Raquel Silveira: apesar da dificuldade de moradia, sonho de conseguir diploma está cada vez mais perto - Foto: Elisa Monteiro

 

Nunca me senti tão feliz como no dia em que vi meu nome na lista de aprovados na UFRJ. Foi a maior alegria do mundo.

Entrei na UFRJ na cota de escola pública, raça e renda. Vim do Maranhão, onde morei com minha avó dos 2 aos 17 anos. Meus pais foram assassinados porque se envolveram com o tráfico de drogas em Brasília.

Fiz o Enem de 2014. Se ficasse no Maranhão eu ia só trabalhar, sem fazer faculdade. Como queria estudar, vim pra cá, morar com umas tias. Elas não me conheciam, mas me aceitaram. Morei com uma tia, depois fui para a casa de outra.

Eu queria Engenharia de Petróleo, mas minha nota não deu. Escolhi Fonoaudiologia, porque a nota dava para entrar, pensando em depois fazer mudança de curso. Entrei na segunda chamada.

Pedi apenas a bolsa de auxílio e permanência, de R$ 610, mas não auxílio-moradia. Mas a situação foi piorando, minha tia é exigente e, com a faculdade, não consigo fazer essas coisas de casa. O curso é integral, tem o laboratório… A gente sentou e conversou, estabeleceu coisas. Agora ela disse que não posso mais ficar lá durante o fim de semana.

Às vezes fico de favor na casa dos amigos. Não tenho como pagar aluguel, comida, passagem… Faço estágio no laboratório de Biologia da Matriz Extracelular, numa pesquisa para desenvolver um ambiente que diminui a proliferação de células do câncer de mama. Pensei em dormir no laboratório, mas uma professora ficou com pena, acho, e me chamou para ficar nos fins de semana na casa dela, por enquanto.

Penso em ser cientista. Gosto da área hospitalar, de ajudar as pessoas a se alimentarem. Gosto muito da pesquisa aqui no laboratório e tenho vontade de ser professora.

Uma das coisas que a faculdade tem aberto para mim, além do conhecimento, é conseguir ter um dia um lugar para morar. Ter um emprego, uma casa, conquistar uma vida. No dia em que eu tiver minha casa vai ser o segundo dia mais feliz da minha vida. O primeiro será sempre o dia em que entrei na UFRJ.

(Raquel dos Santos Silveira, 20 anos, é aluna do sexto período de Fonoaudiologia na UFRJ; depoimento à jornalista Fernanda da Escóssia)

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