Uma das plenárias do 37º Congresso do Andes - Foto: Kelvin Melo

A maioria de nossos colegas docentes talvez nem tenha ficado sabendo, mas, entre os dias 22 e 28 de janeiro, Salvador hospedou o 37o Congresso do Andes–SN, um dos sindicatos nacionais de professores. A Adufrj compareceu em peso com seus 25 delegados e observadores, e deixou a sua marca em momentos importantes do evento.

O Congresso, em sua essência, consiste na discussão de textos previamente enviados, que por sua vez orientam os caminhos do sindicato para o ano corrente. O volume de trabalho não é pequeno: o caderno (e seu anexo) desse ano continha 66 textos, mais um número semelhante de resoluções a serem votadas. A discussão desses textos transcorre de forma extremamente democrática, mas uma enorme parte do debate acaba se tornando contraproducente, pois há muitas superposições e excesso de preciosismo. No primeiro dia, por exemplo, assistimos a um debate imenso sobre resoluções extremamente parecidas, que no final das contas serviu apenas para a diretoria atual quantificar seu apoio (a resolução da diretoria, apesar da similitude com as outras, ganhou fácil). Tudo isso fez com que o congresso se alongasse muitíssimo além do necessário (o encerramento, previsto para o dia 27 às 16h, se deu apenas às 3h45 (!) do dia seguinte).

Houve também pontos positivos. O debate sobre a filiação do Andes à central sindical CSP-Conlutas se deu de forma aberta, aguerrida e sincera, com argumentações emocionadas mas sem perda de embasamento. Ademais, foi encorajador ver que vários problemas ligados às identidades de raça e gênero estão claramente na agenda do meio sindical docente. Em todo esse contexto, faz-se necessário destacar contribuições da Adufrj: as professoras Lígia Bahia e Tatiana Rappoport fizeram defesas contundentes da SBPC e da ABC (face a um ataque desonesto), o professor Eduardo Raupp puxou muitos aplausos ao defender os reitores universitários, e o professor Renato Monteiro “levantou” o plenário com sua intervenção sobre identidade de gênero.

Finalmente, chegamos ao ponto do título desse texto: Por que diferente? Porque, apesar de ser um congresso de docentes, praticamente não se escuta a palavra “professor”. Éramos todos apenas “companheiros”. Do mesmo modo, a palavra “universidade” foi pouco lembrada, dando lugar às “bases”. Fica no ar a desconcertante sensação de que o movimento docente tem vergonha de defender a própria intelectualidade, como se isso fosse, de alguma forma, um luxo. O grande problema é que – licença para o trocadilho – não podemos nos dar mais a esse luxo. A universidade pública está, talvez, sob o ataque mais forte de sua história.

Se não convencermos a sociedade de que a tríade ensino superior, pesquisa e extensão são cruciais para o país, entraremos em extinção. E só conseguiremos isso centralizando a luta na universidade pública, gratuita, e de qualidade.

Felipe Rosa
Professor do Instituto de Física e Diretor da Adufrj

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