facebook 19
twitter 19
andes3

WEBABREa1135Renato Feder tenta emplacar no Ministério da Educação. Mais que um trocadilho de mau gosto, seu nome revela a intenção do governo com a educação do país. Trata-se de um nome que atende ao centrão, uma nova concessão de Bolsonaro. Indicado pelo empreiteiro Meyer Nigri, articulador da campanha bolsonarista em São Paulo, Feder já havia sido cotado há duas semanas, mas perdeu a disputa para Carlos Decotelli. Com a desmoralização do nome técnico, o governo federal opta pelo pior quadro possível no campo conservador. Mas encontra fortes resistências entre evangélicos, militares e olavistas.
Ex-secretário de Educação do Paraná, Feder representa o pensamento privatista mais primitivo. No estado, já se posicionou contra a estabilidade dos servidores públicos e favorável ao voucher na educação. “O prognóstico é horrível”, lamenta a professora da Universidade Estadual do Oeste do Paraná, Silvana Souza. Diretora da Adunioeste, associação local dos professores, ela elenca os “feitos” de Feder para a educação no estado. “Ele desconstruiu a carreira dos trabalhadores da educação básica, tirou direitos, reduziu pessoal, reduziu turmas e aumentou o número de alunos por turma”.
A eficiência parece não ser seu forte. Feder é responsável por deixar alunos de 165 municípios paranaenses sem aulas. Conforme apurou reportagem do site The Intercept, ele contratou, com dispensa de licitação, uma rede de TV afiliada da Record para transmissão de vídeo-aulas para estudantes da rede estadual de ensino durante a pandemia. Mas a empresa não possui sinal de transmissão em praticamente metade do estado, onde vivem mais de dois milhões de pessoas, cerca de um quinto da população do Paraná.
03WEB menor1135Como ministro, a professora Silvana acredita que ele atuará fortemente na área de tecnologias para a educação e ensino a distância. “Ele tem interesse financeiro direto em softwares e educação a distância, já que é um empresário do setor”, opina. “Quer abocanhar os recursos, mas não discute a lógica da educação, os processos educacionais, a qualidade, a formação, a carreira”, critica a docente.
O diretor da AdUFRJ, professor Josué Medeiros, concorda com a avaliação de Silvana. “Os grandes filões que os empresários devem atacar com força serão a educação básica e o ensino a distância. É onde se pode ganhar muito com o volume de recursos movimentados”, acredita. Para ele, as universidades correm mais risco de sofrer com nova redução orçamentária, além de receberem incentivos para a criação de fundações que busquem financiamentos próprios, seguindo o modelo das universidades estaduais de São Paulo.
As articulações com o Congresso Nacional também podem ser facilitadas por Feder, já que muitos parlamentares – mesmo os que atuavam contra a gestão Weintraub – olham com simpatia para políticas que aliam os setores público e privado. “Um termômetro serão os parlamentares que compõem a Comissão de Acompanhamento do Ministério da Educação”, indica Josué Medeiros. A comissão foi criada na Câmara dos Deputados e avaliou os passos do MEC durante todo o ano passado. Este ano, os trabalhos ainda não foram iniciados por conta da pandemia. “Feder pode desfazer o consenso atual no Congresso e, por consequência, desmontar a comissão”.
No setor privado, o empresário também não tem boa fama. A empresa Multilaser, de Feder, foi denunciada pelos Ministérios Públicos do Rio de Janeiro e de São Paulo por sonegar R$ 22 milhões em ICMS para os dois estados. As quantias foram cobradas dos clientes, mas não foram repassadas aos cofres públicos. A denúncia foi apresentada em 2017. Ele e seu sócio, Alexandre Ostrowiecki, são nominalmente citados na ação que continua em tramitação na Justiça. O sócio, aliás, em entrevista à revista Isto é Dinheiro, em 2018, afirmou o seguinte sobre Feder: “Se eu estivesse sozinho, a Multilaser, provavelmente, ainda seria pequena. Mas se o Renato fosse o único no comando, talvez ela tivesse quebrado no primeiro ano”.
Com 42 anos de idade, Feder é formado em administração pela Fundação Getúlio Vargas e tem mestrado em economia pela USP. Seu Currículo Lattes não é atualizado desde 2002. Foi um dos principais apoiadores financeiros da campanha de Dória, em São Paulo, um dos motivos para a resistência da ala olavista.

Topo