A professora Dora Santa Cruz mostra a foto do irmão Fernando - Foto: João Laet

Ana Paula Grabois

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A professora aposentada da UFRJ Maria Auxiliadora Santa Cruz é irmã de Fernando Santa Cruz, desaparecido político em 1974, no Rio de Janeiro, durante a ditadura militar. Tia de Felipe Santa Cruz, presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Dora, como é conhecida, ouviu com indignação a fala do presidente Jair Bolsonaro sobre o paradeiro do corpo do seu irmão e vê “crueldade” em seu conteúdo. O atestado de óbito de Fernando só foi emitido em 25 de julho, sem que a mãe, Elzita Santa Cruz, estivesse viva. Elzita, conhecida defensora dos Direitos Humanos em torno da questão dos desaparecidos políticos no Brasil, morreu um mês antes, aos 105 anos. A família de Santa Cruz entrou com ações na Organização dos Estados Americanos (OEA) e no STF contra Bolsonaro.

Jornal da Adufrj – Como a senhora avalia a fala do presidente Bolsonaro não só como familiar de um desaparecido político, mas também do seu sobrinho e presidente da OAB?
Um acinte, enfrentando inclusive a Ordem dos Advogados do Brasil, uma instituição respeitada. Ele despertou o que estava calado, voltamos a discutir o assunto do desaparecimento político. E de talvez repensar uma nova Anistia que possa punir os torturadores. Bolsonaro é presidente da República, tem que respeitar os brasileiros. Ele não pode enaltecer a tortura, achar agradável que as pessoas tenham sido torturadas ou tenham desaparecido. Não existe perdão. Vários psiquiatras dizem que ele é psicopata. Isso é uma atitude de psicopata, muito fria, de uma pessoa de extrema direita, que está entregando o Brasil, como a Amazônia; desmoraliza as instituições, como o Inpe, a Fiocruz, o IBGE, as universidades. Temos que ir para a rua, onde a gente se torna forte. As Diretas e a Anistia ocorreram por causa das ruas.

Como a senhora se sentiu?
Fiquei revoltada. Foi muita crueldade. Desde que eu nasci – tenho 74 anos –nunca ouvi um presidente que fale uma coisa dessas, que seja tão agressivo. Nem na ditadura. Eles faziam, mas não assumiam, nem falavam em público assim. Torturavam escondidos. Quando perguntados, diziam que não existia. Mas ele foi para a televisão com um certo orgulho e ameaçador. Depois vai para um salão de beleza, cortando o cabelo, igual a uma foto do Hitler, falando que não foi a ditadura que o matou e sim a organização política de que ele participava. É um deboche. Senti por todos os desaparecidos políticos, por todas as pessoas que perderam seus entes queridos, por todas as mães que ainda estão vivas. Não consigo dormir, estou inquieta, tenho náuseas.

A senhora pode falar da luta da sua mãe pelo paradeiro do seu irmão?

Foto: João Laet

Ela recebeu vários prêmios de Direitos Humanos. Tem uma poesia dela que sempre recitava em qualquer lugar que fosse falar: “Hei de ver, hei de voltar. O meu doce consolo, o meu filhinho. Passam-se os anos, o doce esquecimento que tudo apaga. Menos a mãe, no seu triste isolamento, a saudade que o coração esmaga”. Ela morreu sem saber. Um dia ela me disse que não podia mais entrar em igreja nenhuma porque não perdoava os torturadores. Estávamos no centro do Rio e eu disse para entrarmos na igreja para falar com o padre. O padre disse para nos sentarmos e mamãe disse que ela não perdoava. O padre cortou toda a emoção dela, ela já velhinha. ‘Como não? A senhora pode entrar em qualquer hora na igreja, pode comungar e contar isso quantas vezes quiser a quem quiser. A senhora continue a contar, a senhora não tem o que perdoar. A pessoa que leva uma topada, fica com ódio da pedra. Imagine tirar um filho de você. Como você quer perdoar? Não é para perdoar”. Ela saiu satisfeita e falou comigo: ‘Ainda bem, né?’.

A família Santa Cruz vai entrar com uma ação contra Bolsonaro?
A nossa família já entrou com uma ação contra ele na OEA e também no STF para pedir explicações.

O que espera da denúncia do MPF à Justiça?
Nenhum torturador foi preso no Brasil por causa da Lei da Anistia. Não vai ter nada, principalmente agora. Não teve no governo de Dilma ou Lula.

Como a senhora vê a mudança de integrantes da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos?
Não foi mudança. Acabou a Comissão porque foram nomeadas pessoas comprometidas com a ditadura e a tortura. E foi uma comissão muito importante.

Antes da fala de Bolsonaro, MPF denunciou quem incinerou o corpo de Santa Cruz

Ex-delegado mostra forno aos integrantes da CNV – Foto: Comissão Nacional da Verdade

Em 24 de julho de 2019, cinco dias antes da fala de Jair Bolsonaro contra a família Santa Cruz, o procurador do Ministério Público Federal (MPF) Guilherme Garcia Virgílio ofereceu denúncia contra Cláudio Guerra, ex-chefe do DOPS e um dos operadores da rede de tortura da ditadura. Em 2014, Guerra, hoje pastor, prestou depoimento à Comissão Nacional da Verdade e confessou que, entre 1973 e 1975, levou 12 corpos da chamada Casa da Morte, em Petrópolis, para serem incinerados em um forno da Usina Cambahyba, em Campos dos Goytacazes. Um dos corpos era o de Fernando Santa Cruz. Guerra chegou a mostrar o forno a integrantes da Comissão.
Em sua denúncia, o Ministério Público acusa Guerra de praticar crimes de ocultação e destruição de 12 cadáveres, incluindo o de Santa Cruz.
Segundo o procurador, são crimes de lesa-humanidade, sem a aplicação da Lei da Anistia. O MPF também pede o cancelamento de sua aposentadoria. A denúncia tem como base depoimentos de Guerra à CNV e ao MPF, a análise de mais 20 depoimentos e o livro “Memórias de uma Guerra Suja”, de autoria do ex-delegado.
Trata-se de um dos poucos casos de denúncia de agentes do Estado durante a ditadura sem levar em conta a Lei da Anistia, como a do coronel Brilhante Ustra, morto em 2015. Na quinta-feira, Bolsonaro recebeu a viúva de Ustra. Bolsonaro justificou o encontro por considerar Ustra um “herói nacional”. Recentemente, os integrantes da CNV foram substituídos por militares ou políticos defensores da ditadura.