Ana Beatriz Magno

anabiamagno@adufrj.org.br

E FERNANDA DA ESCÓSSIA

O que faz o estudante que vê seu nome na primeira lista de aprovados numa das melhores universidades do Brasil? Matricula-se imediatamente, claro. Quem respondeu assim errou: no segundo semestre de 2017, 85% dos alunos chamados pela UFRJ na primeira edição do Sisu não se matricularam. O resultado é praticamente a inversão do que aconteceu em 2009/2, último ano de vestibular exclusivo da UFRJ, quando apenas 15,7% dos aprovados na primeira listagem não se matricularam.

Em sua pesquisa, Roberto Vieira chamou esse fenômeno de evasão primária, uma faceta do gigantesco problema em que o abandono do ensino superior se transformou. No curso de Medicina do campus da UFRJ em Macaé, a evasão primária chegou a 100% em 2017 – nenhum dos aprovados na primeira chamada se matriculou. As taxas passam de 90% em cursos como Engenharia Civil (98,33%) e Fisioterapia (97,73%).

Vieira também analisou o que chamou de evasão secundária, quando o aluno chamado na primeira edição se matricula, mas depois é aprovado para outro curso e abandona o primeiro. Desde a adesão ao Sisu, afirma Vieira, a UFRJ perdeu dessa forma, em média, 241 alunos por semestre, 2.891 em seis anos.

Com isso, a universidade é palco de um paradoxo: depois da disputa acirradíssima para entrar (estudos mostram que a nota de corte cresceu com o Sisu), vários cursos têm vagas ociosas. Em 2018, a UFRJ oferece mais de 2 mil vagas para ex-alunos já graduados ou estudantes de outras instituições de ensino superior.

Em Macaé, onde a desistência é alta em vários cursos, tem sido comum usar chamadas de reclassificação para preencher vagas. Na Medicina, das 30 vagas disponíveis em 2017/2, 14 terão de ser preenchidas fora do sistema Sisu, com transferências, por exemplo.

O coordenador do curso de Medicina de Macaé, professor Joelson Tavares Rodrigues, disse que realizar várias chamadas é frequente, para evitar vagas ociosas. Segundo ele, a “dança das cadeiras” não é exclusividade local e acontece em cursos que não são a primeira opção dos alunos. Como Medicina é um curso que exige muita preparação, os alunos fazem o possível para ficar perto de casa.

O coordenador lembra que, ao permitir que o candidato faça prova em qualquer lugar do Brasil, o Sisu criou uma concorrência acirrada para o aluno da região. “Nossa pontuação de ingresso é alta, próxima da capital”, analisa. Ao mesmo tempo, apenas um estudante de Macaé foi aprovado na última seleção.

(Colaborou Elisa Monteiro)

Sisu favorece inclusão

A pesquisa de Roberto Vieira não desqualifica o Sisu. Muito pelo contrário. A pesquisa recomenda avaliações e ajustes no sistema para reduzir as perdas e manter o estudante na UFRJ. As respostas de 189 professores trazem indicações sobre frequência e participação nas aulas, dedicação dos alunos e conhecimento prévio.

“Na perspectiva de professor em sala de aula, o Sisu só trouxe coisa boa. A gente percebe essa dança das cadeiras. A violência assusta quem vem de longe. Agora, em termos de desempenho geral e de diversidade social, senti uma melhora”, afirma Fernando Duda, professor da Engenharia Mecânica e diretor da Adufrj. “O desempenho acadêmico dos meus alunos melhorou”.

“O Sisu tem um paradoxo. Desperta o sonho dos melhores estudantes do Brasil de estudarem na melhor universidade do país, mas não oferece formas de manter o estudante na universidade. Isso é uma ineficência do sistema. E temos que pensar com seriedade o assunto”, completa o professor Ericksson Almendra, ex-diretor da Escola Politécnica.

Para aproximadamente metade dos docentes que responderam ao questionário da pesquisa de Vieira, não houve alteração na dedicação dos alunos e no desempenho nas avaliações.

 

Um comentário

  • Gabrielle Braz disse:

    Só investir em bandejão, moradia e programa de Extensão, que aumente o interesse do aluno pelas ações universitárias e permanência.

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