “O professor falou que citar Foucault não era pra qualquer um não.” “Disseram que minha escrita acadêmica não é legítima.” Sem jamais esquecer os donos de Bourdieu, que se acham os únicos a entender o sociólogo francês.

Para citar, quem diria, Bourdieu, o campo acadêmico escrutinado pela pesquisadora é marcado pela opressão de professores sobre alunos. “O ethos da universidade esmaga os estudantes”, diz Rosana. Ao mesmo tempo, formam-se redes de patronagem acadêmica, que incluem desde favorecimento dos pupilos até citações cruzadas em trabalhos científicos, num nepotismo acadêmico em que amigos citam amigos. Segundo Rosana, figuras comuns nesse mundo são os “fracos” – que não aguentam a pressão –  e os “fodas” –  que publicam, orientam e podem tudo.

Para quem não se liga aos patronos nem é “foda”, mesmo sem ser fraco, a pós se torna difícil. Surgem depressão, sofrimento mental e suicídios tentados ou consumados. Estudo da Nature Biotechnology citado por Rosana aponta que 39% dos universitários têm depressão. “Fatores sincrônicos e diacrônicos fazem com que o mundo acadêmico seja uma bomba para estourar. É um lugar em ruínas”, afirma Rosana, que este ano lança o livro “Pequena História da Opressão Acadêmica”.

Para tranquilizar quem leu até aqui, há, sim, orientadores generosos e orientandos disciplinados que escrevem uma página por dia. Afinal, até Max Weber procrastinava a entrega de textos e tomava ópio contra o bloqueio na hora de escrever.

 

ENTREVISTA

ROSANA PINHEIRO MACHADO
Antropóloga, professora da UFSM

Por que a universidade, um lugar de conhecimento, se transformou nesse lugar de opressão apontado em suas pesquisas?
Temos um sistema produtivo que se transformou e demanda mais produção acadêmica em tempo mais curto. Temos uma universidade, especialmente no Brasil, que incorporou novos grupos sem desenvolver capacidade de ampará-los. Ao mesmo tempo, mantém um ethos que não se modifica.

Qual o papel do professor diante do sofrimento de alunos?
De modo geral, o professor tem que tirar essa coisa de proteger, de modo privilegiado, seus alunos, seus pupilos, tornar isso uma questão metodológica, de didática. É papel dos professores ensinar a escrever bem, ensinar técnicas, ensinar a fazer um debate, quais os caminhos de emprego – coisas que os alunos têm que descobrir sozinhos. A outra coisa é o papel do orientador. Os orientadores, muitas vezes, não estão preocupados com orientandos, estão preocupados com seu currículo.

Qual tem sido a reação da universidade?
Entre estudantes, a reação é muito boa. Reações positivas, extremas, de chorar. Uma reação muito boa, profunda. Por outro lado, na universidade, dizem que, se quero emprego, fazer concurso, não deveria fazer esse debate.

 

ADICIONAR COMENTÁRIO

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

(*)

(*)