Foto: Fernando Souza

Ana Paula Grabois

anapaula@adufrj.org.br

Mesmo com o cenário adverso de falta de recursos do Ministério da Saúde e do Ministério da Educação para a pesquisa e contratação de profissionais, o Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (HUCFF), no campus do Fundão, realiza transplantes de medula óssea de forma extremamente sofisticada.

De 1994 para 2019, foram cerca de 800 transplantes envolvendo uma equipe multidisciplinar. O grupo atua não só no diagnóstico e tratamento do paciente, como também na coleta do sangue para a retirada das células-tronco que serão transplantadas e em um laboratório de análise e preservação da medula em baixas temperaturas. Todo esse complexo modelo de trabalho que permite a realização dos transplantes só foi possível através da ligação da prática da medicina e da hemoterapia com a pesquisa científica.

A maioria dos transplantes do HUCFF é do tipo em que o paciente recebe a própria medula após um conjunto de procedimentos. Nos transplantes que envolvem um doador e um receptor, apenas o hospital universitário, além do Instituto Nacional do Câncer (Inca), faz este tipo de procedimento na saúde pública do Rio.

A história do sistema de transplantes da unidade começa nos anos 90, quando o médico Halley Pacheco de Oliveira torna-se chefe da Hematologia do hospital, em conjunto com o professor Radovan Borojevic, pioneiro no estudo de células- -tronco no Brasil e uma referência mundial no assunto. Desde então, foi formado um grupo de especialistas essenciais ao desenvolvimento da área.

O atual responsável pelo Laboratório de Cultura e Preservação de Medula Óssea, professor Hélio Dutra, do Instituto de Ciências Biomédicas, foi um deles. “O professor Radovan começa o projeto e o professor Hélio, que era aluno dele de doutorado, também vem. O projeto começa a crescer e vem o doutor Halley”, conta Carmen Nogueira, que também foi formada pela dupla e hoje chefia o serviço de Hemoterapia do hospital.

Deste grupo, despontaram nomes como o professor Marcio Nucci, hematologista que tornou-se referência na área de imunidade de transplantados. Também saiu deste grupo o professor Angelo Maiolino, hematologista que se especializou em transplantes.

Atualmente, em conjunto com Hélio Dutra e Carmen Nogueira, o clínico Rony Schaffel coordena a parte médica do setor e é o responsável técnico dos transplantes. “O background do professor Hélio é em biologia celular. O do professor Rony é em medicina, com especialidade em hematologia”, conta Carmen. “O banco de sangue entrou de uma forma importantíssima porque tinha todo o know-how de como controlar o paciente nesse tipo de procedimento”, diz Dutra, em referência ao trabalho da colega.

Já Rony reconhece a necessidade do transplante, indica ao paciente o esquema de tratamento. Após a coleta da medula e sua preservação no laboratório, o clínico marca a data do transplante, faz a aplicação da medula e o acompanhamento pós- -transplante, fase bastante delicada pois a imunidade do paciente é praticamente zero, o que o torna muito vulnerável a infecções.

Desde 1994, a prática desenvolvida no HUCFF de realizar o processo integrado para o transplante rendeu resultados como a criação de protocolos médicos e de hemoterapia.

A área, no entanto, sofre com dificuldades. O serviço de hemoterapia precisa, durante o processo de transplante, fazer a irradiação de sangue utilizado em transfusões para o paciente durante o processo de transplante. Hoje, esse sangue precisa ser levado a uma máquina localizada no Inca, no centro do Rio.

O setor ainda carece de pesquisadores contratados pela UFRJ. “Nossos biomédicos e farmacêuticos do laboratório de transplantes de medula são extraquadros”, diz Dutra. Concursos já foram realizados, mas os profissionais não foram chamados.

O professor afirma que é preciso ainda ressaltar o importante papel que a universidade pública tem na formação de profissionais nesta área, inclusive para atender a demanda no setor privado de saúde. “Não existe complexidade nesta área se não tiver uma universidade pública para formar profissionais que possam atuar”, diz.

Já Carmen Nogueira destaca a necessidade de estimular e manter a pesquisa, relembrando a criação do setor. “A história dos transplantes no HU nasce de muita pesquisa”, diz. Para o médico Schaffel, é preciso entender que o HU não é um custo e, sim, um investimento. De acordo com o Schaffel, o hospital é fundamental na formação de pessoal em hemoterapia e congelamento de medula.

Schaffel destaca que o conhecimento e a prática nesta especialidade aprendida pelos residentes e pesquisadores de pós- -graduação no hospital é multiplicada pelo Brasil afora, o que torna o HUCFF um polo irradiador de medicina de alta complexidade. “O hospital é um formador de talentos que vieram dos laboratórios e dos serviços daqui. Formamos todo ano residentes em hematologia e em transplante de medula que são aproveitados nos serviços públicos e privados, alguns fora do Rio, e levam a experiência que tiveram”, afirma.

Confira o vídeo sobre o setor de transplantes de óssea no canal da TV AdUFRJ no Youtube.

POST SOBRE O TEMA VIRALIZOU

Um post na página da AdUFRJ no Facebook sobre os transplantes do HUCFF com o professor Hélio Dutra viralizou. Publicado durante a Greve Nacional da Educação de 15 de maio, mostrou o professor falando sobre os 749 transplantes feitos de 1994 a 2018 e da importância do hospital na formação dos profissionais que atuam na saúde pública e na iniciativa privada. Foram 150 mil pessoas alcançadas; 2,9 mil curtidas e 2,3 mil compartilhamentos. “Tenho muitos alunos”, disse o professor, muito elogiado pelos estudantes nos comentários.