Redação Adufrj

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Não resisto a iniciar este artigo comentando o recente fato absurdo de, por ordem da Justiça, ter sido removida pela polícia uma faixa fixada no interior do campus da Universidade Federal Fluminense (UFF) com os dizeres “Direito da UFF Antifascista”. As conclusões desse fato são:

1- Houve uma arbitrariedade policial a mando da Justiça contra a autonomia da Universidade, tratada como equivalente a logradouros públicos em geral, contra o que protestei em artigo na imprensa há tempos atrás.
2- Se o antifascismo no Brasil é julgado ser um crime, logo o correto segundo a Justiça é ser fascista.
3- Se a faixa foi vista como uma manifestação não apenas contra a ameaça fascista mas a favor do candidato Haddad, então a Justiça entende que o candidato Bolsonaro é fascista.

Essa constatação indica que o autoritarismo extremista de direita já vigora no atual governo, originado de um golpe parlamentar que depôs a presidente Dilma, legitimamente eleita e honesta. À primeira vista isto pode parecer contraditório com o medo que inspira a possível eleição do seu sucessor de extrema direita. A contradição é esclarecida se consideramos que há uma continuidade entre Temer e Bolsonaro, embora com métodos politicamente mais radicais. Ela é explícita pela política econômica neoliberal de ambos, daí o apoio do empresariado ao candidato da direita. E há o papel parcial e conservador da Justiça em geral, salvo honrosas exceções, contra a esquerda e a democracia. A operação lava-jato eliminou a candidatura de Lula, primeiro colocado na pesquisa eleitoral, condenado por ter recebido de uma empresa um apartamento que não recebeu.

Repete-se como uma farsa trágica o exemplo histórico da Itália: a operação “mani pulite” levou Berlusconi ao poder, como a operação lava-jato leva Bolsonaro a ganhar a eleição, alavancado por consultoras de implantação de fake news por robots informáticos, em nome do combate à corrupção. Esta última de fato existe há muito tempo e o PT no poder não a impediu como demonstraram os lamentáveis episódios na Petrobras, apesar do apoio que deu ao Ministério Público e da criação da Controladoria Geral da União (CGU) em nível de ministério. Mas, também em nome do combate à corrupção, a direita e o presidente Carlos Luz tentaram impedir a posse do presidente eleito Juscelino, garantida pelo general Teixeira Lott, um militar nacionalista apoiado pela esquerda, pela qual concorreu depois a presidente da República.

O que esperar então do próximo governo com Bolsonaro? Em primeiro lugar haverá uma combinação de direitismo extremado com liberalismo econômico. Os exemplos de direitismo de Trump nos EUA e de Marine Le Pen na França são ambos nacionalistas, embora esta palavra nos países ricos tenha significado diferente do que significa em países não desenvolvidos como o Brasil. Trump proclama “America first”, enquanto Bolsonaro faz continência para a bandeira norte-americana e promete privilegiar as relações com os EUA e reduzir as taxas de importação de produtos norte -americanos. Quanto às privatizações anunciadas pelo seu assessor Paulo Guedes, elas foram desmentidas pelo candidato pelo menos das empresas vistas como estratégicas.

Muito preocupante é a defesa pelo candidato da tortura e da perseguição política praticadas pela ditadura militar originada do golpe de 1964, contra as quais teremos de nos mobilizar na sociedade para que não voltem pelas mãos de seus seguidores mais radicais. E um deles assassinou um mestre de capoeira na Bahia por se declarar eleitor de Haddad.

Luiz Pinguelli Rosa
Professor Emérito da Coppe

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