Fernanda da Escóssia

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Fernanda da Escóssia e Larissa Caetano

Entre baixos salários e uma rotina desafiadora de trabalho, quem ainda quer ser professor? No Brasil, só 2,4% dos adolescentes de 15 anos consideram a docência como carreira a ser seguida. Há dez anos, eram 7,5%. Os dados são de um relatório da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) divulgado em junho. O estudo usa dados do PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes) e mostra que o desinteresse pela profissão não é exclusivo do Brasil: em 60 países investigados, a proporção de adolescentes de 15 anos que desejam ser professores caiu de 5,5% em 2006 para 4,2% em 2015.
Outro estudo, este do movimento Todos Pela Educação com 2.160 professores brasileiros da educação básica, indica que a profissão não é vista como atraente nem por quem a exerce: 49% dos docentes entrevistados não indicariam a carreira para um jovem. Entre os motivos desse desencanto estão os baixos salários e a falta de reconhecimento. Professores do ensino médio são os que menos recomendam a carreira. Os que mais indicam são os das etapas iniciais.
Coordenadora responsável pela formação pedagógica das 27 licenciaturas da UFRJ, Maria Margarida Gomes diz que a docência é ao mesmo tempo marcada pelo idealismo e pelo sentimento de pouco reconhecimento. “É uma carreira procurada por pessoas com engajamento social, que buscam espaço para atuar e educar”, afirma. Outro atrativo é a perspectiva de emprego – ainda que os salários sejam baixos, numa representação
do pouco reconhecimento social, na avaliação de Margarida. “A escola privada não estimula o professor a se qualificar, fazer mestrado, doutorado. Acham que tem que parar no tempo”, avalia.
A coordenadora, porém, disse que na UFRJ as licenciaturas têm tido alta procura. Cursos de Letras, Educação Física e Ciências Biológicas são muito
disputados. Margarida lembra ainda que as licenciaturas por vezes atraem estudantes de classe média baixa, e muitos deles são os primeiros de suas famílias a obter um diploma universitário.
Professora da Faculdade de Educação, Gabriela Honorato diz que os resultados das pesquisas não surpreendem, pois no Brasil a docência é historicamente desprestigiada e associada a baixos salários. “Por isso, muitas licenciaturas são um caminho para jovens de famílias mais
pobres”, afirma.
Aluno de História na UFRJ, Victor Brandão de Oliveira diz que a faculdade lhe apontou extremos: “Não vou dizer que sempre sonhei ser professor, mas enxergo um poder transformador. Vamos da desmotivação à esperança”.
Aluna de Ciências Sociais, Gabriela Ciriaco não conseguiu vaga no ensino regular e fez curso normal – e os professores diziam que não valia a pena.
No estágio, se apaixonou pelo trabalho. “Amo o que faço. A troca é maravilhosa”. Ao mesmo tempo, diz que não há visibilidade da importância do professor.

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