Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Diretoria da Adufrj

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O furacão, que por alguns meses pareceu dirimir-se em águas mais frias, chegou à costa com força redobrada: por 379 votos a favor e 131 contrários, a reforma da previdência foi aprovada no 1º turno com sobras. No momento da escrita desse texto ainda não há definição no 2º turno, mas nada indica que será muito diferente, e rumamos então para uma ingrata batalha no Senado.  Favas contadas?

Talvez não. Mas não é fácil estar otimista nesse momento, pois desgraçadamente estamos sem nosso principal aliado: o povo. Pesquisas de opinião mostram um empate técnico entre pessoas favoráveis e contrárias à reforma, evoluindo de um posicionamento anti-reformista há dois meses. A greve geral do dia 14 de junho foi morna: os servidores até fizeram bonito, mas não conseguimos levar as outras classes para as ruas. A sociedade simplesmente não se comoveu nem com o retardo nem com a diminuição de sua aposentadoria, causando um certo misto de perplexidade e “complexo de avestruz” no movimento sindical estabelecido.

As razões para tal apatia são – evidentemente – substancialmente complexas, mas há alguns elementos que podemos expor brevemente aqui. Em primeiro lugar, nós perdemos a capacidade de falar para o trabalhador preocupado com o dia de amanhã. Entre sonhos de revolução socialista e preleções eruditas sobre a atual conjuntura, perde-se noss@ companheir@ que não sabe nem se volta ao emprego no mês que vem. Além disso, fomos pouco além do “não” à reforma. Ao falar de previdência, deveríamos estar conversando sobre mudanças climáticas, automação robótica, taxas de natalidade em queda livre, etc. No entanto, acabamos ficando refém de um discurso superficial, que confinou o debate a chavões e palavras de ordem, afastando os mais neutros do debate. A nossa dificuldade em propor algo alternativo foi flagrante, e nos encalacrou na nossa “bolha” de vez. Por fim, é necessário salientar que, para além de nossa insuficiência, havia um adversário formidável: a mitologia da necessidade de uma reforma draconiana passou décadas sendo incutida no ideário popular (de todas as classes), preparando o terreno para a propaganda oficial cristalizá-la como verdade quase científica.

A previdência é um tema difícil e delicado. Ela requer que imaginemos a vida daqui a 20, 30, 40 anos, num mundo que daqui a 10 anos pode ser radicalmente diferente. A previdência nos coloca o difícil exercício de imaginar o que queremos para o Brasil, mas fomos pegos numa crise de inspiração. Isso infelizmente abriu espaço para uma reforma imediatista e torta, entregue ao congresso por um presidente que já afirmou que sua prioridade é “destruir”.