Historiador José Murilo de Carvalho em evento na Acadamia Brasileira de Letras - Crédito: Divulgação /ABL

Fernanda da Escóssia e Isabella de Oliveira

 

José Murilo de Carvalho é professor emérito da UFRJ e um dos mais renomados historiadores brasileiros. Ao analisar a crise, mira passado, presente e futuro e vaticina sobre as eleições:“Se ganhar um candidato de extrema-direita, que Deus tenha piedade de nós”. Em entrevista ao Boletim, ele alerta que o pior problema do Brasil não é a corrupção, mas sim a desigualdade.

 

Qual sua avaliação da prisão de Lula?
É um momento de crise nacional, nunca tivemos um presidente preso por crime comum. É uma complicação grande, crime político é mais fácil de gerar reação. Ao mesmo tempo em que temos a cúpula do PMDB na cadeia, o próprio Temer ameaçado de processo, creio que o Judiciário e o Ministério Público estejam escolhendo particularmente o PT e a esquerda. Não há como tirar a interpretação política.

Em que este momento se associa a outras crises, como o suicídio de Getúlio?
1954 foi crise política, não institucional. Girou em torno do combate a Getúlio e sua política, no contexto do anticomunismo da Guerra Fria. O suicídio desnorteou seus inimigos. E o PTB tinha líderes capazes de dar continuidade à política varguista. Um dos grandes problemas do PT é não ter substitutos para Lula eleitoralmente viáveis. O discurso de Lula antes da prisão lembrou a carta-testamento de Getúlio, escrita por José Soares Maciel Filho.
Como analisa o papel do STF?
Diante da desmoralização do Legislativo e do Executivo, o STF era o poder que mais legitimidade detinha, de acordo com pesquisas de opinião. Seu comportamento errático, suas disputas internas, as manifestações fora dos autos estão corroendo sua legitimidade.
A prisão de Lula ameaça marcas de sua era, como as políticas sociais?
A desigualdade é o principal problema do país e o povo não é bestializado. Enquanto houver eleições, candidato que não der atenção ao problema não será eleito ou, se eleito, não governará. O Brasil precisa de um forte partido de esquerda que ponha ênfase no combate à desigualdade. O PT precisaria reinventar-se para cumprir esse papel.
Considera possível a formação de uma frente de esquerda?
É difícil no primeiro turno. Partidos pequenos preferem concorrer sozinhos. No segundo turno, vai depender de quem estiver concorrendo. Uma frente contra Bolsonaro é plausível.
Quais os desdobramentos para a eleição?
É possível que Lula concorra, mas a probabilidade maior é que não. Se não concorrer, haverá crítica que o processo não foi legítimo, pois o candidato com maior apoio não participou. Se concorrer, é difícil prever o efeito da condenação. Qualquer um que for eleito não vai ter um governo fácil, a grande fragmentação do país se manterá. Se Lula ganhar, será mantida sua oposição. Se ganhar um candidato da extrema-direita, bom, que Deus tenha piedade de nós. Não há candidato de centro em boa posição eleitoral. O que me preocupa não é tanto o amanhã, mas os principais problemas do país: a desigualdade, o desemprego. Essas disputas tornam mais difícil recuperar a economia e retomar uma política de combate à desigualdade e de inclusão social.
A eleição então não encerra a crise?
A eleição, com ou sem Lula, não deverá encerrar a crise. O vencedor enfrentará oposição forte e terá que montar uma base no Congresso pagando o preço que os presidentes anteriores têm pago. O principal problema, crescimento com redução da desigualdade, permanecerá sem solução. Meu livro “Os bestializados” mostra que o povo NÃO era bestializado. Quem achar o contrário só leu o título.

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