Reunião do Consuni: Conselho Universitário é uma das instâncias de participação política na universidade - Foto: Kelvin Melo

(Última atualização em: 13/04/2018)

Professores da UFRJ dizem o que estão fazendo a respeito da crise política. Da filiação partidária à participação em debates, preocupação comum é exercer papel crítico.

 

Roberto Medronho, professor e diretor da Faculdade de Medicina

“O discurso da corrupção tem sido usado para golpear a democracia. Foi assim em 54, no processo que levou ao suicídio de Getúlio, e em 64, quando houve o golpe. Ninguém é a favor da corrupção – só os corruptos. O problema é usar o combate à corrupção para atingir a hegemonia que tem que ser conquistada pelo voto. A universidade tem de exercer papel crítico. Como cidadão, tenho participado de fóruns de discussões. Considero assustadora a onda de conservadorismo, há um ovo da serpente sendo gestado. “

 

Maria Paula Araújo, professora do Instituto de História e diretora da Adufrj:

“Vários de nós pensávamos ter superado a ditadura militar e consolidado um país com uma certa garantia de liberdades e instituições democráticas. Estamos vendo isso não tão seguro. Temos de fazer o que já fizemos no passado: fazer de cada lugar uma trincheira em defesa de democracia e das liberdade democráticas. Nesse sentido, a universidade é um lugar muito importante, onde pode haver trocas de saberes entre professores, estudantes, intelectuais, militantes. De diversos campos de reflexão que podem pensar caminhos e formas de resistência. O futuro do país está nebuloso. A prisão do ex-presidente deixa o Brasil numa incerteza até mesmo da realização das eleições. Como cidadãos, temos que pensar em resistir e, como professores e pesquisadores da UFRJ, temos que oferecer um espaço de debates e troca dialógica para ajudar no avanço da democracia.”

 

Pedro Lagerblad, professor do Instituto de Bioquímica Médica: “O diálogo com a juventude é fundamental. As manifestações de 2013 mostraram um desconhecimento da política e devem ser agora politizadas. Os sindicatos não são o caminho, pela natureza corporativa que não permite a discussão ideológica. O próprio Lula sabia disso e fundou o PT. Eu me filiei ao PT no impeachment da Dilma, quando começou o processo em curso e outros professores da UFRJ fizeram isso. Subscrevi os abaixo-assinados e coisas do tipo. Mas pretendo, nos próximos dois meses, dar atenção à construção de um núcleo do PT na UFRJ. A universidade é lugar onde passo a vida e é o lugar para exercer a cidadania.”

 

Lina Zingali, professora do Instituto de Bioquímica Médica: “No domingo, eu me filiei ao PT pela internet. Eu já vinha pensando nesta possibilidade há algum tempo. Embora eu não me sinta alinhada com partido algum, fiz isso como um ato de resistência. Acredito que a prisão do Lula foi um marco do processo de eliminação de um projeto de país. Também procuro conversar com os colegas, alunos e técnicos sobre a importância das próximas eleições. E não apenas na campanha para presidente. Não podemos perder de vista que foi este Parlamento que destituiu Dilma Rousseff, que está passando estas reformas que retiram direitos. Tenho medo de que algumas conquistas recentes, como as cotas nas universidades públicas, se percam num futuro próximo. No momento, estou diretora do Instituto de Bioquímica Médica, mas, findo o mandato, vou atuar bastante para eleger candidatos que defendam uma sociedade mais justa. No seu discurso, o Lula disse que se transformou em uma ideia. É isso que a gente deve levar adiante.”

 

Cláudio Ribeiro, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e diretor do Andes: “O Andes divulgou nota no dia 6, denunciando a seletividade da Justiça e mostrando que não podemos encarar este problema fora do contexto dos ataques aos direitos democráticos e sociais, como a execução da Marielle e a intervenção federal no Rio. Convocamos as seções sindicais a participarem dos atos, o Andes estava presente em boa parte deles. No Rio não foi diferente. Não tem como dar aulas sem conversar a respeito do cotidiano, do aprofundamento da crise. Tenho conversado com meus estudantes. A universidade, que vem sofrendo tantos ataques, só vai se fortalecer a partir deste tipo de diálogo entre todas as categorias. Aprofundar a democracia é uma forma de resistência fundamental agora.”

David Kupfer, professor e diretor do Instituto de Economia: “Entendo que vivemos um processo em etapas sucessivas e que não se esgota com a decisão do Supremo. No máximo, traz o desfecho de uma das etapas do processo eleitoral. Tenho a intuição de que isso vai perdurar durante muito tempo. Sobre a nossa combalida economia, esta não convive bem com incertezas, de difícil visão no que esse processo caminha e, no meu ponto de vista, há erros grandes de condução da política econômica brasileira neste momento. Os efeitos cumulativos da crise são muito preocupantes e, evidentemente, alguma iniciativa deveria ser tomada na perspectiva de ampliar o debate econômico durante o período.”

Tatiana Roque, professora do Instituto de Matemática: “Fui às manifestações contra esta prisão, que me preocupa no contexto da fragilidade das instituições. Venho conversando com colegas. Houve politização da Justiça e até as Forças Armadas interferem na política, seja na declaração do general antes do julgamento, seja na intervenção na segurança do Rio. As instituições não estão ocupando seus devidos lugares. Filiei-me ao PSOL. As eleições serão importantes para mobilizar as pessoas a refazer o quadro institucional. Precisamos tirar um presidente ilegítimo e renovar o Congresso.”

 

 

 

Pedro Cunca Bocayuva, professor do NEPP-DH: “Acho que há dois tipos de movimento: um de responsabilidade pública, institucional, e um de responsabilidade militante. Abrir um debate legítimo do ponto de vista dos direitos humanos e da criminologia crítica, de uma análise da conjuntura e das tendências em curso, tenho feito desde os governos Dilma e Lula. A universidade tem de fazer o contradiscurso, com espaço para professores defenderem suas posições. A não perda dos direitos políticos da presidenta expressou a brutal gravidade do quadro que se iniciou. Hoje a gente vê que todos aqueles que conduziram o processo têm situação jurídica pior. Nesse momento, o que eu tenho feito na universidade é ampliar o espaço público de debate, levo as questões e o contraditório aqui dentro é garantido. E tenho procurado pessoas que têm formulação adequada e analítica sobre a conjuntura. Fora da universidade, acompanho as causas democráticas e cidadãs que sempre acompanhei.”

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