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02WEB menor1137A semana que se encerra nesta sexta-feira guarda tantas experiências díspares e contraditórias, como em tantas outras que temos enfrentado desde o início da pandemia. Isso consome o coração de todos nós. É preciso doses cavalares de indiferença para passar incólume pelas mais de 70.000 mortes confirmadas por Covid-19. Porque, mesmo que não sejamos nós os responsáveis, a complacente imagem da nação, que parece adormecer por cima de seus mortos sem qualquer abalo, nos atormenta dia e noite. Os números falam por si. Confinados, enlutados, longe de nosso habitat natural – que são os corredores da universidade cheios de vida, repletos de jovens – enfrentamos ao nosso modo o torturante cenário de descaso, inépcia e perversidade que o atual governo nos apresenta diariamente. E para além do que cada um de nós pode estar enfrentando por esses dias, a resposta da UFRJ foi uma verdadeira explosão de vida, de vitalidade e potência crítica e criativa. O canal aberto pela PR5 com o Festival do Conhecimento permitiu que centenas de atividades viessem a público. Uma extraordinária diversidade ganhou as redes, em lives, rodas de conversas, painéis, proposições nos mais variados diapasões. Em resposta ao ódio que nos devotam, respondemos com mais vida, mais conhecimento e alguma alegria. Estivemos na mira dos grupos mais extremados, que não se pode nem mesmo acusar de conservadores, porque o que predomina ali é mesmo a brutalidade e a ignorância. Moções de ódio, tentativas de desqualificar um evento que a comunidade abraçou e fez gigante, marcaram as reações à programação da UFRJ. Por isso, temos a convicção dos acertos que ela traz. Também poderíamos nos ater às críticas e aos diversos problemas que foram sendo identificados, mas o que prevalece é a firme convicção de que a universidade possui energia e vitalidade de sobra para enfrentar esses tempos sombrios.      
Mas essa semana foi também o momento em que nos movemos em direção à oferta do ensino remoto emergencial durante o que foi batizado de Período Letivo Excepcional. Começamos a semana com reuniões por áreas, e concluímos com a realização do Conselho de Representantes. O desafio de oferecer disciplinas aos concluintes e aproveitar o momento para oferecer um leque bem maior em caráter experimental, sejam elas obrigatórias ou eletivas, tem sido a tônica na maioria das unidades. Mas isso está longe de significar consenso. Porque, mesmo muitos daqueles que estão se debruçando nessa tarefa, o fazem compelidos para mitigar prejuízos, reduzindo danos e buscando alternativas possíveis para a formação de nossos estudantes. A situação, portanto, está longe de ser a ideal, pois todas as dificuldades que encontraríamos para realizarmos essas propostas são amplificadas pela desagregação política que vive o país, e principalmente o clima de severa desconfiança e de incessantes campanhas contra a universidade e seu ambiente de liberdade e crítica. E assim chegamos também à posse do novo ministro da educação. O perfil não destoa dos interesses que regem o atual governo: ultraconservador nos costumes, privatistas até a medula. E se de fato ele for capaz de representar os interesses desse setor, teremos mais dificuldades daqui para frente, porque o pior ministro da história era também um incapaz, e isso fez com que sua capacidade de destruição fosse menor do que o seu discurso anunciava. Resta saber se agora, com esse pastor, o projeto de censura e silenciamento das universidades encontrará um interlocutor com alguma capacidade de realização. Não temos motivo nenhum para esperar que algo melhore nesse governo. Teremos um período de muitos desafios para nós, mas temos a convicção que a vida que pulsa na Universidade será capaz de conter o punitivismo retrógado e o desejo pela busca do conhecimento superará as tentativas de silenciamento. A dor educa, mas não como resultado da ação de quem deveria nos amar e proteger. A dor que educa é a que sofremos quando decidimos avançar mesmo diante do perigo. É aquela que nos impulsiona, que nos faz vivos e alertas. E será com ela que enfrentaremos os desafios que virão.

Diretoria da AdUFRJ

03WEB menor1137O pastor Milton Ribeiro tomou posse no cargo de ministro da Educação no dia 16 de julho. Ele é o quarto titular da pasta em um ano e meio de governo Bolsonaro. No discurso, Ribeiro lembrou o pedido do presidente: que olhasse “com carinho para a formação das crianças” e de professores. “Assumo publicamente o compromisso de que seguiremos esta orientação”, afirmou.
Ex-vice-reitor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, o ministro declarou que abrirá canal de diálogo com os educadores que, como ele, “estão entristecidos com o que vem acontecendo com a educação em nosso país”. E se comprometeu a fazer uma gestão baseada “nos valores constitucionais da laicidade do Estado e do ensino público”.
Ainda durante seu pronunciamento, desmentiu o vídeo em que aparece defendendo o castigo físico para crianças. “Jamais falei em violência física na educação escolar e nunca defenderei tal prática”, disse. “Entretanto, vale lembrar que devido à implementação de políticas e filosofias educacionais equivocadas, desconstruíram a autoridade do professor em sala de aula”.
A cerimônia contou com a participação remota do presidente Jair Bolsonaro, que ainda se recupera da Covid-19 e por isso está isolado no Palácio da Alvorada. No breve discurso, Bolsonaro afirmou que a experiência do ministro no Exército o ajudará a conduzir a pasta.
Diretor da AdUFRJ, o cientista político Josué Medeiros acredita que Bolsonaro achou um nome que congrega centrão, olavistas, militares e empresariado no MEC. “O discurso mostra que ele não está para briga, mas para conciliações”, avalia o professor. “Seu discurso não é de privatização, ninguém vai efetivamente vender as universidades públicas, mas há o interesse de abrir esses espaços para a lógica do mercado”.
Um dos principais riscos, para o docente, é o desmonte da frente ampla de defesa das universidades no Congresso. “Pode levar para perto do governo um setor da educação que estava agindo em oposição ao Weintraub”. Apesar do possível fortalecimento no Legislativo, Josué acredita que muitas ações não vão passar pelos parlamentares. “Há mecanismos prontos, como o Marco de Ciência e Tecnologia, que possibilitam políticas que não precisam de aprovação do Congresso. Há muita estrada já pavimentada nesse sentido”.

DEPUTADOS
QUEREM AUDIÊNCIA
As polêmicas declarações de Milton Ribeiro, que ilustram esta página, deixaram a sociedade e os parlamentares perplexos. Deputados querem saber se o novo titular do MEC levará essas controversas posições para o ministério, além dos seus planos para a área.
A deputada Margarida Salomão (PT-MG), presidente da Frente Mista Parlamentar Pela Valorização das Universidades Federais, conta que o grupo pretende realizar uma audiência virtual com Ribeiro. “Achamos que isso é importante para restabelecer as relações institucionais que devem existir entre o Parlamento e o MEC”, diz a parlamentar, que é ex-reitora da Universidade Federal de Juiz de Fora. “Temos a expectativa de que, mesmo tendo pontos de vista divergentes, possamos manter uma relação de diálogo a bem das universidades federais”.
Professor da Faculdade de Educação da USP, mesma instituição em que o ministro concluiu seu doutorado, o professor César Minto vê com desconfiança a nomeação do novo titular do MEC. “Eu acho a indicação muito preocupante, porque provavelmente ele tenha sido escolhido por ser ideológico. Alguém do time do presidente”, afirma.
Ele acredita que a sensibilidade da área é justamente o que a torna tão importante para a guerra cultural que o bolsonarismo quer promover. “É um ministério que trata da formação de pessoas, inclusive professores que formarão, por sua vez, profissionais para todas as áreas”, avalia.
Um dos principais desafios do ministro, para César Minto, será a disputa em torno do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb). “A Economia já deixou muito claro que não pretende investir em áreas sociais. O direcionamento que o ministro da Educação der para esta questão vai nos indicar qual será a tendência de sua gestão”.

FRASES DO MINISTRO

Castigo e disciplina
“A correção é necessária para a cura. Não vai ser obtida por meios justos e métodos suaves. Deve haver rigor e severidade. E vou dar um passo a mais, talvez algumas mães até fiquem com raiva de mim: deve sentir dor.”
Sermão em culto na Igreja Presbiteriana, em 2016, disponível em: https://youtu.be/fWipfiWZZLw

Pedofilia
“O que me preocupa é a erotização da criança, e a criança então com atitudes e com maneiras e trejeitos que ela vê e que ela imita provocando pessoas que entendem que a criança está querendo ter algum tipo de relacionamento com ela”.
Entrevista ao programa Ação e Reação, de 17/10/2013, disponível em https://youtu.be/fD26BdtcoSEfD26BdtcoSE

Sexo sem limites
“Se for feito com amor, tudo vale. Se você fez sexo com o seu vizinho, que é casado, com a sua vizinha, mas é feito com amor, tudo vale. É isso que eles estão ensinando aos nossos filhos na universidade”
Sermão em culto na Igreja Presbiteriana, em 2018, disponível em: https://youtu.be/fWipfiWZZLw

 Diálogo
“Queremos abrir um grande diálogo com os acadêmicos e educadores que, como eu, estão entristecidos com o que vem acontecendo com a educação do nosso país”.
Discurso de posse, dia 16/07/2020, disponível em https://youtu.be/YRIXNBOXBTA

Estado Laico
“Meu compromisso, que assumo hoje ao tomar posse, está bem firmado e bem localizado em valores constitucionais da laicidade do Estado e do ensino público. Assim, Deus me ajude”.
Discurso de posse, dia 16/07/2020, disponível em https://youtu.be/YRIXNBOXBTA

O perigoso novo Ministro da Educação

JOSUÉ MEDEIROS
Diretor da AdUFRJ

Pela Adufrj e Observatório do Conhecimento, fomos ao Congresso diversas vezes em 2019 e começo de 2020 articular contra Weintraub. Graças à força das ruas no 15 de maio de 2019, conseguimos formar uma frente ampla contra o ex-ministro.
Esquerda, centro-direita, direita liberal, Rodrigo Maia, toda a imprensa, toda a sociedade civil que atua na educação (movimentos sociais à esquerda + ONGs e institutos liberais). Eram todos contra o bolsonarismo orgânico de Weintraub. Conseguimos barrar muitos retrocessos. É justamente essa articulação que o novo ministro Milton Ribeiro tem o potencial de desfazer. Pior: seu discurso “técnico” (na posse defendeu o Estado Laico e o ensino público) pode organizar uma nova frente ampla, desta vez em torno de políticas neoliberais para a educação. Ele vai manter o olavismo no MEC e isso pode atrapalhar, mas não será o bolsonarismo que vai impedir uma efetividade neoliberal. Precisamos das ruas com o mesmo clima do 15M, para além da nossa bolha. E precisamos de muita inteligência e zero sectarismo nas articulações.

 O professor Alexander Kellner, diretor do Museu Nacional, é o convidado especial do Tamo Junto, um bate-papo promovido pela AdUFRJ todas as sextas-feiras.

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WEBABRE1137Não houve mesa decorada com flores. Nem o cerimonial solicitando aos presentes para desligar os celulares. Não havia nem plateia. O Festival do Conhecimento da UFRJ começou de forma bem diferente das tradicionais solenidades universitárias. Em vídeo gravado num esvaziado auditório do Theatro Municipal, somente a reitora Denise Pires de Carvalho e o vice reitor Carlos Frederico Leão Rocha fizeram uma saudação ao evento. E explicaram a simbologia do cenário, que seria usado para a celebração dos 100 anos da UFRJ, em setembro. “Pretendíamos fazer aqui uma comemoração. Isso não será possível por conta da pandemia”, explicou o professor. “Mas vai acontecer o Festival do Conhecimento. Pois a UFRJ continua a produzir e transmitir conhecimento”, completou. A afirmação não poderia ser mais verdadeira. Desde o dia 14, a instituição transferiu toda sua pujança cultural e científica para a web em dezenas de debates e shows. Acolhedora, a universidade também recebeu convidados ilustres, entre cientistas, ex-ministros e artistas, como a diva Elza Soares. E não acabou: a extensa programação prossegue até 24 de julho. A UFRJ vive!

CONHECIMENTO SE CONQUISTA COM MAIS AUTONOMIA

Preservar a autonomia, incluir mais alunos, garantir orçamento adequado e, na pandemia, fazer o melhor ensino remoto possível. A discussão dos desafios que a universidade pública brasileira precisa superar na atualidade abriu o Festival do Conhecimento da UFRJ , no dia 14.
“Somos conhecimento, solidariedade e presença. Nós não somos uma soma de salas de aula que oferece diplomas. Não somos também uma soma de laboratórios que produzem resultados”, afirmou o professor João Carlos Salles, presidente da associação nacional dos reitores (Andifes) e um dos convidados especiais da solenidade.
Reitor da Federal da Bahia, João Carlos enfatizou que a Academia está sendo atacada por incomodar práticas autoritárias. “Isso é evidente. A universidade tem histórico de luta por liberdades democráticas”.
“Mas temos desafios internos também”. O reitor chamou atenção para a necessidade de reinvenção das aulas no momento em que as atividades presenciais não são possíveis. Lembrou a necessidade de inclusão dos estudantes e de capacitação dos docentes. “Esse debate deve ser feito com transparência e responsabilidade”, disse. “Nossa continuidade de ações não pode ser feita de forma acrítica”, completou.

LEGISLAÇÃO
Reitor da Universidade Federal de Goiás e vice-presidente da Andifes, o professor Edward Madureira Brasil participou do encontro e comparou a situação de hoje com a de tempos não tão distantes assim. Edward registrou que, no  período entre 2006 e 2014, quando  também dirigiu a UFG, políticas públicas acertadas ampliaram o sistema de educação superior. “Somos uma geração de reitores marcada por este retrocesso e pela pandemia”, lamentou.
Para retornar àquele patamar, o reitor entende que alguns obstáculos da legislação devem ser removidos. “Se temos uma meta a perseguir, é conseguir mais autonomia para as universidades”, disse, diante dos recentes ataques, como a medida provisória nº 979. A normativa permitia ao governo Bolsonaro intervir nas reitorias.
O docente considera a Emenda Constitucional 95, do teto de gastos, como a norma mais nociva para o pleno desenvolvimento das universidades. Edward argumentou que a medida “revogou” o Plano Nacional de Educação ao congelar os investimentos do setor.
A atual ausência de um projeto de nação, reforçou a reitora Denise Pires de Carvalho, já tem como consequência a “evasão de cérebros”. “Não há saída para o Brasil se a Emenda Constitucional 95 continuar vigente”, afirmou, em referência à falta de investimentos em pesquisa e concursos públicos.
 O vice-reitor da UFRJ, professor Carlos Frederico Leão Rocha, destacou o desafio de promover a inclusão digital dos alunos da universidade até o início das aulas remotas, em 10 de agosto. “É fundamental garantir esse acesso”.

Com profunda tristeza, a AdUFRJ comunica o falecimento da professora Franciane Conceição Peters, do Programa de Engenharia Civil da Coppe. Franciane faleceu ontem, aos 38 anos, vítima de um câncer. A Pró-reitoria de Pesquisa e Pós-graduação divulgou nota sobre a perda: “Fran, como a chamávamos carinhosamente, era uma pessoa extremamente inteligente, competente, comprometida, além de divertida e companheira. Com certeza, deixará saudades em nossos corações”.

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