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bandeira adufrjNa semana em que caminhamos para a trágica marca de 50.000 mortos, já tendo ultrapassado um milhão de infectados, algo se mexeu no velho tabuleiro da República. O pior ministro da história não teve mais espaço para permanecer no governo. Ele bem que tentou cair nos braços da patrulha bolsonarista mais radical, porém isso não foi suficiente para sustentá-lo. Não há que ter muito otimismo com o seu sucessor. Até aqui, as trocas de Bolsonaro sempre foram para pior. Entretanto, não se pode desprezar o significado dessa derrota para o governo. Em fevereiro, na edição especial de nosso jornal, avaliamos e analisamos a ação política e institucional desse ministro incapaz e o que saltou aos nossos olhos foi não só o seu desprezo pelas universidades, pela ciência, pela cultura. O que sempre esteve em primeiro plano de sua atuação foi a guerra ideológica travada nos termos mais rasteiros e torpes de seu guru astrólogo e a defesa diuturna das ações da família Bolsonaro. Sentado numa das mais cobiçadas pastas, não só pelo gigantismo do orçamento, mas pela expressão política que pode significar, desprezou toda e qualquer possibilidade de atuação na área, se fixando apenas em desmontar programas herdados dos governos anteriores. Um desastre em todos os sentidos, e por isso mesmo, talvez seja o mais bem-sucedido ministro de um governo cujo projeto é a destruição do nosso edifício institucional e de nossa ainda frágil democracia política. Por tudo isso, a sua saída é uma grande derrota para o governo, não há dúvida, e merecemos comemorar porque o desgaste não foi obra apenas de sua incontinência verbal, mas também de uma incansável campanha movida por todas as entidades e movimentos ligados à educação no Brasil.
Se o governo perdeu um de seus mais fiéis soldados, teve também o desprazer de ver aparecer aquele que representa o elo mais perigoso da família com as milícias do Rio de Janeiro e o mundo dos desvios de verbas, enriquecimento ilícito e lucros exorbitantes: Queiroz foi encontrado e preso pela Polícia Civil de São Paulo, por ordem judicial do Ministério Público do Rio de Janeiro. Com isso, as peças se embaralham, o jogo se complica e o campo se abre para ações mais decisivas para deter o avanço dos anseios autoritários tantas vezes anunciados pelo presidente. Nossa contribuição nesta edição é modesta, mas envolvida de muito significado: abraçamos a campanha em defesa do chargista Aroeira, levantamos a voz para nos opor de forma firme e resoluta contra toda e qualquer forma de censura, vinda de onde vier. Fundamento básico da vida democrática, a liberdade de expressão é ainda alimento indispensável para a vida universitária.
Tudo isso aconteceu durante uma semana tomada por extensas reuniões dos colegiados acadêmicos da UFRJ, em especial o CEG e o CEPG, onde o retorno às atividades de graduação e de pós-graduação foram o centro de todos os debates. Num quadro de incertezas e pouca visibilidade, a universidade parece ter optado pelo caminho da menor regulação possível, que pode causar incômodos e insegurança, mas talvez reflita o que é possível para o momento. Há ainda muitos pontos obscuros, muitas decisões precisam ser madurecidas e provavelmente várias decisões poderão ser revistas, mas como já havíamos sinalizado em nosso editorial anterior, já não está em pauta a realização ou não de um ensino remoto emergencial. A questão que se coloca agora é como e quando isso poderá ocorrer da melhor forma possível. Para os estudantes, a questão crucial são as garantias para que não haja exclusão e aprofundamento das desigualdades, mas para os docentes, o desafio também não é pequeno e traz questões trabalhistas sérias, exigências complexas e impasses a serem vencidos.
É o que temos para hoje: um quadro dos mais instáveis e difíceis, responderemos com a coragem que a vida nos exige.

Diretoria da AdUFRJ

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