facebook 19
twitter 19
andes3

Alexandre Medeiros e Ana Beatriz Magno

ENTREVISTA I FRANCISCO CARLOS TEIXEIRA, PROFESSOR TITULAR APOSENTADO DE HISTÓRIA MODERNA E CONTEMPORÂNEA DA UFRJ E PROFESSOR EMÉRITO DA ESCOLA DE COMANDO E ESTADO-MAIOR DO EXÉRCITO (ECEME)

francisco carlos teixeira da silvaProfessor Francisco Carlos Teixeira - IMAGEM: REPRODUÇÃOProfessor do Instituto de História da UFRJ, Francisco Carlos Teixeira tem longa convivência com os círculos militares. Foi assessor do Ministério da Defesa e do Gabinete de Segurança Institucional. Generais e almirantes hoje em postos de comando foram seus orientandos de mestrado e doutorado na Escola de Comando e Estado-Maior do Exército ou seus alunos na Escola Superior de Guerra. Nesta entrevista, ele fala sobre a maior crise militar da história do país, com a demissão do ministro da Defesa e dos comandantes das Forças Armadas, da “fábrica” de crises e do ímpeto autoritário do presidente Jair Bolsonaro.

Jornal da AdUFRJ - A decisão do presidente Jair Bolsonaro de criar essa crise com os militares às vésperas do dia 31 de março foi só uma coincidência?
Francisco Carlos Teixeira - Não foi uma coincidência. Na verdade, essa crise militar não tem uma causa só. Mas o fato desencadeador foi a pressão de Bolsonaro sobre o ministro Fernando de Azevedo e Silva para que ele “bombasse” uma nota das Forças Armadas, e talvez até promovendo uma parada, um desfile no 31 de março e o Fernando e o Pujol (general Edson Leal Pujol, ex-comandante do Exército) terem se recusado. Essa crise ter se desencadeado no 31 de março é, portanto, muito significativo.

O senhor não acha que, vencendo a queda de braço com os comandantes militares, Bolsonaro poderia ter provocado uma Ordem do Dia mais dura do que a que foi divulgada pelo novo ministro da Defesa, general Walter Braga Netto?
A nota não deveria nem existir. Nós deveríamos transformar o 31 de março num dia em honra à democracia, aos mortos e aos desaparecidos. Se é para fazer alguma coisa no dia 31 de março, essa tinha que ser a tônica. Mas sempre houve, por parte dos militares, uma nota celebratória do 31 de março pela visão das Forças Armadas. E essa Ordem do Dia era lida dentro dos quartéis. Eles nunca deixaram de comemorar o 31 de março, nem mesmo nos governos de esquerda, como o de Lula. Mas, em geral, era uma coisa muito discreta. Eles foram se assanhando a partir do governo Temer e, este ano, era para ser algo com muita pompa por causa do Bolsonaro. Mas deu esse chabu. A nota emitida foi muito contida mesmo, e isso deve ter desagradado profundamente o Bolsonaro. Com certeza, ele queria uma coisa glorificadora.

A nota fala até em democracia. Foi uma nota hesitante?
Sim, a nota fala que o movimento dependeu da conjuntura, em celebração, em pacificação, entre outras coisas inaceitáveis. Mas, na verdade, a nota mostra uma diferença ou, pelo menos, uma autonomia das Forças Armadas em relação ao que o Bolsonaro pretendia fazer. Daí a irritação muito grande dele, principalmente contra o Pujol. Essa nota passou pelo alto-comando do Exército, é uma nota de consenso. O Braga Netto pegou essa nota praticamente pronta, ele assina porque é o ministro, mas ela vem do alto-comando, que é composto por 17 generais da ativa, sendo 16 generais de Exército, mais o comandante.  

Qual a sua visão sobre o general Braga Netto?
É um general respeitável do Exército brasileiro. Foi destacado para fazer a intervenção fedral no Rio de Janeiro. Mas qual foi o resultado dessa intervenção? Foi durante a intervenção que a vereadora Marielle Franco e seu motorista Anderson Gomes foram assassinados. Qual a prestação de contas que o general Braga Netto deu a respeito da morte da Marielle? Por que ele vai para dentro do palácio presidencial após a eleição de Bolsonaro? Por que, no meio da crise militar mais aguda da Nova República, ele é nomeado ministro da Defesa para controlar essa crise? Por que a Polícia Civil do Rio de Janeiro até hoje não requisitou os dados da inteligência da intervenção do Exército sobre a morte da Marielle. São perguntas que me faço.   

Da forma como foi feita, a saída coletiva dos comandantes de Exército, Marinha e Aeronáutica é inédita. O senhor vê paralelo com a demissão, em 1977, do então ministro do Exército, Sylvio Frota, pelo presidente Ernesto Geisel?
Algumas pessoas têm feito essa comparação, ou mesmo com a queda do Viegas em 2004 (José Viegas Filho, diplomata e ministro da Defesa no governo Lula em 2003 e 2004). Cada crise tem seu desenrolar. E essa agora é muito original porque ela é provocada pelo presidente da República. É ele que provoca a crise, por isso é inédita. As crises anteriores sempre foram contra os presidentes da República.

Mais uma crise provocada pelo Bolsonaro, não é?
Há um historiador inglês, Ian Kershaw (autor de várias obras sobre Adolf Hitler e um dos principais estudiosos do nazismo, do fascismo e das ditaduras), que fala que alguns ditadores só conseguem governar através de crises. É o que ele chama de radicalização cumulativa. Esses ditadores mantêm suas bases coesas de crise em crise. O estilo do Bolsonaro é o de gerar crises. Esse é seu processo. Se ele mantiver um governo minimanente organizado, administrando a pandemia, o desemprego e a fome que volta ao país, ele vai ter que apresentar resultados. Como ele não tem resultados para apresentar, ele governa gerando crises. Nós estamos há vários dias discutindo generais e patentes enquanto a pandemia está matando três mil ou mais pessoas por dia. Isso é vergonhoso.

A crise militar gerada por Bolsonaro é também uma crise de autoridade nas Forças Armadas? Não parece que ele está mandando um recado para as baixas patentes retirando comandantes que não lhe agradam em instituições que são marcadas pela hierarquia, criando uma fenda, uma divisão?  
Essa crise favorece Bolsonaro. Não sou daqueles que acham que ele está fraco, acuado ou para cair. Eu acho que isso é projeção do próprio desejo. Ele não enfrentaria as Forças Armadas se ele estivesse fraco. Ele já sabia que o alto-comando não o apoiava mais. Ele não esperou para ver o resultado disso, ele foi lá e atacou. Ele dividiu a alta oficialidade, da qual sempre teve uma desconfiança, das baixas patentes. Afinal de contas, ele foi expulso do Exército como tenente, só foi a capitão por causa da reforma. Ele nunca gostou da alta oficialidade, essa nunca foi a sua turma. Ele falou para baixo, para a turma dele. Ele cravou uma cunha no meio das Forças Armadas.

Além dessa turma de baixas patentes, Bolsonaro tem forte influência também entre policiais federais, civis e militares. Isso não é um risco para quem tem inclinações autoritárias?
Bolsonaro continua sendo o mito para cabos, sargentos, soldados. E ele tem fortíssimo apoio nas polícias militares. As PMs têm hoje no Brasil 430 mil homens armados. Isso é muito mais do que o conjunto do Exército, que tem 290 mil homens de tropa, entre os quais 70 mil recrutas. O equipamento efetivo para a luta não é totalmente utilizável, algumas avaliações dão conta de que não temos condições de suportar mais do que algumas horas de combate. As PMs estão muito mais bem equipadas e preparadas para um tipo de combate próprio a um golpe de estado ou um levante, que é o combate de rua. Não é combate de selva, batalha naval, bombardeio aéreo. São 430 mil homens das PMs e 411 mil das guardas municipais. Sendo que das 26 cidades que têm Guarda Municipal, 19 são armadas.  

Bolsonaro tentou emplacar esta semana, em regime de urgência, um projeto que lhe dava amplos poderes, inclusive o controle das polícias militares dos estados. Seria como institucionalizar esse “exército” paralelo?
Ele já avisou que só perde a eleição em 2022 se houver fraude, à la Trump. Isso é uma ameaça terrível à democracia. E também já disse que, quando terminar o mandato, ele e sua família vão ter que sair do Brasil, porque sabe que vai ser preso. Essas duas coisas juntas criam um clima extremamente ruim para a democracia. Eu acho que a gente às vezes banaliza a questão do estado de sítio ou de defesa, que para vigorarem devem ser aprovados pelo Congresso. Tenho um bom diálogo com almirantes e generais, muitos deles meus alunos na Eceme. Não acho, nas condições atuais, que militares em comando tenham intenção de apoiar um golpe. Vejo alguns militares da reserva, como o general Heleno (Augusto Heleno, chefe do Gabinete de Segurança Institucional), tramando dentro do Palácio do Planalto. O general Heleno é uma das pessoas mais nefastas da Nova República. Ele era o capitão oficial do gabinete do Sylvio Frota, ele conspirou contra o Geisel, contra a abertura política. Ele conspirava contra generais na ditadura. É um golpista.

Mas se os militares em comando não apoiariam qualquer tentativa de golpe, pode-se dizer o mesmo desse “exército paralelo” de policiais?
O grande risco hoje no Brasil é a via boliviana. Corremos o risco de repetir aqui o que ocorreu na Bolívia, como já se esboçou no Ceará e, há poucos dias, na Bahia. Estabelecida a desordem, com a Polícia Militar amotinada, vem o segundo passo: as Forças Armadas são obrigadas a ir para as ruas para o pretenso restabelecimento da ordem. Foi isso que aconteceu na Bolívia, quando milícias e polícias atacaram o Congresso e as instituições de esquerda, e aí o Exército foi para a rua, mas já com o Congresso fechado, com os deputados de esquerda presos ou refugiados no exterior. Se esse cenário se repetisse aqui, no Ceará ou na Bahia, os dois governadores, que são de oposição, já estariam depostos. A história é totalmente indeterminada, não é possível prever se a via boliviana ocorrerá aqui. Mas há o risco.

Como a oposição pode fazer frente a essas ameaças?
A gente não tem hoje uma oposição articulada para enfrentar uma situação crítica como essa. Há desde gente achando que o Bolsonaro está fraco e pronto para cair até pessoas que acreditam que ele saiu mais fortalecido dessa crise militar. É muito difícill unir a oposição. O fato de a gente não conseguir reunir um grupo para fazer uma vigília, de máscara, na porta do Ministério da Saúde, é uma vergonha. Estamos sendo massacrados por um genocida sem reação. Parece que estamos vivendo num conto de realismo fantástico.

Topo