Uma das plenárias do Congresso do Andes - Foto: Kelvin Melo

Ana Beatriz Magno

anabiamagno@adufrj.org.br

*e Kelvin Melo

As eleições para a próxima diretoria do Andes, um dos maiores sindicatos do Brasil, marcaram o 37o Congresso, realizado em Salvador, de 22 a 27 de janeiro. O pleito será em maio. Pela primeira vez em 14 anos, não haverá chapa única. Dois grupos estão na disputa e passaram os seis dias do encontro articulando suas candidaturas. O resultado da eleição pode mudar quase duas décadas de hegemonia de uma mesma tendência  política na direção do movimento docente do país.

Nos últimos pleitos, a direção do Andes ficou nas mãos do coletivo Andes de Luta e Pela Base, formado por setores   do PSOL, PCB, PSTU e por militantes independentes, ligados a movimentos sociais, como o MST e o MTST. Este ano, o PSTU não participará da chapa. Já a oposição é liderada pelo Renova Andes, organizado por grupos da esquerda do PT, do PCdoB e do PCO – Partido da Causa Operária. Desde 2004, após um conturbado processo de ruptura calcado na discussão da adesão do movimento docente ao governo Lula, os petistas estão no outro sindicato nacional de professores, o Proifes.

O Congresso do Andes ocorreu no campus da Universidade do Estado da Bahia, com a presença de 413 delegados e 122 observadores, de 80 seções sindicais diferentes. Só a Adufrj levou 25 docentes, uma das maiores bancadas do encontro e dos quase 40 anos de história da entidade. “Discutimos desde a progressão da carreira até o assédio. Da greve aos desastres ambientais. É minha primeira vez no Congresso. Só acho que deveriam ter propiciado um ambiente dialógico”, pondera Ligia Bahia, vice-presidente da Adufrj.  “Os conteúdos e os métodos impediram a realização de um congresso, na acepção do termo. O que vivenciamos foi um encontro extremamente sectário, sob forte hegemonia da diretoria do Andes”, completa.

A força da direção do Andes ficou clara desde o primeiro dia do encontro, quando os delegados votaram a chamada centralidade da luta – o foco do movimento docente nacional nos próximos meses. Por mais de 80% dos votos – e com a oposição da direção da Adufrj – ficou definido que a prioridade da categoria é construir uma greve geral para barrar as reformas do governo Temer.

 A presidente do Andes, Eblin Farage, observou que o sindicato deve ser “classista, combativo, independente” e que construir uma greve geral deve ser o foco do movimento docente nos próximos meses. Ao criticar a reforma da Previdência, a professora de Serviço Social da UFF alfinetou as gestões do PT: “Essa luta começa em Fernando Henrique, passando por Lula e Dilma. Esse sindicato não pode fazer conciliação de classe. Esse sindicato é classista e de luta”.

A presidente da Adufrj, professora Maria Lúcia Werneck, ficou estarrecida com o discurso da direção nacional do Andes. “Enquanto pesquisadores e professores universitários, não nos reconhecemos nesse discurso. Como assim, nosso foco é a greve geral? Eles acham que greve geral é solução mágica para tudo. E se as reformas não forem aprovadas, vamos fazer uma greve pelo quê? Com que pauta?”, questionou Maria Lúcia.

JULGAMENTO DE LULA

Outro assunto que mobilizou os congressistas foi o julgamento do ex-presidente Lula, no dia 24. Por maioria, foi aprovada uma nota defendendo o direito de Lula ser candidato nas próximas eleições, mas crítica aos governos do PT. “Não entendo essa nota. Será que é hora de nos dividirmos? O país vive uma crise institucional profunda com a judicialização da política. Esperava que o Congresso do Andes discutisse a conjuntura com mais responsabilidade, buscando a unidade dos setores progressistas e não se deixando contaminar pelo interesse eleitoral”, observou a professora Tatiana Sampaio, diretora da Adufrj. “Isso não é defender o Lula. É defender o Direito”, completou a docente do Instituto de Ciências Biomédicas.

Um comentário

  • Moacir Lacerda disse:

    Lanço um desafio. Nesse momento em que precisamos de unidade na luta, poderiamos pensar em uma união entre as duas tendencias sindicais (andes e proufes) em torno de alguns objetivos comuns? Por exemplo, 1. barrar a reforma da previdência, 2. a revogação da pec 241 (câmara)/55 (senado) do congestionamento por 20 anos em educação, 3. a criação de uma frente pilítica que unifique a luta das diversas tendências das esquerdas para negociarem um projeto politico social comum…(para fazer frente aos crescentes avanços dos setores conservadores de direita, incluindo ruralistas e religiosos, empresariais, banqueiros, etc), 4. Interferir nos mecanismos que garantem o fortalecimento do vínculo político entre as diversas tendências da direita conservadora (por exemplo denunciando seus intereses estruturais conflitantes expressos em seus projetos individuais)… será que conseguimos ao menos iniciar esse movimento?

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