Ledo; Ligia; Medronho e Luiz Eurico - Foto: Elisa Monteiro

Elisa Monteiro

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“Nascer e viver é muito desigual. Uma pessoa de Serra Leoa tem uma esperança de vida na casa dos 40 anos. No Japão, 84. Isso não é natural, é social”, disse a professora Ligia Bahia, durante a aula inaugural do Centro de Ciências da Saúde. A diretora da Adufrj foi uma das convidadas para refletir sobre o “O SUS no contexto da Saúde Global e o papel da Universidade”, na quinta-feira (8). A mediação foi do decano, Luiz Eurico Nasciutti.
Cuidar da saúde da população é uma decisão política. Foi o que indicou a docente, chamando atenção para países com PIB menor que o brasileiro, mas com melhores indicadores de saúde e bem estar. Chile, Costa Rica e Cuba foram citados. Ligia insistiu na relevância de políticas econômicas para a saúde pública. Como exemplo bem sucedido, ela falou sobre os resultados obtidos com a maior taxação do tabaco. E defendeu medida similar para comida “trash” como “refrigerantes, biscoitinhos de pacote, alimentos altamente processados”. “Não somos uma população obesa, mas estamos perto disso”.
Ex-vice-reitor, o professor Antonio Ledo deu ênfase aos pactos internacionais em torno da “saúde e bem estar”. “É sempre bom lembrar que o conceito de ‘saúde como ausência de doença’ é restrito. Estamos falando de acordos, na ONU, para erradicação e de prevenção de doenças. Além de equidade”, disse. “Se não reduzir a pobreza, não tem como haver saúde”.
Os impactos de uma globalização desigual para a saúde dos povos também foram abordados pelo diretor da Faculdade de Medicina, Roberto Medronho. “No mundo globalizado, não há mais como falar em doença local. Seja pelo turismo ou pelos deslocamentos a negócios”, advertiu o epidemiologista. “Com o aquecimento global, doenças tropicais como a dengue alcançarão zonas temperadas”, acrescentou.
Medronho advertiu sobre os limites das contribuições do mercado para a saúde coletiva. O exemplo escolhido foi o vírus ebola. “Só houve interesse da indústria de fármacos quando o problema atingiu países ricos”, argumentou o docente. “Doenças negligenciadas” foi como classificou endemias que assolam países periféricos ou desiguais.
Aos alunos, Medronho recomendou “compromisso ético” e atenção com o “retorno social sobretudo para a população mais pobre”. Ele destacou o papel da parceria entre a pesquisa das universidades e o Sistema Único de Saúde. “Foi do SUS de Pernambuco que saiu a descoberta da relação entre a zika e a microcefalia. A comprovação foi de pesquisadores da nossa universidade e da Fiocruz”.