O presidente Jair Bolsonaro dá posse ao novo ministro da Educação, Abraham Weintraub, em cerimônia no Palácio do Planalto. - Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

Ana Paula Grabois

anapaula@adufrj.org.br

Após três meses de imobilismo e muitas trocas de cargos, o Ministério da Educação tem uma nova equipe mais alinhada ao Ministério da Economia, afastada dos militares e sem relação direta com a área. Abraham Weintraub, antes secretário-executivo da Casa Civil, substituiu Ricardo Vélez no comando da pasta. Próximo ao presidente Jair Bolsonaro, seguidor do escritor de extrema direita Olavo de Carvalho, Weintraub tem pouca experiência em gestão pública e em educação. Economista com mestrado em Finanças pela Fundação Getúlio Vargas, é professor licenciado de Ciências Contábeis na Unifesp, onde ingressou em 2014. Com carreira no setor financeiro – trabalhou por 18 anos no Banco Votorantim e depois foi sócio de uma empresa de investimentos -, cuidava da reforma da Previdência na equipe de transição de Bolsonaro.
Weintraub trocou quase todo o secretariado com nomes da Casa Civil e do Ministério da Economia, formado em sua maioria por economistas ou especialistas em finanças. Dos escolhidos, apenas um tem experiência na área educacional, mas ligada a instituições particulares do ensino superior. Ficaram nos cargos os atuais secretários de Alfabetização e de Modalidades Especializadas. Durante sua posse, o ministro ameaçou quem não estiver afinado com as diretrizes do governo. “A gente vai pacificar o MEC. Como funciona a paz? A paz a gente está decretando agora que o MEC tem um rumo, uma direção, e quem não estiver satisfeito com ela, por favor avise, que vai ser tirado.”
Há duas semanas, quando o tenente-brigadeiro Ricardo Machado Vieira foi nomeado para a Secretaria-executiva, presumia-se que a ala militar ganharia força no MEC contra os olavistas. O militar, porém, durou dez dias na função. Antes de sair, concluiu decreto que retirou a orientação de adotar o método fônico de alfabetização, defendido por olavistas.
Na avaliação do professor emérito da Unicamp Dermeval Saviani, a mudança no MEC equivale a “trocar seis por meia dúzia”. “Ele é tão ou mais reacionário que o anterior”, afirmou, ao citar um vídeo no qual o novo ministro aparece ao lado do irmão Arthur e defende que se deve responder com xingamentos quando se falar em comunismo ou em socialismo. Os dois faziam uma palestra sobre como “vencer o marxismo cultural nas universidades” na Cúpula Conservadora das Américas, em dezembro. “Estamos em uma situação de retrocesso, com orientação ultraneoliberal. Já antevemos que a educação vai sofrer privatizações, terceirizações e redução dos recursos públicos”, disse Dermeval.
O Professor Titular da Faculdade de Educação da UFRJ Luiz Antônio Cunha, analisa as mudanças como “uma tentativa de substituir um ministro marcado pela inação por alguém que vai mostrar muita atividade sobre aquilo que ele mais entende, as finanças”. Na sua avaliação, Weintraub tem uma característica financista que deve “convergir com a orientação máxima do ministro da Economia, Paulo Guedes: a desvinculação do orçamento, especialmente da Educação”.

Especialistas em finanças na educação

ANTONIO PAULO VOGEL DE MEDEIROS
Novo secretário-executivo do MEC. Era adjunto de Weintraub na Casa Civil. Atua em finanças públicas há 20 anos e foi secretário de Fernando Haddad na Prefeitura de SP.

JANIO CARLOS ENDO MACEDO
Novo Secretário de Educação Básica. Aposentado do Banco do Brasil, estava na pasta da Economia, onde foi adjunto da Secretaria de Gestão e Desempenho de Pessoal.

ARNALDO BARBOSA DE LIMA JUNIOR
Novo Secretário de Educação Superior, Economista e servidor, era diretor da Funpresp. Atuou nas pastas da Fazenda e do Planejamento nos governos Lula e Dilma.