Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Diretoria da Adufrj

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Dom João VI angariou reputação de tosco. Possivelmente por conta de fake news criadas por sua própria esposa, pois, no frigir dos ovos, driblou o grande francês da época – ninguém menos que Napoleão Bonaparte -, evitou o confronto, e veio fundar um império nos trópicos. Sempre cabe discutir, e a universidade é o lugar precípuo para controvérsias de toda natureza, inclusive sobre o caráter (tosco ou não) dos governantes.

Mas, supondo que a opinião de Carlota Joaquina tenha prevalecido, podemos considerar que Dom João foi o primeiro tosco a governar o Brasil. Um segundo seria Jânio Quadros e o terceiro, o atual. Eis que, assim, temos exemplificada, empiricamente, a afirmação de Marx no 18 Brumário – a história se repete, como tragédia, e depois como farsa.

A tragédia seguiu-se à renúncia de Quadros: 21 anos de ditadura. Nos dias que correm, vivemos a farsa. Farsa que se traduz nas incongruências que diariamente assolam as mídias. O governo apela para um nacionalismo protetor da “nossa” Amazônia e anuncia a disposição de atrair mineradoras americanas para explorar as riquezas escondidas sob as árvores. O governo exalta as vantagens de um Banco Central independente e intervém na Polícia Federal. Exemplos se multiplicam. As declarações estapafúrdias de Bolsonaro (num continuum que vai de excrementos ao presidente francês) começam a afetar o PIB.

Simplificadamente, e sempre lembrando que é desejável que se discuta qualquer hipótese, podemos entender que a eleição do capitão teve dois grandes blocos de apoio, fora a obsessão antipetista. De um lado, o folclore estilo saci-pererê (menos politicamente correto, impossível): o terraplanismo real e simbólico, o marxismo cultural das Nações Unidas e das ONGS, a riqueza escondida dos índios, e por aí vai. De outro, um liberalismo à outrance, privatista ao extremo, destruidor de regulações, radicalmente avesso a direitos: e, no caso, tudo na mais absoluta seriedade. Como se vê, uma composição mais para unicórnio do que para qualquer imagem com pé no mundo real.

Tal composição, que está longe do que em política se conhece como coalizão, pode, contudo, ser estratégica. E não apenas para manter mobilizado o nicho folclórico de apoiadores do presidente (uns 30% do eleitorado), como sugerem vários analistas, e sim, com vistas a neutralizar a oposição e, daí, alcançar os 70% restantes. Trata-se da estratégia da dispersão.

São muitas e diversificadas as pautas que demandam protestos e resistência. O desmatamento da floresta amazônica e suas consequências, a censura explícita ou camuflada a filmes nacionais e outras manifestações culturais, as tentativas de desacreditar instituições que produzem dados sobre a realidade, o desfinanciamento das agências de fomento à pesquisa, à ciência e à tecnologia, o tom acusatório em relação às universidades e à produção do conhecimento, a revogação de direitos nas relações de trabalho, o desrespeito diuturno a grupos étnicos, geográficos ou de gênero (minoritários ou não), e muitas mais.

Alianças em torno de algumas dessas pautas são mais factíveis que outras. Postulados conservadores de teor comportamental podem ser rechaçados por defensores da venda da Petrobrás, assim como o lobby dos bancos pode refutar o tratamento dado pelo governo aos órgãos de pesquisa. Até o agronegócio se perfila contra (o exagero da) política ambiental de Bolsonaro.

A face patética da estratégia anuvia os austeros objetivos do projeto Guedes. A reforma da previdência não é nenhuma farsa. Segundo “especialistas”, sua aprovação deve levar a um aumento de 25% nas adesões a planos privados de aposentadoria. Os cortes no orçamento do MEC já asfixiam várias universidades federais.

É preciso recusar o diversionismo. Estabelecer prioridades e costurar as alianças possíveis em torno de temas. Os aliados nem sempre serão os mesmos, mas se não levarmos essa rotatividade em conta corremos o risco de cair na armadilha da dispersão. A queda se expressa no grito (que não é o dos excluídos). Grito sem verbo. Repercussão baixíssima. A ADUFRJ tem procurado, em conjunto com outras ADs, participar dos movimentos que, em escala alargada, fora da bolha, defendem as universidades e a produção do conhecimento. Resultados, ainda que à espera de amadurecimento, já podem ser vislumbrados. A audiência pública em defesa do CNPq, na Câmara dos Deputados, no dia 28, levou o deputado Rodrigo Maia a assumir o compromisso de assegurar as verbas para bolsas e pesquisas. No momento em que se completa um ano do incêndio do Museu Nacional, a Reitora Denise apresenta um projeto de reconstituição, com recursos, fruto de negociações multidimensionadas. Vamos em frente. Há future-se, mas também há futuro. E participe das eleições da AdUFRJ nos dias 11 e 12 de setembro.