Redação Adufrj

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Ana Beatriz Magno e Kelvin Melo

Foi um congresso diferente. O maior encontro dos 38 anos de história do Andes reuniu 599 docentes de 79 seções sindicais no simpático campus da Universidade Federal do Pará, de 28 de janeiro a 2 de fevereiro. Foram seis dias de debates com inusitado clima de unidade entre a diretoria do sindicato e a oposição sobre os grandes temas políticos, mas divergências quanto ao método dos debates.

Historicamente, o grande desacordo entre os dois grupos é a avaliação dos governos liderados pelo Partido dos Trabalhadores. Críticos severos do que chamam de 14 anos de política petista de conciliação de classes, os diretores do Andes fizeram declarado esforço de negociação com o Renova, grupo liderado por setores do PT e que chegou ao congresso com 56 delegados, todos defensores entusiasmados da campanha Lula Livre.

A prisão de Lula e a eleição de Bolsonaro foram a chave da união entre os dois lados. Diretoria e oposição aprovaram por unanimidade que o objetivo do movimento docente em 2019 é combater a reforma da Previdência, as privatizações e revogar a emenda constitucional 95. Também foi definida a participação do Andes em comitês que tenham “Lula Livre” como bandeira, tema que contrariou os grupos mais à esquerda, como os liderados pelo PSTU.

“A conjuntura é muito grave, não podemos nos dividir. Não vamos abrir mão das caracterizações dos governos de conciliação de classe, mas a consigna Lula Livre não pode ser um impedimento”, ponderou o presidente do Andes, Antonio Gonçalves. “Não é o governo Lula que está sendo avaliado. A democracia está em jogo”, emendou Eudes Baima, da Universidade Estadual do Ceará e coordenador do Renova. “O Andes tem que sair da bolha e ir para a realidade. É a nossa liberdade que está ameaçada”.

Parte da delegação da UFRJ no encontro

A Adufrj levou delegação de 24 professores. Todos participaram ativamente. O Congresso foi cansativo, com longos debates sobre a redação dos documentos e pouco aprofundamento sobre estratégias de enfrentamento ao governo. A última plenária terminou às 4h40 da madrugada de domingo, 13 horas após o que estabelecia o cronograma inicial.

A situação recorrente inspirou a criação de uma comissão para rever a metodologia dos Congressos. “O método é muito cansativo e improdutivo. Fazemos grandes discussões sobre firulas e não priorizamos a temática docente”, resumiu a professora Ligia Bahia, diretora da Adufrj. “Precisamos renovar o Andes”.

NOTAS DO CONGRESSO

Unila e UFV em suspense
Criada há poucos anos, a Universidade Federal da Integração Latino-Americana, em Foz do Iguaçu (PR), aguarda a nomeação do primeiro reitor eleito. A votação ocorreu no fim de 2018, com o o critério de maior peso para os docentes (70%). Há receio de que o governo Bolsonaro não respeite o mais votado. Na Universidade Federal de Viçosa, a preocupação é a mesma: o reitor foi eleito após consulta paritária.

Imprensa
A equipe de reportagem da Adufrj foi convidada a se retirar de duas salas onde os jornalistas cobriam as discussões dos grupos temáticos do Congresso. Segundo a diretoria do Andes, os repórteres poderiam fotografar, mas não realizar cobertura jornalística, anotando falas e acompanhando os debates. A diretoria da Adufrj criticou a posição e destacou que os sindicalizados têm direito a ser informados e que a imprensa sindical livre é a melhor formar de garantir a qualidade informativa. A permanência foi permitida.

40 anos da Adufrj
No Congresso de Belém, foram expostos materiais das seções sindicais que fazem  40 anos em 2019, como a Adufrj. “Chegamos à maturidade, buscando o equilíbrio e a ponderação. Nossas ações mostram isso”, afirmou a presidente da Adufrj, Maria Lúcia Werneck, delegada pelo segundo ano consecutivo no evento. Na entrada do auditório, a Adufrj montou uma barraquinha com boletins, calendários e peças das últimas campanhas realizadas, como a “UFRJ Sempre”.

Conservadorismo à mostra
Primeira negra a assumir a presidência da Seção Sindical dos Docentes da Universidade Federal de Viçosa (Aspuv) e ligada a movimentos sociais, a professora Júnia Marise Matos Sousa tem sofrido ataques. Listas eletrônicas que circulam na instituição questionam sua gestão – que começou em maio –, mas Júnia vê outras motivações: “É racismo, machismo. Não vamos abaixar a cabeça, pois não há nada errado na gestão”.