Elisa Monteiro

elisamonteiro@adufrj.org.br

 

“Desde a redemocratização, não vemos a participação de tantos militares em postos de alto escalão. Já temos um governo cívico-militar”. A crítica à gestão Michel Temer foi apresentada pelo professor e coordenador do Núcleo de Estudos de Políticas Públicas em Direitos Humanos da UFRJ, Cunca Bocayuva, em debate realizado pela Adufrj, no último dia 12. A necessidade de construir uma resistência intelectual diante do avanço do arbítrio marcou a atividade, organizada em parceria com professores do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais e o Instituto de História.

O palestrante também atacou a intervenção na segurança pública do estado do Rio: “Militarização da cidade e prisões cautelares; o Brasil é o paraíso do aprisionamento sem prazo”, criticou “A exceção virou a regra. Estamos diante de uma dominação sem hegemonia”, completou.

Para Cunca Bocayuva, o assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL) no dia 14 de março materializou a disputa política em curso: “Marielle era um sujeito político que atravessava os diferentes conflitos da cidade, dos territórios, da produção e da representação”.

Racismo

O desafio em discutir direitos humanos diante da segregação racial brasileira foi a contribuição da pesquisadora Monique Cruz, da ONG Justiça Global. “Como falar em direitos de fato para negros, pobres e indígenas?”, questionou a pesquisadora. “Os dados mais recentes sobre violência contra as mulheres mostram que o assassinato de negras aumentou 22%, enquanto o de brancas reduziu 7%”, exemplificou.

Monique enfatizou que a violência institucional, expressa em políticas públicas desatentas à discriminação racial, reforça “o abismo entre o direito dos não negros e o não direito da população negra”.

Assassinato virtual

Michel Gherman, pesquisador do Núcleo de Estudos da Política da UFRRJ, falou sobre o papel do discurso de ódio no caso Marielle. “Poucas horas depois do crime, vimos as redes sociais inundadas de falsas referências de vínculos entre a vereadora e traficantes ou crime organizado”, frisou.

Na avaliação do docente, a intenção foi justificar a violência a partir da ideia presente na  sociedade de uma separação “um nós (não criminoso) contra um outro (marginal)”. E enquadrar Marielle como “esse outro, que não somos nós”. Ele defendeu  a luta simbólica como parte da resistência contra a desumanização típica dos regimes fascista: “O silenciamento é o sinal verde para a barbárie”, pontuou.

 

Direitos humanos desde cedo

Lea Tiriba, educadora e ambientalista da UniRio, tratou de uma das bandeiras da vereadora assassinada: a educação infantil. “A defesa das crianças é urgente, e elas estão sem visibilidade mesmo no movimento dos direitos humanos”, alertou. “As creches do Rio de Janeiro estão sendo reduzidas e piorando. São espaços mínimos, cercados e cimentados. No lugar da criatividade e contato com a natureza, o que temos são lugares apenas de controle”, advertiu.

O engajamento de Marielle Franco na causa foi lembrado pelo público. Durante o debate, uma das estudantes resgatou que, poucas semanas antes de seu assassinato, a vereadora esteve na Uerj, discutindo creches universitárias.

A vereadora tinha ainda a proposta do Espaço Coruja, um projeto de espaço infantil noturno para atender mães e pais que estudam ou trabalham à noite e não tem com quem deixar suas crianças pequenas.

Gravação está no perfil da Adufrj

A reunião, que contou com transmissão online, lotou a sala Celso Lemos do prédio do IFCS/IH. A gravação está no site e no perfil da Adufrj no Facebook.  A professora Maria Paula Nascimento Araujo, do Instituto de História e diretora da associação docente, fez a mediação do debate: “O caso de Marielle é emblemático, mas não é isolado”, afirmou. A Adufrj lançou campanha pela apuração rigorosa do crime.

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