Foto: Divulgação/Parque Tecnológico

Kelvin Melo

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O ministro da Educação, Abraham Weintraub, de 47 anos, nem tinha nascido quando a Coppe fez seu primeiro contrato institucional com uma empresa. Foi um projeto executado para Furnas Centrais Elétricas e coordenado pelo professor Rui Vieira da Silva, do Programa de Engenharia Civil, em 1970. De lá para cá, as universidades ampliaram e diversificaram suas relações com o mercado. Mas o titular do MEC, para indignação da comunidade acadêmica, ignora os fatos e tem cobrado que as instituições de ensino superior devem buscar recursos na iniciativa privada.

Weintraub nem precisava dar essas declarações. Os benefícios das parcerias com o mercado são conhecidos da Academia: “Ganham nossos alunos ao participar de um projeto aplicado, ao aliar, de fato, os conhecimentos adquiridos nos programas acadêmicos da UFRJ com necessidades do mundo real. Ganham as empresas ao se tornarem capazes de resolver problemas e desafios complexos, e, assim, serem competitivas”, destaca o diretor de Tecnologia e Inovação da Coppe, professor Fernando Rochinha. “Ganha a UFRJ ao encontrar meios de financiar pesquisas e manter sua infraestrutura. Tudo isso de maneira articulada”, completa.

“O ministro mostra total desconhecimento do sistema de Ciência e Tecnologia brasileiro”, critica Fernando Peregrino, presidente do Confies, um conselho que reúne 96 fundações de apoio a universidades e institutos de pesquisa de todo o país. “As 96 fundações mobilizam mais de R$ 5 bilhões em 22 mil projetos por ano”, esclarece.

Para ele, ao cobrar parcerias das universidades com o mercado e ao corroborar os contingenciamentos do governo nas universidades, o ministro também desconhece os efeitos do sistema para resolver problemas econômicos e sociais do país. Um exemplo é a conquista da autossuficiência na produção de petróleo: “A exploração em águas profundas é fruto de esforço da UFRJ e de várias outras universidades. O efeito econômico de o Brasil não precisar importar petróleo já seria suficiente para justificar todos os investimentos feitos no setor de Ciência e Tecnologia”, diz.

Peregrino é diretor-executivo da Coppetec, a fundação criada pela Coppe, mas que hoje dá apoio a 41 de 52 unidades acadêmicas da UFRJ: “Se você computar todos os ativos que a Coppetec trouxe para a universidade, entre equipamentos, instalações… Só de 2004 pra cá, são R$ 3 bilhões a R$ 4 bilhões”, afirma. E o dirigente destaca que as verbas são destinadas ao financiamento das atividades-fim da instituição.

Mas os cortes do governo ocorrem justamente sobre as chamadas verbas discricionárias: de manutenção e investimento. Ou seja: sem luz, água, limpeza e vigilância, por exemplo, toda a relação com empresas que o ministro deseja para as universidades vai deixar de acontecer. E a UFRJ foi a universidade mais contingenciada pelo MEC, em valores absolutos, de acordo com levantamento da associação nacional de reitores das federais (Andifes). A instituição perdeu R$ 114 milhões.

“A campanha contra a universidade pública brasileira, responsável por 95% da produção científica do país, é totalmente equivocada. Assim como outras sociedades não souberam preservar suas conquistas e seguir inovando, tenho receio que os sucessivos cortes nos orçamentos da Educação e da Ciência e Tecnologia no país nos levem a um colapso, e que depois seja tarde demais para que algo possa ser feito para revertê-lo”, diz trecho de artigo do diretor da Coppe, professor Edson Watanabe, divulgado há poucos dias no site da unidade.

No mesmo texto, Watanabe cita recente visita à UFRJ do presidente da Capes, Anderson Correia. No encontro, segundo o professor, Correia mostrou que, na área de Engenharia, a Coppe apresenta um patamar de cooperação com a indústria semelhante ao do Massachussets Institute of Technology (MIT) e superior ao da California Institute of Technology (Caltech) nos artigos científicos indexados. “Se a gente está competindo com MIT, não dá pra dizer que a gente é torre de marfim”, diz Watanabe, em referência a uma das expressões utilizadas pelo ministro para criticar as universidades.

Fernando Peregrino ainda aponta um problema na relação com as empresas que é de responsabilidade do governo: a desindustrialização do país. “O motor da inovação, que é a indústria, está paralisado”, retruca. As políticas macroeconômicas do país, há mais de 20 anos, de acordo com ele, são mais voltadas para importar tecnologias e dar frutos para o setor financeiro. “A indústria tem cada vez menos participação na formação do PIB (Produto Interno Bruto)”, explica.

A dificuldade de atrair empresas é confirmada pela Superintendente Técnico-Científica e Cultural da Fundação Universitária José Bonifácio (FUJB), professora Helena Ibiapina. “Os empresários brasileiros não têm tradição de investir em pesquisas ou em atividades desenvolvidas nas universidades federais”. De acordo com ela, desde 2004, a FUJB desenvolve um projeto de captação de recursos chamado “Carta ao empresário”. O objetivo do programa é entrar em contato com uma empresa que desenvolve atividades em área de conhecimento coincidente com um ou mais laboratórios da UFRJ e apresentar a potencialidade de uma parceria. “Ao longo deste período, contatamos 19 empresas. Somente obtivemos sucesso com uma empresa de ônibus que patrocinou a ida de um grupo de alunos do NCE para Salvador, ainda em 2004”, lamenta Ibiapina.

Apesar dos obstáculos, a FUJB também alcança números significativos ao intermediar a relação entre a universidade e o mercado. Em 2018, 35 empresas investiram R$ 11 milhões na instituição. Contando recursos públicos e privados, a fundação movimentou mais de R$ 60 milhões no ano passado. A Coppetec mantém atualmente 74 parcerias, sendo mais de 60 com empresas privadas ou de capital misto. No ano passado, foram captados R$ 391 milhões. deste total, aproximadamente R$ 220 milhões foram investidos pelo setor de petróleo e gás. Por questões de confidencialidade de contrato, as fundações não podem revelar os dados por empresa.

PARQUE TECNOLÓGICO E INCUBADORA SÃO OUTRAS FORMAS DE RELAÇÃO COM O MERCADO

Na UFRJ, outra forma de o mercado interagir com a universidade é através do Parque Tecnológico. Hoje, o local abriga 15 grandes empresas, 10 pequenas e médias e 32 startups (empresas jovens e inovadoras). Das 15 grandes companhias, duas delas – a GE e a L´Oréal – estão localizadas na Ilha de Bom Jesus, na Ilha da Cidade Universitária. De 2010 até 2018, as empresas instaladas no local aplicaram R$ 229 milhões na instituição. Até o fechamento desta edição, a assessoria disse que não teria condições de isolar o investimento feito apenas no ano passado. A gerente de Articulações Corporativas do parque, Lucimar Dantas, esclarece que as mediações com as pesquisas também são feitas via Coppetec.

“A missão do Parque é a conexão entre universidade e empresas e não fazemos uma conexão qualquer. Nós visamos à inovação”, afirma Lucimar. “As empresas vêm para cá pois acreditam que a UFRJ tem ativos muito valiosos para torná-las mais competitivas”, completa.

No parque, está instalada também a Incubadora de Empresas da Coppe, que atualmente abriga 29 startups. Desde 1994, a iniciativa já apoiou a geração de 101 empresas. A gerente do parque explica que estas firmas surgem dos grupos de pesquisa da própria universidade. São formadas por alunos que participaram de um projeto para resolver um problema do mercado. “Num determinado momento, a universidade apresenta um relatório ou um protótipo. Mas a indústria, muitas vezes, não quer implantar aquela solução”, afirma Lucimar. Por exemplo, a Coppe entrega um protótipo de robô para a Petrobras, mas a petrolífera não vai construir robôs para suas plataformas. Existe a necessidade de um fornecedor. “A startup ajuda a fazer a transferência dessa tecnologia (para o fornecedor). O papel da incubadora é fazer esses cientistas se tornarem empreendedores”, destaca Lucimar.

Ainda ao cobrar que as universidades deveriam obter recursos no mercado, o ministro afirmou que as instituições deveriam ser transformadas em incubadoras de empresas. “Várias universidades brasileiras construíram incubadoras há décadas. O sistema de inovação envolvendo startups criadas com o apoio das incubadoras vem se densificando e sofisticando. Nosso Parque Tecnológico é um ótimo exemplo”, observa Fernando Rochinha.

O professor faz uma ressalva: “No entanto, o retorno financeiro ou monetário para universidade é sempre pequeno. Aliás, esse não é objetivo. O importante é que as universidades possam contribuir de maneira proativa na construção de uma economia moderna e inovadora, a partir da criação de novas empresas, frequentemente de base tecnológica”.

O diretor de Inovação da Coppe relata que também é baixo o retorno financeiro mesmo quando uma startup passa a comercializar um produto (ou serviço) no qual é coproprietária com a universidade. “Cumpre salientar que todos os recursos advindos com a criação das startups são muito bem-vindos, porém, isso é menos frequente do que o desejado”. Ele acrescenta: “Espera-se que essas empresas tenham grande sucesso, mas isso tipicamente acontece alguns anos depois de terem saído dos ambientes de incubação”.

Os especialistas consultados pela reportagem não conhecem um ranking que compare as universidades de todo o mundo nesta relação com o mercado. Mas, para o diretor de Inovação da Coppe, professor Fernando Rochinha, se um levantamento levar em conta recursos obtidos com projetos em parceria, envolvimento de alunos, melhorias na infraestrutura de pesquisa e desafios científicos e tecnológicos, “tenho certeza absoluta que estaríamos (UFRJ) muito bem localizados em um panorama internacional”.