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WEBTHAISThaís Aguiar
 Chefe do Departamento de Ciência Política IFCS

Jornal da AdUFRJ – Como é estar à frente do Departamento de Ciência Política numa conjuntura de tantos ataques às Ciências Sociais?

Primeiro, é uma honra. Nem todas as universidades têm um curso de 80 anos. E estamos numa universidade centenária, que é a UFRJ, uma das maiores do Brasil. É uma responsabilidade, também, manter o departamento à altura da qualidade e do prestígio da UFRJ, nesta conjuntura totalmente desfavorável à produção de conhecimento e à manutenção da universidade. Um bacharelado que já teve grandes nomes das Ciências Sociais, com gente do quilate de Darcy Ribeiro, Vitor Nunes Leal, José Américo Peçanha, Wanderley Guilherme dos Santos e tantos outros. É um momento em que vivemos a necessidade de nos defender de tantos ataques, de campanha de difamação por parte de setores do governo que voltam a sociedade contra nós, num ambiente de escassez de recursos econômicos e de desmonte da universidade pública, gratuita e democrática.

- O momento político no Brasil e na América do Sul traz um desafio maior à Ciência política?

Com certeza. Esses ataques contra as Ciências Sociais não são gratuitos. Eles têm relação com uma onda anti-intelectualista, contrária à produção e difusão do conhecimento. E isso não é uma peculiaridade brasileira, nem latino-americana. É mundial. Trata-se de um ataque ao avanço da democracia real, da democratização da sociedade. Pensando especificamente na Ciência Política, é de sua natureza analisar criticamente as formas de poder, as formas de arbítrio; questionar a prática das instituições; pensar as formas de governo. E isso desafia muito as forças conservadoras, neoconservadoras e neofascistas. Se a gente está num ambiente de avanço do neoliberalismo e de um capitalismo financeiro contra as forças de democratização, a gente tem que lembrar que historicamente as Ciências Sociais tratam de assuntos pouco mercantilizados e pouco domáveis por parte do poder. Prestam-se menos às formas de mercantilização do saber.

- Daí a necessidade de silenciar estas áreas...

De deslegitimar, calar, difamar, de sufocar qualquer voz crítica a essas forças neoconservadoras.

- Muitos críticos apontam que as ciências ditas “duras” conseguem captar mais recursos financeiros porque apresentam produtos mais palpáveis à sociedade. Como reflexo desse pensamento, o governo chegou a anunciar redução de investimentos nas Humanidades. Como combater esse pensamento?

É uma visão utilitária e mercantilista do que é ciência, do que é saber, do que é conhecimento. As Ciências Sociais não devem se prestar a essa função. Essa visão de que as Ciências Sociais trazem pouco retorno social é estreitíssima e está vinculada a esta guerra cultural estabelecida por forças neoconservadoras, neoliberais, contra tudo aquilo que põe em perigo o status quo. As Ciências Sociais precisam estar, mais do que antes, engajadas e sintonizadas com as demandas da sociedade. É preciso desvelar o que tem por trás de discursos que deslegitimam e que querem pensar as Ciências Sociais sob o ponto de vista utilitarista. Talvez, nos últimos anos, a universidade tenha se entregado a processos de quantificação do saber, de metas e de certa maneira, absorveu critérios típicos de ambientes empresariais. E, cedendo a essas pressões, tenha se distanciado um pouco da sociedade. É um momento de pensarmos criticamente sobre o nosso papel e sobre como, nesse ambiente de difamação, podemos evidenciar nossa estreita relação com a sociedade. Estamos enfrentando forças muito aterradoras e as Ciências Sociais precisam manter o seu prumo que sempre foi o de analisar a sociedade, pensar criticamente as formas de governo. Nada mostra melhor a importância das Ciências Sociais e Políticas hoje do que a série de revoltas, de protestos, de insatisfação e descontentamento da sociedade pela América Latina e pelo mundo com as forças institucionais, com as forças de poder, contra uma certa maneira de atuar do Estado. Se olharmos para isto, se torna evidente a importância e o retorno social que as Ciências Sociais podem oferecer. De que adianta termos sociedades “altamente” desenvolvidas em termos macroeconômicos, se são sociedades conturbadas, revoltadas e vítimas de doenças emocionais e mentais, depressivas? Tudo isso fala das formas de atuação do Estado.

- Temos um tecido social cada vez mais degradado...

Muito. Este é um momento de acirramento de desigualdades comparado ao século XIX, de avanço da barbárie. De louvor à tortura e à censura, de elogio à ignorância e de cultivo dos afetos mais passivos da sociedade. Então, o papel das Ciências Sociais é enorme, de fazer com que a sociedade e suas instituições consigam resgatar a consciência reflexiva sobre si mesmos e buscar o caminho da emancipação, da igualdade, da democracia.

- Nosso país fez uma transição democrática marcada pela Constituição Cidadã, mas que vem sendo desidratada nos últimos anos.

Agora o que a gente vive é justamente o ataque a esta Constituição de 1988. Ela está sendo totalmente desfigurada. Se ela já tinha dificuldades de se manter para além da letra da lei, ou seja, efetivar toda promessa, toda esperança que ela incutiu na sociedade, o desafio maior é agora, em que a gente não está mais nos padrões de desenvolvimento capitalista, como estava na década de 80. Alguns estudiosos dizem que o capitalismo não tem mais perspectiva de atingir altos patamares crescimento econômico como no século XX. O que fazemos diante deste quadro? Ou a gente faz uma divisão real dos recursos, com formas de governo mais democratizadoras, ou o capitalismo tal qual é hoje segue produzindo mais desigualdade e colapso social. Há estudiosos que apontam a necessidade de reformular o Estado de bem-estar social. Isto demanda formas de profunda articulação democrática na sociedade e é isto que as forças neoliberais e neoconservadoras querem frear.

- As Ciências Sociais completaram 80 anos na UFRJ, mas seu debate segue atual. A sociedade e a própria universidade precisam defender mais a área?

Por que é atual? As Ciências Sociais são de suma importância, principalmente num país como o nosso, com instituições jovens, com uma democracia muito incipiente e com desigualdades gritantes. O currículo da UFRJ, ao longo dessas décadas, passou por modificações e acompanhou o movimento e as demandas da sociedade. Por um tempo, por exemplo, havia forte presença da economia no currículo. Isso mudou ao longo das décadas, conforme as demandas sociais foram se colocando. Então, essa necessidade de atualidade e o cenário político interpelam as Ciências Sociais ao mesmo tempo em que as Ciências Sociais interpelam o mundo em que estamos vivendo. Precisamos disso para não reproduzirmos formas perversas de poder, formas autoritárias de governo, formas degradantes de vida social.

- É uma defesa desse tecido social?

Sim. Sobretudo das classes menos favorecidas.

- Resumiria que esta é a função das Ciências Sociais?

Se não é, deveria ser. A universidade, no Brasil, sempre teve um comprometimento social. Esse prédio aqui, os professores que estiveram aqui durante a ditadura, a evidência da importância deles para o pensar social era enorme. Tanto que eles eram perseguidos. Tanto que as forças autoritárias da ditadura estavam circulando aqui dentro e reprimindo. A gente precisa manter esse espírito de defesa social. E quando falo social, eu falo, sobretudo, pensando naqueles que têm “aparentemente” menos poder, que são as classes mais pobres. Se a universidade não estiver atenta a este segmento, pensando as formas de Estado, de governo, pensando a produção de políticas públicas, compreendendo os processos de desigualdade que vigoram nesta sociedade, quem vai estar? É aí que está o papel das Ciências Sociais, se conjugando sempre a outras áreas do saber.

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