Fernanda da Escóssia

fernanda@adufrj.org.br

Giovana Xavier, professora da Faculdade de Educação da UFRJ e uma das idealizadoras do catálogo “Intelectuais Negras Visíveis”, alerta: a invisibilidade é uma forma de dizer que aquele lugar não é reservado para mulheres negras.

Qual o desafio da mulher negra hoje?

 

 Temos um problema real, o fato de a sociedade brasileira invisibilizar e não valorizar nossa importância. Assim, todas as nossas pautas são consequência da invisibilização e da objetificação de que temos sido alvo. Invisibilidade no mundo acadêmico, no mundo do trabalho. O desafio não tem de ser apresentado para a mulher negra, mas para a sociedade: jamais naturalizar essa questão e procurar alternativas.

 Quais seriam essas alternativas?

 Reivindicar ajuda a construir um projeto de democracia no qual tenhamos nossa participação reconhecida. A alternativa principal tem de ser em termos de macropolíticas, de reconhecimento, pelas políticas públicas, dessa invisibilidade da mulher negra. Na UFRJ, um levantamento recente mostrou que menos de 3% dos professores se declaram negros. Representatividade importa. Temos de achar uma forma de assegurar que conteúdos produzidos por pessoas negras vão ser trabalhados. Temos de selecionar e usar em sala de aula autores e autoras negros. Na verdade, a invisibilidade é uma forma de falar que esse lugar não é para a mulher negra, e é isso que precisamos enfrentar por meio de um programa institucional.

 

 Dentro da luta feminista, como situa a luta da mulher negra?

 O feminismo não é uma coisa só. Nenhum movimento social é. O que sempre entendemos como feminismo universal é o feminismo branco. A ideia de feminismo não reconhecia as experiências das mulheres negras. Inclusive o feminismo, tal como o conhecemos, esteve associado ao fato de haver um trabalho do méstico, exercido por mulheres negras. Mas tem havido uma pressão de diálogo, e uma escuta maior, nos movimentos feministas, do feminismo negro. Estamos discutindo inclusive o lugar que a branquidade ocupa nessa luta. Não queremos um movimento paralelo.

 Que pautas a senhora destacaria na luta feminista negra hoje?

 Destaco a educação pública, com ênfase em condições salariais, planos de carreira para os professores, e também em projetos que apostem na educação pública como um lugar de formação, de fortalecimento de cidadania, de ascensão, de mudança social, para romper com aquela ideia estigmatizada da escola pública como o que sobra. A outra coisa que considero prioridade é o reconhecimento de direito para pessoas e, particularmente, mulheres trans. Acho que é uma pauta ainda muito pouco valorizada no feminismo.

 

ADICIONAR COMENTÁRIO

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

(*)

(*)