Elisa Monteiro

elisamonteiro@adufrj.org.br

Em um bandeirão de quase 70 metros quadrados, o desenho de uma mulher em tons de lilás e rosa flutuando graças a um balão branco. Ao lado, os dizeres “A luta pela paz é feminina”. A campanha da Adufrj em resposta à intervenção federal na segurança pública do Rio foi um dos destaques da manifestação do 8 de Março, no Centro da cidade. O tecido foi agitado por professoras e estudantes e abriu a passeata que tomou a Avenida Rio Branco.

Confira fotogaleria do ato

“É claro que a questão da segurança é importante para todos”, afirmou a presidente da associação docente, professora Maria Lúcia Teixeira Werneck. “Mas as metas da intervenção federal não estão claras”. Ela completou com a motivação para a campanha: “Sabemos que as mulheres e as crianças são as pessoas que têm a rotina mais afetada pela militarização do cotidiano”.

A participação da Adufrj dialogou com o tema do ato: Não à Intervenção Militar, É Pela Vida de Todas as Mulheres. “Seria impossível vir para a rua, no Dia Internacional das Mulheres do Rio de Janeiro, sem falar da militarização da vida das mulheres nas favelas. Foi consenso”, justificou Iara Amora, da Casa da Mulher Trabalhadora (Camtra), uma das entidades organizadoras.

A diretoria da associação docente compareceu em peso à atividade para distribuir boletins, adesivos e camisas da campanha. “Somos a associação dos docentes e das docentes da UFRJ”, frisou a diretora Maria Paula Araújo.  “Acompanhamos e somos solidários às lutas pela igualdade”, completou.

Diversidade na manifestação

A Marcha de Mulheres do Rio acolheu reivindicações diversas. Contra o racismo e o machismo ou em defesa do aborto seguro. Creche para os filhos e repartição do trabalho doméstico. Educação pública e Estado laico. Terra e dignidade para as indígenas. Preservação dos direitos trabalhistas e respeito para os LGBTTs. Poder para elas na política e democracia real.

Durante o ato, o carro de som foi detalhe. Os destaques foram as vozes, os textos em cartazes ou nos corpos, as mensagens flamejando em bandeiras de todo tipo. Em cima de pernas de pau, mulheres carregaram a faixa “Juntas somos gigantes”. Doulas, profissionais que assistem mulheres que serão mães, denunciaram o parto desumanizado. Prostitutas lembraram “estamos aí” no feminismo.  A Resistência Feminina, iniciativa de fotógrafas como Ana Carolina Fernandes, Luciana Whitaker e Bel Pedrosa, desde cedo, registrava mulheres na concentração, posando com seus dizeres.

O que mais incomoda no machismo?

Confira alguns depoimentos de participantes da Marcha do 8M, no Rio de Janeiro:

“As brasileiras estão sintonizadas com as lutas das mulheres no mundo. A Espanha é um dos exemplos. As mulheres se colocam contra as guerras, contra o desemprego e ao mesmo tempo por políticas sociais como a saúde a educação”, Ligia Bahia, vice-presidente da Adufrj.

“O machismo velado é o pior. É muito triste também ver mulheres diminuindo as outras. Sou de uma geração que enfrentou o machismo, conquistou avanços e abriu espaço para outras. Mas cabe à geração atual chegar à igualdade”, Denise Pires de Carvalho, professora do Instituto de Biofísica.

“O pior é a naturalização da coisa, homens sem constrangimento fazendo falas indevidas, agredindo em casa companheiras e filhos. A universidade não está à margem do problema”, Rogéria de Ipanema, professora da Escola de Belas Artes.

“A mulher indígena enfrenta preconceito para tudo, até pegar metrô é ruim. Na aldeia, não temos nada e na cidade é pior. Meu filho passou para Federal Rural (UFRRJ), mas não temos o tanto de documento que exigem. A universidade devia debater a questão indígena”, Potira Guajajara.

“É a impotência que eles impõem para a gente o tempo todo com coisas do tipo: normal você não conseguir, você é mulher. Sempre jogando para baixo, fazendo a gente se sentir mal por ser mulher”, Vitória Helena, secundarista.

“Conviver com o racismo que nos tiram os entes queridos todos os dias é a pior parte. E as mulheres de axé, de religião de matriz africana, ainda enfrentam a discriminação, tendo terreiros violados e quebrados, sendo apedrejadas na rua. Estamos com um prefeito que promove o ódio e desrespeita o Estado laico, previsto na Constituição Federal”, Adriana Martins, da Articulação de Mulheres Brasileiras (AMB).

“Estou na luta pelas mulheres desde as mobilizações para revisão da CLT em favor delas, ainda na ditadura. Participei do lobby do Batom na Constituinte que trouxe várias conquistas. De tudo, só não conseguimos avançar nada na descriminalização do aborto”, Leonor Paiva, advogada.

“Um cara pode estar, em qualquer idade, trajando qualquer roupa, nos lugares. Se é mulher, é bem diferente. Você não tem essa disponibilidade. O transporte, por exemplo, é pensado na lógica do ir e vir para o trabalho. As mulheres não sentem conforto ou segurança para se movimentar na cidade”, disse a educadora que preferiu se identificar apenas como Sandra.

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