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WhatsApp Image 2020 10 02 at 19.33.58A velha imagem da chegada da primavera, trazendo um novo ciclo de vida, restaurando forças e energias parece que ficou comprometida demais pelo espetáculo de horror que o incêndio no Pantanal provocou em todos nós nesse fim de setembro. O levantamento inicial não poderia ser mais desanimador: podemos chegar a ¼ do território queimado. Mal nos demos conta da proporção gigantesca de nossas perdas, da irreversibilidade de muitas delas, e do quanto será custoso recuperar a diversidade da vida pantaneira, e lá se vai mais um ícone que nos alimentou nas últimas décadas com tanta delicadeza, inteligência e humor. Aos 88 anos, o genial Quino, criador da Mafalda, deixa órfã uma legião de milhões e milhões de admiradores em todo o mundo.
Diz a lenda que em cada duas casas na Argentina, ao menos uma possui um livro da Mafalda. Já foi traduzida para pelo menos 35 idiomas. Nascida em setembro de 1964, a menina de olhar implacável, capaz de produzir tantas perguntas incômodas, dona de um coração generoso e cheio de esperança, alimentou o sonho de outras tantas meninas, nascidas numa década de grandes transformações. Atravessou o século XX com frescor, e chegou ao século XXI mais necessária que nunca. Demos adeus a Quino, mas não deixaremos Mafalda sozinha.
Em tempos de cólera e poucos amigos, de distanciamento social e ensino remoto, faremos uma pausa em todas as nossas questões circunstanciais para deixarmos aqui a nossa homenagem. A Mafalda encarna como poucas (e poucos) o espírito indagativo e desafiante que deve predominar na universidade. O olhar destemido para os poderes instituídos, para velhas verdades celebradas como imortais, a vocação crítica e o amor incondicional pelo mundo que habita, mas com a plena consciência do quanto é necessário transformá-lo: é preciso ter um pouco de Mafalda em todos nós. Precisamos ter a coragem de indagar o mundo com os olhos livres das respostas já gastas e conhecidas. Que ela sobreviva em nós. Sejamos nós a criança que não entende a fome, a desigualdade, a destruição do planeta pela voragem desmedida do dinheiro.  
Obrigada, Quino. Agradecemos por tanto que fez por nós. Por confiar na palavra escrita, desenhada, sentida e amada. Por confiar na arte, na beleza, na cultura, na liberdade de expressão, na busca pelo conhecimento, nas indagações da ciência e na capacidade crítica do pensamento. E por confiar no poder ilimitado que a Mafalda poderá ter, para sempre, de educar e transformar as pessoas. Sigamos com sua lição. Não desistiremos também.

Diretoria da AdUFRJ

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