Foto: Fernando Souza

Redação Adufrj

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Cerca de 1.200 pessoas participaram da cerimônia de transmissão de cargos da reitoria da UFRJ, na manhã da segunda-feira, 8, no  auditório do Centro de Tecnologia, no Fundão. A professora Denise Pires de Carvalho, primeira mulher em 100 anos a ocupar o posto máximo da maior universidade federal do país, recebeu a pelerine branca – símbolo da magnificência – das mãos do professor Roberto Leher, reitor entre 2015 e 2019. A professora Denise Nascimento passou o cargo para o novo vice-reitor, professor Carlos Frederico Leão Rocha. “Cheguei até aqui porque participei de um amplo movimento pela universidade, pública, gratuita, de qualidade e inclusiva”, lembrou o vice-reitor.

Com o auditório lotado de professores, estudantes, técnicos, políticos e autoridades acadêmicas, a cerimônia mostrou a UFRJ unida. O presidente da SBPC, professor Ildeu Moreira, arrancou aplausos ao lembrar que o momento do país é dificílimo e que “as universidades têm um papel importante de resistência contra correntes com  visões estreitas de educação”.

O professor Roberto Leher fez um balanço de sua gestão, agradeceu à equipe, criticou a reforma da Previdência e celebrou a autonomia universitária. “Sob qualquer parâmetro, a UFRJ é uma instituição de referência. Temos muito orgulho de nos pensarmos como uma instituição de ciência, de tecnologia, mas também por sermos uma instituição cultural”, afirmou.

Última a discursar, a nova reitora Denise Pires de Carvalho, formada em Medicina na UFRJ, agradeceu aos familiares, contou que foi a primeira de sua família a se formar em uma universidade e prometeu uma UFRJ diferente nos próximos quatro anos. “É inaceitável a ideia de que devemos recuar por razões econômicas”, disse. “Uma nação soberana depende de instituições fortalecidas e autônomas, o que é impossível sem o apoio do governo federal. Funciona assim em todos os países do mundo”, explicou a nova reitora. “Os desafios mostram-se imensos, mas imensos também são a minha coragem e o meu otimismo. O maior desafio será manter o caráter público e inclusivo da primeira universidade brasileira, com a excelência que almejamos e o povo brasileiro merece”.

Discurso da presidente da Adufrj na cerimônia de posse da nova reitora

“Nesses dois anos em que estive à frente da AdUFRJ, nosso sindicato, vivi com orgulho e prazer duas situações privilegiadas. A primeira foi quando, ao assumir a presidência da  associação, troquei de chapéu com o professor Roberto Leher. Durante anos, ele foi, reconhecidamente, uma liderança sindical e eu desempenhei em algumas ocasiões funções de autoridade administrativa, como diretora, como decana. E então eis que havíamos trocado. Eu me tornaria sindicalista e ele cumpria – e cumpriu -, com coragem e responsabilidade, o papel de dirigente máximo da universidade.

A segunda situação privilegiada estou vivendo hoje, ao saudar, em nome da Associação de Docentes, a primeira reitora da UFRJ. O fato é, em si, substantiva e simbolicamente, de extrema importância. Pela gramatical flexão de gênero, por óbvio, e por tudo que isso representa para todas (e todos) nós, em termos de legitimação da diversidade. Também pelos indícios que expressa, de respeito à autonomia universitária. E, ainda, pela conotação implícita de que a instituição universidade  bem como sua razão de existir – o conhecimento – importam.

Mas, se o fato é relevante em si, quando inserido no contexto político atual, clama por especial atenção. Pois que, adepto de atitudes erráticas e, em certos casos, imprevistas e até contraditórias, o governo federal não transmite segurança nas decisões que toma. Nem todos os reitores escolhidos pelas respectivas comunidades acadêmicas foram empossados. Ademais, tem o mau hábito de inverter ditos populares. Primeiro assopra, depois morde, por exemplo.

Especial atenção, no contexto atual, pois, afirmações identitárias não se encontram em curva ascendente de aceitação nas pautas decisórias. Autonomias também não são bem vistas, em particular pelo Presidente da República, que, se já não aprecia a autonomia de agências reguladoras, o que dirá da autonomia das universidades públicas. E o conhecimento, venha ele através das ciências, das artes ou das letras. O conhecimento – ou a preocupação seja com o desenvolvimento nacional seja com a inclusão social pela via do conhecimento – não frequenta sequer a agenda do Ministério da Educação.

Sem dúvida, o caminho que Denise, Fred e seus colaboradores vão trilhar será árduo e atribulado. A escassez de recursos não será compensada por chocolates. Profissionais formados em Veterinária não substituirão professores de Filosofia. Os detratores de sempre e os que agora saíram do armário não vão silenciar. A surucucu, a serpente genuinamente brasileira está à procura de um buraco quente para colocar seu ovo.

Tempos bicudos no horizonte. O projeto de destruição a que o presidente Bolsonaro se referiu logo no início de seu governo, não passa apenas pela Previdência Social. Passa também, e com força, pela universidade pública.

No entanto, o fato relevante se impõe. Se há prenúncio de tempestade, a capitã Denise, a Reitora, está aí, para ser a nossa Carola Rackete. Audácia não lhe falta. E a prudência, que também a cerca, sussurrará em seu ouvido, se necessário, o conselho de Paulinho da Viola. “Faça como um velho marinheiro, que durante o nevoeiro, leva o barco devagar”. Boa sorte, Magnífica Reitora Denise.”