Diretoria da Adufrj

secretaria@adufrj.org.br

O presidente da República é uma “persona”, no sentido que Thomas Hobbes empresta ao termo: um ente abstrato que “representa” entes concretos, por vontade dos mesmos, e que, por representá-los enquanto coletividade – civitas – os governará. Pompa e circunstância são inerentes e indispensáveis ao papel. Mas o presidente da República é também uma pessoa de carne e osso, escolhida pelos entes concretos, numa democracia, para exercer o cargo (concreto) em que se materializa aquele papel. No Brasil, hoje, não é mistério praticamente para ninguém que o ocupante do cargo/papel não consegue compreender essa equação binária.

O atual governante da nação tem duas obsessões – sobejamente apontadas nas mídias, inclusive nas tradicionais – que, toleradas na esfera do privado (por conta do respeito à multiplicidade de opiniões), são inconcebíveis quando anunciadas publicamente pela persona. Uma é sua preferência explícita por ditadores, regimes autoritários, tortura e afins. Talvez fosse o caso de alertá-lo de que foi eleito (e não ungido) sob a égide de uma Constituição e que suas diatribes antidemocráticas têm repercussões muito negativas para o país. A outra obsessão é por exemplos extraídos do universo amoroso (privado por definição) – casamento, noivas, idade de mulheres, desempenho sexual e outras pérolas – ou referentes a características naturais dos humanos e animais em geral (desnecessário citar). O uso de tais exemplos frequenta discursos desastrosos sobre meio ambiente, relações internacionais, turismo, articulações com o Legislativo, etc. Igualmente desnecessário apontar as consequências que idiossincrasias privadas como essas trazem quando publicizadas. Bem recente, o exemplo do jogo de xadrez contempla as duas obsessões.

Além de pessoalmente obcecado por ditaduras e, digamos, animalidades, o presidente governa num esquema poliédrico, em que cada um dos vários lados que o cercam apresenta especificidades e diferentes graus de identificação com o mandatário. Assim, há o espaço terrivelmente liberal, onde pontifica um economista que, apesar de Chicago, não é expoente nem na USP nem na PUC-Rio; Bolsonaro foi por ele convencido de que deveria bancar a reforma da previdência, mas nem por isso o presidente cedeu quanto aos privilégios dos militares. Uma relação delicada, portanto. O lado da corrupção, sobretudo quando colado ministerialmente na segurança, revela uma associação mais complicada; Moro e Bolsonaro soltam faíscas quando se tocam.

Outras faces, como a religiosa, comportamental, ambiental, educacional, e por aí vai, também mostram traços próprios, mais ou menos folclóricos, mais ou menos retrógrados, mais ou menos agressivos (colégios militares Brasil afora é medida que “tem que ser imposta”). Traços próprios e diferentes interações entre presidente e ministros. Goiabeiras e personagens de HQs, ao que parece, já saturaram o chefe. Podem agora ser jogados numa cesta junto com bobagens culturais e filmes nacionais, sob gestão única (e masculina, de preferência).

Antes fosse um Leviatã o monstro que resulta dessa mixórdia de objetivos, caminhos e (especialmente) interesses que se autoproclama governo brasileiro. Contudo, há um fio que liga e costura os lados aparentemente dissonantes desse “projeto” governamental. É a rejeição ao saber. Austeros, folclóricos, privatistas, patrioteiros, terraplanistas, madeireiros, tantos e quantos, se unem e pegam em armas quando avistam instituições que existem em virtude do conhecimento em qualquer de seus mais variados tipos. Instituições, como as universidades, que existem para produzir conhecimento através da pesquisa, para ensinar e, pois, transmitir conhecimento, e para integrar a sociedade aos benefícios do conhecimento – o que se realiza, nas universidades, mediante atividades de extensão.

O horror ao conhecimento – à ciência, à cultura, às artes, à história, ao saber popular – talvez seja o elemento mais nitidamente distintivo do governo Bolsonaro. Como se passou a entender no Ocidente, desde o século XVIII, as luzes permitem vislumbrar a civilização, a riqueza da diversidade, os males do arbítrio, a justiça de um desenvolvimento inclusivo e muito mais. Seja por razões de classe, de ideologia, de princípio religioso ou de puro oportunismo, a meta principal da exótica entourage bolsonarista é “isso aí”: apagar as luzes. Como ele se considera rei (o exemplo do xadrez é sintomático), e, soubesse do que se trata, se diria um plantageneta, tudo é possível.
Diante do diagnóstico acima, que muitos analistas têm compartilhado em parte ou no todo, cresce a importância das entidades que organizam a resistência das universidades públicas contra os cortes orçamentários, o esvaziamento de órgãos de fomento à pesquisa, a eliminação de bolsas de estudo. A AdUFRJ é o nosso sindicato, nosso front de luta. Nos próximos dias 11 e 12 de setembro a AdUFRJ renova sua diretoria. O comparecimento dos professores e professoras às urnas é, no momento, a maneira mais eficaz de fortalecê-la. Vote!!!

Diretoria da AdUFRJ

ADICIONAR COMENTÁRIO

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

(*)

(*)