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Maria Cecília Viana de Barros tem a mesma idade e a mesma ousadia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Engenheira, formada num tempo que a engenharia era ofício quase privativo de homens, ela foi aluna e professora da UFRJ. “Na minha turma éramos só dez moças no meio de um monte de rapazes. Éramos raridade”, recorda.
Nascida em 1920, Cecília se formou aos 23 anos. O curso de Engenharia funcionava no Largo do São Francisco de Paula, onde hoje estão os institutos de História e de Filosofia e Ciências Sociais. “Eu corria a Rua do Ouvidor todinha para chegar ao largo. Aproveitava, dava uma carreirinha na bomboniere que vendia coisas muito gostosas, comia um doce”, recorda a centenária professora.
A fala frágil, no início da conversa ao telefone, logo cedeu lugar a uma firmeza impressionante, recheada de memórias do tempo de estudante num Rio de Janeiro atormentado pelas notícias da Guerra e pelo Brasil da Era Vargas.  “Almoçava com meus amigos na Colombo. Mas não era naquela parte chique não. Era em pé, no balcão”. A gargalhada do lado de lá da linha deixa evidente a felicidade que as lembranças lhe geraram. “Era um tempo com tanto frescor...”, suspira.
 A paixão por lecionar logo fez a engenheira se destacar na universidade. “Sempre fui mais professora do que engenheira. E eu gostei muito de ser professora da UFRJ. Atuava na cadeira de Geologia e Mineralogia”, lembra.
A filha Maria Lúcia relembra da época em que acompanhava a mãe na aplicação de provas práticas. “Eu tinha uns dez anos. Ia junto para ganhar lanche na Colombo”, diverte-se. “Era um acontecimento ir ao Centro. Andar na Ouvidor, na Gonçalves Dias, era algo muito importante, chique. Vestíamos roupas de gala”.
Perguntada sobre como se sente tendo atravessado um século de tantas mudanças, a professora dá uma resposta tão simples quanto profunda: “Eu me sinto muito bem com as mudanças. A gente que tem filhos sempre está acompanhando as novidades, rejuvenesce”.

GRIPE ESPANHOLA
 “Nasci em 1918. No ano da gripe espanhola. No fim da I Guerra. Não tenho essa memória de tão pequena, mas minha mãe contava que foi horrível”, relembra a professora Maria Yolanda Abdelhay, aposentada do Instituto de Matemática. “Havia muitas casas com corpos aguardando remoção. Minha mãe era francesa e também vivia a aflição da guerra, porque tinha família na França”, conta a docente. “Por mais que o Brasil não estivesse em guerra naquele momento, a população sofria os impactos. Havia racionamento de tudo, principalmente de alimento”, descreve.
Com uma memória e lucidez admiráveis aos 102 anos, a professora recorda que terminou sua graduação na década de 40. “Naquele tempo, nos formávamos em Física e em Matemática. A faculdade funcionava próxima à Maison de France, no Centro. Tínhamos muitos professores estrangeiros. Um grupo grande era italiano e não falava português. Tivemos que aprender italiano”, diverte-se. “Durante a II Guerra, eles precisaram voltar para a Itália. Fomos nos despedir no porto. No navio estava escrito ‘diplomaten’. Naturalmente para que não fossem alvejados”, lembra.
A professora se tornou catedrática em 1960. As décadas seguintes foram muito duras para a universidade. A UFRJ perdeu 46 docentes, entre os que foram cassados ou assassinados pela ditadura militar. Foi invadida e teve o prédio da Faculdade de Medicina demolido.

DEVOÇÃO PELA UNIVERSIDADE
WhatsApp Image 2020 09 07 at 12.11.20PROFESSORA Maria Luiza Fernandes celebra seus 101 anos Maria Luiza Fernandes, 101 anos, docente do Instituto de Geociências, é apaixonada pela universidade e passou para a filha Liliam a mesma devoção. “Minha mãe me influenciou tanto, que segui os mesmos passos”, conta a professora da Escola de Educação Física da UFRJ. “Quando nasci, ela já era professora da UFRJ”, afirma. “Eu me lembro perfeitamente dela arrumando a roupa que iria dar aula no dia seguinte, tamanha devoção que tinha pela universidade”, lembra Liliam Fernandes.
Professora Maria Luiza completou 101 anos em agosto e já não pode conversar ao telefone. Ela teve participação ativa no que se tornou o Instituto de Geociências. Foi professora de 1940 a 1989. Gostava de desenhar mapas de clima e relevo à mão. “E coloria tudo para as aulas. Eu me lembro muito bem”, diz Liliam. “Ela foi uma entusiasta do ensino! Muito ativa, montou vários laboratórios. Fazia da UFRJ a sua casa”, lembra a filha. O instituto tem uma de suas instalações dedicadas à professora.

IMORTAL E PIONEIRA
Ocupante da cadeira número 8 na Academia Brasileira de Letras desde 2009, a imortal Cleonice Berardinelli é um dos grandes nomes da Faculdade de Letras da UFRJ. Especialista em Camões e Fernando Pessoa, a professora Emérita é reconhecida por ser uma das maiores estudiosas de Literatura portuguesa do mundo. Escreveu a primeira tese brasileira e a segunda do mundo sobre o poeta Pessoa.
“Ela lidava em sala de aula com uma paixão incrível”, conta a professora Eleonora Ziller, presidente da AdUFRJ. Eleonora foi aluna de Cleonice no doutorado e considera que as aulas da emérita transformaram sua formação. “Ter sido aluna da professora Cleonice Berardinelli significou muito mais do que eu poderia imaginar naquela manhã, quando decidi me inscrever no seu curso”.
Sua sobrinha, Sônia Botelho, falou à reportagem no lugar da professora que, aos 104 anos – completados no último dia 28 – já tem muitas dificuldades para se comunicar.  “A vida inteira, mesmo tendo dado aulas em outras universidades dentro e fora do país, quando se referia à UFRJ dizia ‘a minha faculdade’”, conta.  “Ela nasceu no início do século XX. Pegou as Guerras e o período da gripe espanhola. A história dela se confunde com a História do Mundo e com a do Brasil. Em particular, Revolução de 30, Ditadura de Vargas e, sendo filha de militar, tudo isto esteve bem próximo dela”.
Enfermeira atuante na Segunda Guerra, pioneira nos estudos literários, maior especialista brasileira em Fernando Pessoa, Cleonice Berardinelli deu aula até os 98 anos de idade.  “A titia é uma mulher à frente de seu tempo. Sobressaiu em tudo que fez mas, se perguntassem a ela, qual sua profissão, ela dizia: ‘sou professora da UFRJ”, resume.

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