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“E a cidade que tem braços abertos
Num cartão postal
Com os punhos fechados da vida real
Lhes nega oportunidades
Mostra a face dura do mal”.

WhatsApp Image 2021 07 24 at 10.30.50A canção “Alagados”, dos Paralamas do Sucesso, é de 1986, mesmo ano em que o Conselho Universitário, sob a gestão do reitor Horácio Macedo, aprovou que a Maré, musa da obra de Herbert Vianna, João Barone e Bi Ribeiro, se tornaria campus vicinal da UFRJ para projetos de pesquisa e extensão. Era uma das primeiras decisões formais de uma universidade que não queria mais estar de costas para a vida real da favela vizinha. Ao contrário, queria contribuir para a criação das necessárias oportunidades de desenvolvimento e acesso a bens e direitos historicamente negados à população mais pobre.
Um desses direitos negados é a segurança. Na sexta-feira passada (16), a Maré viveu mais um episódio de violência promovido pelo Estado. A operação policial durou mais de 30 horas. Voos rasantes de helicóptero, tiros, caveirão, correria e, por fim, o silêncio denunciador do medo marcaram o final de semana de mais de 50 mil moradores das favelas do Parque União, Parque Rubens Vaz, Nova Holanda e Parque Maré, locais onde a mega operação se concentrou. Ao todo, a Maré reúne 16 comunidades e possui mais de 130 mil habitantes, segundo o último Censo Maré, de 2010. Aliás, a primeiro censo da região partiu da UFRJ e foi realizado em 1987, com a participação de estudantes, professores, técnicos e moradores.
Em mais de 30 anos de iniciativas, os frutos são evidentes. Se até os anos 1980 o que acontecia na Maré era algo apenas externo à universidade, a realidade passou a mudar gradativamente nas últimas décadas. “Os problemas da Maré são cada vez mais problemas da UFRJ. Muda completamente nossa perspectiva quando a gente sabe que um aluno está debaixo da cama tentando se proteger das balas, no horário da aula. Como dar um conteúdo se meus alunos não estão em condições emocionais de acompanhar, porque estão tentando sobreviver a uma situação de violência?”, questiona a presidente da AdUFRJ, professora Eleonora Ziller, da Faculdade de Letras. “Hoje a Maré está na universidade. É outra relação, outro envolvimento”, acredita a professora.
“Eu moro no Parque Maré, numa rua que é conhecida como ‘Iraque’. Quando tem operação na favela, a gente precisa se esconder para não morrer, não tem como sair”, destaca o estudante Raniery Soares, de 24 anos. Aluno da Letras, ele conta que, apesar de cursar o sétimo período da graduação, ainda tem disciplinas dos períodos iniciais da faculdade. “Mesmo estudando ao lado de casa, muitas vezes eu fiquei preso por conta das operações. Sobretudo 2018 foi um ano muito violento e acabei reprovado em algumas matérias”, justifica.
Segundo levantamento realizado pela ONG Redes da Maré, em 12 anos de vida escolar, crianças e adolescentes perdem um ano inteiro de aulas por conta dos conflitos armados causados, principalmente, por operações policiais e, em menor grau, por disputa de territórios entre grupos armados. “O Estado não permite que a gente tenha o acesso completo à educação”, afirma Raniery. “Eu entrei por cotas de escola pública. As cotas são fundamentais para o acesso, mas a gente ainda tem um deficit de aprendizado muito grande”, reconhece. “Quando eu chego à universidade, tenho um ano a menos de aprendizado formal que meus colegas que não moram em favelas”.
Como boa parte dos moradores da Maré que conseguiram acessar o ensino superior, Raniery é o primeiro de sua família a cursar uma universidade. “Minha família sempre teve a UFRJ como a melhor, diziam que eu precisava entrar lá para ser alguém”, diz. “Aos quatro anos de idade, eu fiquei internado por seis meses no hospital infantil. Então, minha relação com a UFRJ sempre existiu, desde a infância”.
Mudança de vida
Para Raniery, estar na universidade é ter a oportunidade de mudar de vida. “Eu sou gay e sair da favela, por exemplo, é sair da influência do fundamentalismo religioso. É uma libertação”, considera. “Por outro lado, é um peso também. É a única possibilidade de mudar de vida. O estudante de baixa renda já entra com essa cobrança nas costas. A única chance de eu conseguir garantir a velhice da minha mãe é ter uma boa formação universitária”.
Rayanne Soares, também de 24 anos, concorda. “Para nós, moradores de favelas, a educação é a única ferramenta concreta de transformação. Você consegue alcançar lugares que você não sonhava antes. Educação é emancipação e o ensino superior é uma garantia de você mudar minimamente o lugar em que você está”, afirma. “A universidade democratiza o acesso a coisas que outras pessoas tiveram a vida toda, como cultura, literatura, línguas estrangeiras...”.
Quando terminou o ensino médio, em 2015, Rayanne deu à luz seu filho. E só conseguiu ingressar na universidade em 2019.2, no curso de Gestão Pública para o Desenvolvimento Econômico e Social. “Eu me matriculei no dia 25 de julho, dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha. Eu, mais uma mulher preta, ocupei a universidade naquele dia tão simbólico”, orgulha-se.
Além da mudança de vida e de perspectiva que já experimenta, Rayanne quer mudar a vida de mais e mais pessoas à sua volta. “A UFRJ ainda não é plenamente acessível a todos. Os nossos ainda não estão lá em peso”, declara a estudante. “Eu escolhi Gestão Pública não à toa. Esse recorte econômico-social é exatamente o que a gente precisa disputar na sociedade brasileira. Eu penso em mudar o território, afetar realmente a vida das pessoas, transformar”, afirma, entusiasmada. “Segurança pública não pode ser só operação policial. A ação de educação não pode ser um retorno presencial de qualquer jeito. Quero usar esse lugar de formada para ter legitimidade, dar visibilidade às ações que já existem e ajudar a formular novas iniciativas e políticas públicas”.

Mosaico de Atividades

Enorme população, cultura pujante e péssima qualidade de vida são algumas das características da Maré. De acordo com dados do Censo 2010 do IBGE, o conjunto de favelas era o nono bairro mais populoso da cidade do Rio de Janeiro, com 135.989 moradores. Se fosse um município, a Maré seria o 21º mais populoso do estado. Mais de 50% dos habitantes são jovens de até 30 anos. Razão que levou ao projeto mais recente de vacinação em massa dos moradores adultos da Maré. A imunização ocorre de 29 de julho a 1º de agosto e é parte de um estudo da Fiocruz para avaliar a proteção de uma população imunizada contra as variantes da covid-19.

CULTURA E CIDADANIA
WhatsApp Image 2021 07 24 at 10.30.50 1Ainda nos anos 1980, a preocupação da universidade era levar cultura e cidadania à Maré. Uma das iniciativas foi a criação de uma colônia de férias para crianças. “A gente parava o ônibus, colocava todo mundo dentro e ia para o campus realizar atividades como jogos, teatro, gincanas”, relembra a professora Eleonora Ziller. Logo depois, a Escola de Educação Física e Desportos firmou parceria com a Secretaria Municipal de Educação para ser sede do Clube Escolar. Com oficinas de artes e esportes gratuitas, as crianças desenvolviam atividades em horário complementar ao escolar. O projeto ainda é ativo e atende 1.270 crianças das escolas públicas vizinhas ao Fundão, a maioria dos alunos é oriunda da Maré.
Anderson Machado foi uma das crianças atendidas ainda na década de 1980. “Foi a primeira vez que tive acesso à universidade. Muitos anos depois, consegui passar no vestibular para Educação Física. No primeiro dia de aulas, um outro aluno falou que tinha que botar mais cloro na piscina porque o pessoal da Maré tinha estado lá. Foi muito importante eu estar ali, naquele momento, e dizer que eu era morador da Maré e que tinha passado no mesmo vestibular que ele”, recorda.
No início dos anos 1990, um núcleo da Faculdade Nacional de Direito passou a auxiliar moradores a conseguirem o registro definitivo de seus imóveis na Maré. Era o embrião do que em 2006 se transformou no Niac – Núcleo Interdisciplinar de Ações para a Cidadania, com sede ao lado da Prefeitura Universitária.

AÇÕES SOLIDÁRIAS
Antonio Carlos Pinto Vieira, o Carlinhos, morava na Maré quando passou no vestibular da Faculdade Nacional de Direito, em 1982, e acompanhou de perto as primeiras iniciativas de aproximação da universidade com a comunidade. “Era um grande projeto chamado ‘Vamos entrar nessa Maré’, com iniciativas de várias áreas do conhecimento”, relembra. Ele é um dos fundadores do Ceasm, o Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré. “Tivemos forte apoio da UFRJ para a instalação do nosso pré-vestibular comunitário, também por meio do convênio com a Faculdade de Letras, para curso de línguas para os moradores”. O Ceasm contabiliza mais de duas mil aprovações de moradores da Maré para as universidades.
Atualmente, a UFRJ é parceira do fórum “Favela Universidade”, que discute a inserção de jovens de favela na produção acadêmica brasileira. O projeto “Tecendo Diálogos” atua em diversas frentes. Uma delas é a construção de um banco de referências de produções acadêmicas de moradores da Maré e Manguinhos sobre suas comunidades. Outro braço é o GT de Saúde Mental dos moradores universitários. Também está sendo planejada uma jornada científica com trabalhos acadêmicos produzidos por moradores de favelas. “Além disso, estamos levantando dados para montar um grande mapa com informações de todos os pré-vestibulares comunitários do estado. A universidade precisa caminhar junto com a Maré. Não é um movimento de mão única, da universidade que contém o saber científico, mas uma via de mão dupla, em que a universidade também aprende, vai se desenvolvendo e abrindo outros caminhos na sua prática, na sua ação”, diz Carlinhos.
TALENTOS DA MARÉ
Nos anos 2000, a Música passou a ser também um instrumento promotor de direitos e cidadania. Foram criados alguns programas, como “Música para Todos”, com aulas de introdução a instrumentos musicais e ao canto gratuitas na Maré; o projeto “Arte para Todos”, que tinha como tarefa preparar os jovens moradores da Maré para o Teste de Habilidade Específica do vestibular de Música; e o Musicultura, projeto que existe há 17 anos.
“A nossa proposta une elementos de antropologia com a pedagogia de Paulo Freire. A ideia é valorizar o conhecimento local, ao invés de a Escola de Música levar uma caixinha de ferramentas. Nós somos mais os facilitadores da cultura tão massacrada pela realidade e abafada pelo senso comum que acha que lá só tem violência”, pontua o coordenador do projeto, professor Samuel Araújo. O bloco Se Benze que Dá foi um dos primeiros frutos do Musicultura em parceria com a Rede Memória, da Maré. O bloco é tradicional e desfila por todas as comunidades, no período do Carnaval, passando pelas fronteiras territoriais impostas pelas facções que dividem a região. Daí o nome “Se benze, que Dá”.WhatsApp Image 2021 07 24 at 10.30.50 2
Há projetos também de arquitetura e urbanismo, de educação ambiental, de saúde e emancipação feminina, de apoio e prevenção à violência doméstica que envolvem variadas unidades da UFRJ. “A Maré tem muitos talentos acadêmicos, artísticos, talentos políticos, muitas lideranças. É preciso dar meios para que esses talentos todos levem o país para um mundo mais saudável e alvissareiro”, finaliza o professor Samuel Araújo.

“A Maré não é violência, é potência”


DEPOIMENTO DA JORNALISTA SILVANA SÁ

WhatsApp Image 2021 07 24 at 10.31.14SILVANA (à direita) em manifestação nas escadarias da Alerj, em 2008 - Álbum de famíliaA Maré tem violência, mas não só. Ela transborda vida. Múltiplos talentos ali convivem, mas não têm oportunidade. Eu saí daquele chão. Marielle Franco também. Fizemos curso pré-vestibular comunitário no Ceasm (Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré), fundado por jovens mareenses que conseguiram quase por milagre acessar a graduação na UFRJ. O motor que me possibilitou alcançar pequenas revoluções foi o mesmo que levou Marielle a ser o fenômeno que todos conheceram. Foi o mesmo que levou aqueles poucos universitários da Maré, ainda nos anos 1990, a multiplicarem o número de vizinhos com ensino superior. A universidade transformou nossas trajetórias, mas, por muito tempo, ela não passava de uma ilustre desconhecida.

Quando eu era criança, nos idos anos 1980, eu conhecia a Cidade Universitária como “Fundão”. Ir ao Fundão era ir ao “médico” e ao “campinho da perna seca”. A gente ia andando de casa para a consulta no hospital infantil (Instituto de Puericultura e Pediatria Martagão Gesteira – IPPMG). Já para jogar bola no campinho do Hospital do Fundão (Clementino Fraga Filho), às vezes dez, às vezes 15 crianças ocupavam o chão de uma kombi dirigida pelo pai da Rosane, minha amiguinha da Rua da Paz. Era nosso passeio mensal.

Os hospitais eram nossa referência, mas não sabíamos que eram universitários. Da laje lá de casa dava para ver o imponente Hospital do Fundão. Com seus 14 andares e então 220 mil metros quadrados (metade nunca funcionou, por isso foi apelidada de “perna seca”), o prédio sobressaía na paisagem de casas baixas. Hoje, a verticalização da favela tampou a nossa vista.

Apesar de estar ao alcance da visão, universidade era coisa muito distante do chão da favela. Só depois dos meus doze anos eu descobri que ali no Fundão existia a UFRJ. E que ali as pessoas estudavam para muitas coisas diferentes. Alguns amigos já frequentavam colônias de férias e o Clube Escolar, que funcionava nas dependências da Escola de Educação Física e Desportos. Eram os primeiros frutos de uma universidade e uma Maré que tentavam derrubar os muros invisíveis que as separavam.

Esses mais de 35 anos de ações e projetos de extensão demonstram inegáveis avanços nessa relação. Aos poucos, mais moradores se tornam alunos, contribuindo para transformar não só suas realidades, mas a própria universidade. A Maré não é violência, é potência que a UFRJ ajuda a construir e deve apoiar cada vez mais.

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