Fernanda da Escóssia

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Estudioso das ditaduras brasileiras, o historiador Carlos Fico analisa a atual crise como desdobramento do impeachment de Dilma – com a instauração de um quadro de quase anomia. Para o professor titular do Instituto de História, a prisão do ex-presidente Lula se transformou em troféu da Lava-Jato. O docente alerta para o risco de exacerbação da violência física durante as eleições.

QUASE ANOMIA

A crise de hoje se iniciou com o impeachment de Dilma Rousseff, que inaugurou um luto simbólico. É um tema clássico da análise historiográfica, a morte real ou simbólica do chefe de Estado. Isso abre um quadro de quase anomia, de crise institucional e quase suspensão da normalidade. A gente vê isso nessas idas e vindas do Supremo, na decisão de iniciar uma intervenção no Rio… O impeachment foi um momento de morte simbólica.

HISTÓRIA

Outro grande momento (dessa incerteza) foi a morte efetiva de Getulio Vargas. Até horas antes, muita gente clamava pela renúncia. Quando o suicídio ocorreu, foram chorar a morte do presidente. O tema da morte do chefe de Estado, do rei, do príncipe, desde Roma antiga, é um momento inaugurador de um problema, de um temor.

LULA

O ex-presidente se transformou num troféu da Lava-Jato, alguém que, segundo os procuradores, tinha de ser preso. A correria para a emissão do mandado de prisão mostra o quanto ele se transformou num troféu muito ansiado. A decisão judicial não me compete analisar. Compete à Justiça. Simbolicamente, Lula se tornou um troféu. Para culminar, houve essa pressa na emissão do mandado de prisão. Existe na sociedade uma percepção do que seria uma situação diferenciada em relação a outros investigados. Vamos acompanhar a situação do ex-governador mineiro Eduardo Azeredo, do PSDB, julgado e condenado em primeira e segunda instâncias. Agora vão ser julgados seus embargos. Ele vai ser preso? Se for preso com a mesma celeridade é uma coisa. Se não, dá uma impressão negativa.

PRESSÃO MILITAR

O comandante do Exército (general Villas Boas, que expressou “repúdio à impunidade”) tinha que ter sido demitido. Não se pode admitir que chefes do Exército pressionem. Não importa que tenha pressionado contra o Lula ou a favor. Não importa a posição. Ele teria de ter sido demitido. Mas é governo Michel Temer, um governo frágil. VIOLÊNCIA l Do ponto de vista da sociedade, a polarização tem caminhado para manifestações de violência. O meu temor é que essas manifestações de radicalização acabem marcando as eleições. Isso costuma ocorrer como exacerbação depois desses fatos simbólicos que levam a sociedade a momentos de quase excepcionalidade.

APOIO DE LULA

Ele vai conseguir transferir algum patamar de votos, não sei qual. Quem ele apoiar será beneficiado.

FIM DA CRISE

Não vejo que a eleição conclua a crise. A não ser que tivéssemos um candidato capaz de congregar a sociedade em torno não apenas de um projeto de governo, mas de uma proposta de unificação simbólica, que não temos. Temo que a campanha seja marcada por violência física. Não a tradicional violência do discurso político, mas confronto físico, com derramamento de sangue. É muito triste.

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