Redação Adufrj

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Eduardo Viveiros de Castro, professor emérito do Museu Nacional da UFRJ

Em um passado não muito distante, o Brasil foi louvado como “o país do futuro” por um escritor judeu que aqui chegou fugindo do nazismo. Eis que agora, em um futuro muito próximo, o Brasil pode voltar a ser um país do passado. De um passado que nunca passou completamente. Um passado que parece não conseguir acabar de passar. Um passado de escravidão, de racismo, de violência genocida, em que os povos brasileiros eram subjugados por uma elite espantosamente cínica, insaciavelmente gananciosa, absolutamente implacável em sua sede de dominação e de lucro. Um passado cada vez mais presente, cada vez mais iminente, que nos levará para os tempos sombrios anteriores às décadas em que estivemos formalmente livres da ditadura.
As conquistas obtidas nessas últimas décadas, no sentido da extensão dos direitos fundamentais, da justiça social, da redistribuição de renda, a consagração de um país mais justo com a promulgação da Constituição Federal de 1988, tudo isso se vê hoje ameaçado de anulação, em um retrocesso histórico que poucos países do mundo já experimentaram. Nossa pobre democracia cada vez mais se mostra uma democracia consentida por uma casta militar que se julga tutora da nação — essa nossa democracia está em perigo de vida. Nunca acertamos as contas com a escravidão, o etnocídio, a exploração desenfreada do povo, a tutela militar, o autoritarismo profundo, que sempre marcaram nossa história. Agora estamos vendo o quanto isso nos pode custar.
É preciso resistir. É preciso repelir o ódio representado por um candidato à presidência que alia uma total incompetência para governar a um discurso moralmente repugnante; que louva a tortura, que não disfarça seu racismo, sua misoginia, sua homofobia, seu desprezo pelos pobres, sua admiração estúpida pela violência. Seu elogio da morte. Não podemos deixar se realizar o impensável que seria a transformação do Brasil em um país fascista. É preciso resistir. Vamos resistir.

 

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