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A origem do Andes-SN  

Primeira mesa do evento realizado na UFF, em Niterói, resgata história da entidade e do sindicalismo no país

Elisa Monteiro. Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
 
“Onde estamos e para onde podemos ir dentro do embate em favor do projeto de educação que defendemos”. Assim o professor Josevaldo Cunha apresentou um curso de formação sindical promovido pelo Andes-SN, nos últimos dias 16 e 17, na Universidade Federal Fluminense, em Niterói (RJ). Foi o primeiro – de um total de cinco – que serão organizados nas cinco regiões do país, ainda no segundo semestre de 2013, conforme deliberado pelo 58º Conad da categoria (realizado em julho, em Santa Maria (RS)). Cunha, que é um dos coordenadores do Grupo de Trabalho de Formação Sindical do Andes-SN, considera a iniciativa como um dos reflexos da grande greve nacional do ano passado: “Houve um acréscimo quantitativo e qualitativo da participação dos docentes nas pautas”. 
 
No primeiro dia do evento, coube ao professor Paulo Rizzo contar um pouco da história do movimento docente: “Tudo começou com um pequeno cartaz, fixado por professores da USP, chamando para uma reunião de associações docentes durante uma SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência). Várias apareceram e alguns encontros nacionais foram realizados até no final de 1979, quando estourou a primeira greve nacional dos professores das federais. Havia uma polêmica sobre fundar ou não uma Associação Nacional dos Docentes de Ensino Superior, assim como, para alguns, não era momento de paralisações. Mas a greve nacional constrangeu esses setores”, explicou Rizzo, que é o encarregado de Relações Sindicais do Andes-SN.  
 
Quanto ao formato, a então recém-fundada entidade optou pela proposta de organização “por local de trabalho”: “Os servidores já estavam em lutas nas associações como se sindicatos fossem”, conta Rizzo. No caso dos docentes, Rizzo relatou que “não queriam construir um sindicato atrelado ao Estado; eles queriam uma organização nova. Uma estrutura horizontal contra a verticalidade da estrutura sindical foi majoritária”. E, depois da redemocratização, as associações docentes locais se converteram em seções sindicais. 
 
Antes do Sindicato Nacional
Antes do Andes-SN, Rizzo narrou que os sindicatos no Brasil surgiram no início do século XX a partir de “uma classe operária nova, formada sobretudo pelos imigrantes europeus , com grande influência anarquista”. Eram sindicatos livres, sem interferência do Estado, que travaram greves e outras lutas até o início dos anos de 1930. A partir desse período, “com o processo de modernização do Brasil, o capital passa a ter uma necessidade de disciplinamento da classe trabalhadora para deslanchar seu processo de acumulação”. 
 
Nesse contexto, o então presidente do Brasil, Getúlio Vargas, promove uma intensa repressão às organizações dos trabalhadores, “muitas delas jogadas na clandestinidade, com prisões, mortes e torturas”.  Por outro lado, tem início o “sindicalismo do Estado”, a partir de iniciativas como a criação da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), do Ministério do Trabalho, do estatuto padrão e do sistema confederativo: “É criada uma estrutura que vincula a organização ao próprio Ministério do Trabalho, que possui o direito de intervenção sobre sindicatos. O estatuto padrão significa que todos eram obrigados a seguir o sistema sindicato-federação-confederativo, portanto, uma estrutura verticalizada. O imposto sindical, que está ai até hoje, é uma contribuição obrigatória que tornou desnecessária a filiação de massa; não havia mais demanda pela sindicalização voluntária”, completou Rizzo.
 
Na visão do palestrante, no Brasil, “essa estrutura perdura até hoje, apesar de algumas mudanças”: “Até a ditadura, embora as centrais tenham sido proibidas, não se chegou a mexer (nesse sindicalismo de Estado) porque atendia aos interesses de acumulação”. 
Para o docente, os anos de 1970 foram um marco por representar a primeira tentativa de ruptura com o peleguismo: “É o primeiro grande movimento no Brasil de buscar romper com o sindicalismo de Estado e buscar novas formas de organização”, afirma. “E é desse processo que surge a Associação Nacional dos Docentes”. 
 
O papel do sindicato
O professor retomou as reflexões de Karl Marx para criticar uma compreensão “fragmentada” sobre o Sindicato. De acordo com ele, a especialização imposta à Academia contribui para uma leitura “priorista” e não relacionada com entidades de classe. “Qual é a função do sindicato?”, interrogou. “O sindicato, claro, tem uma função na luta por direitos. Mas ele também atua como mediador na relação social de troca da mercadoria/força de trabalho. Aquelas tabelas (para negociação salarial) que fazem muitos olhos brilharem com o salário que defendemos, na verdade, expressam nossa visão de valor de uso da mercadoria que é nosso trabalho”, defendeu. 

Debate analisa lutas de junho no Brasil

A explosão de massas nas ruas surgiu de uma fagulha que incendiou a pradaria e pôs a vida em movimento
 
Cidades Rebeldes, lançado pela Boitempo, expõe coletânea de textos sobre manifestações que agitaram o país
 
Da Redação
 
Carlos Vainer usou a imagem mais inspirada da noite, ao tentar traduzir as jornadas de junho: “Uma fagulha pode incendiar uma pradaria”, disse o professor do Ippur-UFRJ, citando Mao Tsé-Tung, em frase extraída de texto escrito em 1930. A analogia de Vainer serviu à argumentação de Mauro Iasi na reflexão de quinta-feira, 22, sobre a explosão das massas nas ruas do país. Iasi, professor da ESS-UFRJ, observou que o incêndio passou, mas as brasas se espalharam por aí, numa referência aos protestos que continuam acontecendo nas cidades – especialmente no Rio e São Paulo. 
 
O pretexto para a reunião que lotou o auditório do CFCH na Praia Vermelha foi o lançamento do livro Cidades Rebeldes.  Ele reúne 18 artigos de autores diversos que procuram entender o incêndio da “pradaria” Brasil.  Além de Carlos Vainer e Mauro Iasi, na mesa mediada pela professora Maria Malta, participaram os professores Felipe Brito (UFF) e Pedro Rocha (UniRio), todos com artigos incluídos na coletânea.
 
Os protestos de massa que varreram o país há dois meses estabeleceram uma ruptura com uma espécie de “apassivamento” (na definição de Mauro Iasi) presente, pelo menos nos últimos dez anos, na sociedade brasileira. A explicação para as causas que impulsionaram na direção dessa ruptura e os seus desdobramentos permanece como desafio.
 
Cidade vai às ruas
No artigo escrito para o livro da Boitempo, Carlos Vainer entrega logo no título o centro, digamos, de sua tese: “Quando a cidade vai às ruas”. Vainer procurou sintetizar o que diz o seu texto, ao estabelecer relação direta entre as transformações urbanas pelas quais o país está passando e as manifestações de junho.  “A cidade não foi só o palco, mas também objeto nessas manifestações”, defendeu. 
 
O professor destacou como outra característica “a multiplicidade” presente nos protestos e insistiu na dimensão urbana de suas motivações. “Estamos diante da cidade entregue aos megaeventos, a cidade mercantilizada, a cidade-mercadoria que se move e é planejada de acordo com os interesses dos grandes cartéis econômicos, em operações urbanas consorciadas”, disse.
 
Vainer fez um paralelo com outros momentos de manifestações na sociedade brasileira, quando descontentamentos, lutas, reivindicações e anseios se unificaram. Citou o movimento das Diretas Já, o Fora Collor, as lutas de 1968 e mobilizações antes do golpe de 64.
 
A ideologia
Mauro Iasi afirmou que as jornadas de junho quebraram a ordem nas cidades em busca de uma nova sociabilidade. Mauro Iasi reproduziu no debate o artigo “A rebelião, a cidade e a consciência”, com o qual contribuiu para a coletânea da Boitempo. No texto, o professor observa que “(...) a cidade é a forma reificada das relações capitalistas, mas também do amadurecimento das constradições que lhes são próprias”. As jornadas de junho, segundo ele, quebraram a ordem nas cidades em busca de uma nova sociabilidade.
 
Ao perguntar-se por que a “explosão da ordem” demorou tanto a ocorrer, o professor disse que ideologia dominante tem a capacidade de expor como interesse coletivo o que é interesse particular, em fazer prevalecer o interesse de classe como se fosse interesse universal. Mas, em junho, segundo Iasi, houve uma espécie de transbordamento que “o dique” da ideologia “burguesa” não foi capaz de conter.
 
Coerção
Felipe Brito (UFF) e Pedro Rocha de Oliveira (Unirio) escreveram juntos para o livro da Boitempo o texto “Territórios transversais”. O texto procura abordar “a dimensão coercitiva, policial e punitiva” com a qual a sociedade capitalista procura responder à sua crise estrutural, destacou Felipe Brito. Eles recordam, no artigo publicado na coletânea, “o matraquear dos helicópteros e das armas automáticas que sacudiu a Comunidade da Nova Holanda, no Complexo da Maré”. O fato ocorreu entre os dias 24 e 25 de julho, como desfecho da repressão a uma manifestação no dia anterior. Os autores chamam atenção para “a regulação social sob os auspícios das armas".
 
130826126Cidades Rebeldes
Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil, editado pela Boitempo (114 páginas, R$10).

A explosão de massas nas ruas surgiu de uma fagulha que incendiou a pradaria e pôs a vida em movimento
 
Cidades Rebeldes, lançado pela Boitempo, expõe coletânea de textos sobre manifestações que agitaram o país
 
Da Redação
 
Carlos Vainer usou a imagem mais inspirada da noite, ao tentar traduzir as jornadas de junho: “Uma fagulha pode incendiar uma pradaria”, disse o professor do Ippur-UFRJ, citando Mao Tsé-Tung, em frase extraída de texto escrito em 1930. A analogia de Vainer serviu à argumentação de Mauro Iasi na reflexão de quinta-feira, 22, sobre a explosão das massas nas ruas do país. Iasi, professor da ESS-UFRJ, observou que o incêndio passou, mas as brasas se espalharam por aí, numa referência aos protestos que continuam acontecendo nas cidades – especialmente no Rio e São Paulo. 
 
O pretexto para a reunião que lotou o auditório do CFCH na Praia Vermelha foi o lançamento do livro Cidades Rebeldes.  Ele reúne 18 artigos de autores diversos que procuram entender o incêndio da “pradaria” Brasil.  Além de Carlos Vainer e Mauro Iasi, na mesa mediada pela professora Maria Malta, participaram os professores Felipe Brito (UFF) e Pedro Rocha (UniRio), todos com artigos incluídos na coletânea.
 
Os protestos de massa que varreram o país há dois meses estabeleceram uma ruptura com uma espécie de “apassivamento” (na definição de Mauro Iasi) presente, pelo menos nos últimos dez anos, na sociedade brasileira. A explicação para as causas que impulsionaram na direção dessa ruptura e os seus desdobramentos permanece como desafio.
 
Cidade vai às ruas
No artigo escrito para o livro da Boitempo, Carlos Vainer entrega logo no título o centro, digamos, de sua tese: “Quando a cidade vai às ruas”. Vainer procurou sintetizar o que diz o seu texto, ao estabelecer relação direta entre as transformações urbanas pelas quais o país está passando e as manifestações de junho.  “A cidade não foi só o palco, mas também objeto nessas manifestações”, defendeu. 
 
O professor destacou como outra característica “a multiplicidade” presente nos protestos e insistiu na dimensão urbana de suas motivações. “Estamos diante da cidade entregue aos megaeventos, a cidade mercantilizada, a cidade-mercadoria que se move e é planejada de acordo com os interesses dos grandes cartéis econômicos, em operações urbanas consorciadas”, disse.
 
Vainer fez um paralelo com outros momentos de manifestações na sociedade brasileira, quando descontentamentos, lutas, reivindicações e anseios se unificaram. Citou o movimento das Diretas Já, o Fora Collor, as lutas de 1968 e mobilizações antes do golpe de 64.
 
A ideologia
Mauro Iasi afirmou que as jornadas de junho quebraram a ordem nas cidades em busca de uma nova sociabilidade. Mauro Iasi reproduziu no debate o artigo “A rebelião, a cidade e a consciência”, com o qual contribuiu para a coletânea da Boitempo. No texto, o professor observa que “(...) a cidade é a forma reificada das relações capitalistas, mas também do amadurecimento das constradições que lhes são próprias”. As jornadas de junho, segundo ele, quebraram a ordem nas cidades em busca de uma nova sociabilidade.
 
Ao perguntar-se por que a “explosão da ordem” demorou tanto a ocorrer, o professor disse que ideologia dominante tem a capacidade de expor como interesse coletivo o que é interesse particular, em fazer prevalecer o interesse de classe como se fosse interesse universal. Mas, em junho, segundo Iasi, houve uma espécie de transbordamento que “o dique” da ideologia “burguesa” não foi capaz de conter.
 
Coerção
Felipe Brito (UFF) e Pedro Rocha de Oliveira (Unirio) escreveram juntos para o livro da Boitempo o texto “Territórios transversais”. O texto procura abordar “a dimensão coercitiva, policial e punitiva” com a qual a sociedade capitalista procura responder à sua crise estrutural, destacou Felipe Brito. Eles recordam, no artigo publicado na coletânea, “o matraquear dos helicópteros e das armas automáticas que sacudiu a Comunidade da Nova Holanda, no Complexo da Maré”. O fato ocorreu entre os dias 24 e 25 de julho, como desfecho da repressão a uma manifestação no dia anterior. Os autores chamam atenção para “a regulação social sob os auspícios das armas".
 
130826126Cidades Rebeldes
Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil, editado pela Boitempo (114 páginas, R$10).

A explosão de massas nas ruas surgiu de uma fagulha que incendiou a pradaria e pôs a vida em movimento
 
Cidades Rebeldes, lançado pela Boitempo, expõe coletânea de textos sobre manifestações que agitaram o país
 
Da Redação
 
Carlos Vainer usou a imagem mais inspirada da noite, ao tentar traduzir as jornadas de junho: “Uma fagulha pode incendiar uma pradaria”, disse o professor do Ippur-UFRJ, citando Mao Tsé-Tung, em frase extraída de texto escrito em 1930. A analogia de Vainer serviu à argumentação de Mauro Iasi na reflexão de quinta-feira, 22, sobre a explosão das massas nas ruas do país. Iasi, professor da ESS-UFRJ, observou que o incêndio passou, mas as brasas se espalharam por aí, numa referência aos protestos que continuam acontecendo nas cidades – especialmente no Rio e São Paulo. 
 
O pretexto para a reunião que lotou o auditório do CFCH na Praia Vermelha foi o lançamento do livro Cidades Rebeldes.  Ele reúne 18 artigos de autores diversos que procuram entender o incêndio da “pradaria” Brasil.  Além de Carlos Vainer e Mauro Iasi, na mesa mediada pela professora Maria Malta, participaram os professores Felipe Brito (UFF) e Pedro Rocha (UniRio), todos com artigos incluídos na coletânea.
 
Os protestos de massa que varreram o país há dois meses estabeleceram uma ruptura com uma espécie de “apassivamento” (na definição de Mauro Iasi) presente, pelo menos nos últimos dez anos, na sociedade brasileira. A explicação para as causas que impulsionaram na direção dessa ruptura e os seus desdobramentos permanece como desafio.
 
Cidade vai às ruas
No artigo escrito para o livro da Boitempo, Carlos Vainer entrega logo no título o centro, digamos, de sua tese: “Quando a cidade vai às ruas”. Vainer procurou sintetizar o que diz o seu texto, ao estabelecer relação direta entre as transformações urbanas pelas quais o país está passando e as manifestações de junho.  “A cidade não foi só o palco, mas também objeto nessas manifestações”, defendeu. 
 
O professor destacou como outra característica “a multiplicidade” presente nos protestos e insistiu na dimensão urbana de suas motivações. “Estamos diante da cidade entregue aos megaeventos, a cidade mercantilizada, a cidade-mercadoria que se move e é planejada de acordo com os interesses dos grandes cartéis econômicos, em operações urbanas consorciadas”, disse.
 
Vainer fez um paralelo com outros momentos de manifestações na sociedade brasileira, quando descontentamentos, lutas, reivindicações e anseios se unificaram. Citou o movimento das Diretas Já, o Fora Collor, as lutas de 1968 e mobilizações antes do golpe de 64.
 
A ideologia
Mauro Iasi afirmou que as jornadas de junho quebraram a ordem nas cidades em busca de uma nova sociabilidade. Mauro Iasi reproduziu no debate o artigo “A rebelião, a cidade e a consciência”, com o qual contribuiu para a coletânea da Boitempo. No texto, o professor observa que “(...) a cidade é a forma reificada das relações capitalistas, mas também do amadurecimento das constradições que lhes são próprias”. As jornadas de junho, segundo ele, quebraram a ordem nas cidades em busca de uma nova sociabilidade.
 
Ao perguntar-se por que a “explosão da ordem” demorou tanto a ocorrer, o professor disse que ideologia dominante tem a capacidade de expor como interesse coletivo o que é interesse particular, em fazer prevalecer o interesse de classe como se fosse interesse universal. Mas, em junho, segundo Iasi, houve uma espécie de transbordamento que “o dique” da ideologia “burguesa” não foi capaz de conter.
 
Coerção
Felipe Brito (UFF) e Pedro Rocha de Oliveira (Unirio) escreveram juntos para o livro da Boitempo o texto “Territórios transversais”. O texto procura abordar “a dimensão coercitiva, policial e punitiva” com a qual a sociedade capitalista procura responder à sua crise estrutural, destacou Felipe Brito. Eles recordam, no artigo publicado na coletânea, “o matraquear dos helicópteros e das armas automáticas que sacudiu a Comunidade da Nova Holanda, no Complexo da Maré”. O fato ocorreu entre os dias 24 e 25 de julho, como desfecho da repressão a uma manifestação no dia anterior. Os autores chamam atenção para “a regulação social sob os auspícios das armas".
 
130826126Cidades Rebeldes
Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil, editado pela Boitempo (114 páginas, R$10).

Condições ruins de trabalho e salários baixos afetam qualidade do ensino, mas Secretaria Municipal de Educação do Rio ainda cobra “produtividade”
 
Categoria desenvolve doenças em função do desgaste
 
Rodrigo Ricardo. Especial para o Jornal da Adufrj
 
Enquanto aguarda o desfecho de reunião entre o prefeito Eduardo Paes e representantes do Sindicato Estadual dos Profissionais de Educação (Sepe), ao lado de outros dez mil colegas, sob o sol da última sexta (23), o professor André Ciraudo, de Música, compra uma garrafa de água (R$ 3) com uma nota de R$ 50. O jovem ambulante coça a cabeça, folheia as notas, olha encabulado o cliente e lhe dá um troco de R$ 67. A diferença é devolvida e Ciraudo analisa a cena para além de um erro de contas. “Nossos jovens não estão sendo educados para raciocinar. Querem que eles somente apertem botões”, acredita o docente, que trabalha há 13 anos na rede municipal e leciona na Escola Martin Luther King, na Praça da Bandeira. 
 
A crítica às condições de trabalho ruins aparece em seguida: “Estou sem sala de aula e instrumentos musicais. Venho fazendo um trabalho de ritmo com os alunos, onde usamos o corpo, com palmas e estalos de boca”, descreve André. Critica, ainda, os métodos de avaliação da Secretaria Municipal de Educação (SME) e cartilhas pedagógicas como a “Fórmula da Vitória”: “Absurdo. O aluno se tornou uma mercadoria e a avaliação se resume a números. Essa lógica empreendedora da SME coloca, no fim, professor contra professor”.
 
A competição dentro da categoria
O Plano de Metas e de Produtividade, que gera uma espécie de 14º salário aos servidores que alcançam os resultados estipulados, está longe de ser um consenso entre os educadores. “Trata-se de uma competição não saudável e desigual, porque as condições não são as mesmas”, enfatiza a professora Suelen Veloso, de Educação Física. Ela recorda que escolas dentro de comunidades, por exemplo, às vezes ficam dias fechadas por conta dos conflitos entre tráfico e polícia: “Cria-se uma guerra que contraria a finalidade do Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação). Esse dinheiro deveria ser utilizado na qualidade global da rede”.
 
Com menos de um ano no funcionalismo, Suelen ignorou as ameaças do poder municipal de cortar o ponto dos efetivos e demitir os que ainda cumprem o estágio probatório. “Não me amedrontei. Isto foi uma tentativa de enfraquecer o movimento”, afirma a professora, de 29 anos, que trabalha na Escola Lia Braga, em Guadalupe. “As minhas condições de trabalho não são ruins, mas precisamos pensar na situação de outros colegas”. 
 
130826102Declaração do prefeito de que abriria os cofres públicos para o cineasta Woody Allen é ironizada em todos os atos. Foto: Samuel Tosta 20/08/2013Em Irajá, na Escola Barcelona, a quadra está sem cobertura; os ventiladores, quebrados; e o reboco das paredes vem caindo dentro das salas. “O material pedagógico que tenho é mínimo. Para você ter uma ideia, tenho uma bola de handebol que uso para o queimado, o basquete e o futebol....”, denuncia Rafael Silvano, recém-concursado que tomou posse no cargo há três meses. “Não é por que, na hora do concurso, sabíamos dos salários (R$ 1,4 mil) que vamos deixar de brigar para sermos mais valorizados. A gente fica com medo das ameaças, mas permanecemos na luta por entendê-la legítima”.
 
Outra experiência contestada pelos professores é a chamada Prova Rio para os estudantes do ensino fundamental, organizada em conjunto com o Centro de Seleção e Promoção de Eventos (Cespe/UnB). Muitos a definem como “um vestibularzinho”, no qual os alunos vêm sendo moldados para fazer exames. Para a professora Maria do Socorro Tabosa, de Matemática , os testes são injustos. “Eles não refletem se o aluno aprendeu ou não. Na múltipla escolha, quem não estudou pode contar com a sorte e o que se dedicou pode ficar nervoso e se dar mal”, acredita Tabosa que, aos 66 anos, ainda pode ser vista à frente das turmas da Escola Dom Pedro I, na Barra da Tijuca. “Após 25 anos me aposentei para ganhar R$ 2,7 mil. Fiz concurso novamente e voltei para essa rotina desgastante. O relacionamento professor-aluno não é nada fácil. Ao longo do tempo, muitos colegas desenvolvem doenças. Tenho um que há dois anos está afastado das salas e terá que ser readaptado por ter desenvolvido a Síndrome de Burnout (esgotamento físico e mental ligado à profissão)”. 
 
Apoio dos professores do CAp-UFRJ
Assim como os docentes da Faculdade de Educação da UFRJ já haviam feito há alguns dias, os colegas do Colégio de Aplicação da universidade também manifestaram apoio à greve dos educadores das redes municipal e estadual do Rio. Segundo nota produzida em reunião naquela Unidade (no dia 20) e divulgada no perfil da Adufrj-SSind no Facebook, “a luta pela educação nessas respectivas redes é justa, necessária e de todos nós!”.
 
“Reivindicar um plano de carreira que dê dignidade de vida aos professores e ao pessoal de apoio técnico e administrativo e atividades afins; a destinação de 1/3 da carga horária para que o professor possa dedicar-se ao planejamento de suas aulas; condições de trabalho adequadas em suas escolas, inclusive no que se refere à infraestrutura dos prédios; assim como lutar pela autonomia docente em sua atuação político-pedagógica – o que inclui dar fim às ações que tenham como princípio a feroz meritocracia –, é mais que relevante, é urgente, pois, sem ela, é o próprio direito social à educação que é negado às crianças e jovens das respectivas redes”, diz outro trecho da nota.
 
Próximos passos do movimento grevista
Neste dia 26, os professores da rede municipal voltam a se reunir em assembleia para avaliar a reunião com a Prefeitura ocorrida na sexta (23) e decidir se continuam em greve. A rede estadual promove passeata, da Cinelândia à Alerj, no dia 27

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